capa 187A escrita é a vida

O impossível como ponto de partida da escrita de Marguerite Duras, autora francesa que será republicada no Brasil; como Tati Quebra Barraco construiu uma poética que subverte relações de dominação; o sociólogo Richard Miskolci discute a relação entre redes sociais e levantes conservadores no Brasil; uma discussão sobre Machado de Assis e sua formação em país pós-colonial.

Marguerite Duras em conversa no "Apostrophes", em 1984 (legendas em francês)

card ebook mensal SETEMBRO.21

José Castello

Everardo Norões

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Design sem nome

 

A seguir, você lê trecho do livro Mário Peixoto antes e depois de Limite, do pesquisador Denilson Lopes (UFRJ). A publicação tem lançamento online nesta quarta-feira (19), às 19h, em evento digital realizado pelo MAM-RJ.  O livro está à venda em e-book na Amazon. No texto A homossexualidade de Mário Peixoto e Octavio de Faria (ou também com a grafia Otávio de Faria), o autor investiga a relação do criador de Limite, filme chave para entender o modernismo brasileiro e que completa 90 anos em 2021, com o jornalista e membro da Academia Brasileira de Letras, autor dos 13 volumes de Tragédia burguesa

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A experiência da homossexualidade em conjunto com os interesses artísticos e filtrada por eles pode tê-los aproximado num primeiro momento, mas a convivência com essa experiência é diversa. O peso da culpa, importante para Octavio, não era visível em Mário. Ao menos, pelas cartas, houve um certo afastamento físico, talvez pela dificuldade em falar de assuntos íntimos. Mário Peixoto se distancia tanto dos ambientes intelectualizados do Rio de Janeiro quanto dos vinculados a sua família, após a morte de sua avó em 1936 e de seu pai em 1939. Havia uma diferença em relação à sexualidade na vida dos dois. O embaixador Mário Vieira de Mello lembra do incômodo de Octavio em relação ao tema: “havia um elemento no Octavio, engraçado, contra o sexo, contra a admiração do sexo, quanto à importância do sexo na vida, que o fazia resistir um pouco a um filme como Êxtase [marco de um cinema erótico de 1933], não pelo seu lado de realização cinematográfica, mas pelo seu conteúdo”.

Já a descoberta de Mangaratiba, no fim dos anos 1920, é decisiva para Mário Peixoto em mais de um sentido nas palavras de Saulo Pereira de Mello: “Como disse o Dr. Alcides (Rocha Miranda), quando o Mário foi para Mangaratiba, encontrou o mundo dos amigos servos, lá e aí ficou à vontade, não se sentiu como se sentia nestas reuniões de muitas pessoas. O progressivo afastamento da família tem, provavelmente, aí a sua origem. E a necessidade de proteção dos servos ou dos amigos iguais também. Depois de 1967, ele mais ou menos se tornou um ilhéu; vinha esparsamente ao Rio, e, parece, desgostou-se da Cidade”.

O que a região de Mangaratiba, seus habitantes, seus pescadores foram para Mário Peixoto a partir dos anos 1930 tem uma certa proximidade com o que o Fluminense foi para Octavio de Faria, mais tarde, em particular entre 1951 e 1953, quando foi diretor do time juvenil de futebol, no encontro afetivo e sexual com jovens. O tempo e a geografia dos desejos são diversos, embora pareçam pertencer a essa linhagem de intelectuais e artistas que não conseguem ou não desejam ter relações sexuais com pessoas da mesma classe social. No caso de Octavio, havia mesmo a tensão entre a fé cristã e segundo José Castello em Vinicius de Moraes - O Poeta da Paixão, Octavio tinha “uma paixão fervorosa pelos gregos. É um grego como seu amor refinado pela beleza masculina, de que, contra todo o moralismo reinante, não aceita abrir mão!”. “Adorava se ver cercado de rapazes saudáveis e belos.” Para além disso, Octavio de Faria, ainda segundo Mário Vieira de Mello, tinha mesmo fama de trocar de grupo de amigos. Além disso, são comuns os afastamentos que os vários momentos da vida trazem.

Mário e Octavio se mantiveram solteiros em grande parte da vida, nunca se casando com mulheres, nem deixando filhos biológicos. Da relação entre Octavio e Ariovaldo Miranda, que parecia trabalhar em banco, pouco sei. Já de Arleu, que Mário conheceu como garçom num bar nos anos 1940, temos um longo e sensível depoimento sobre sua convivência com Mário, a quem trata mais do que a um patrão, como a um pai, tornando-se, por fim, seu herdeiro.

Nos anos 1930, Mário e Octavio são marcados, ao menos, por grandes encontros afetivos e/ou sexuais que, por motivos diversos, não persistiram, e que podem ser um ponto de partida para esse outro Modernismo que nos interessa. Octavio de Faria tem um intenso relacionamento com Vinicius de Moraes, cinco anos mais jovem que ele, tendo os aproximado o cinema e sobre quem escreve um livro, em 1935. Declarou que, desde 1932, e até 1942, os três não estiveram mais juntos. Em um depoimento, Vinicius disse que conheceu Octavio em 1932, na antiga Faculdade de Direito do Catete. Vinicius ainda fala que Octavio era homossexual e que isso tinha sido confirmado por amigos que “transaram com ele”. Diz também: Mário Peixoto, que era “amigo íntimo de Octavio”, também era homossexual – e falou como se isso fosse muito claro e conhecido. Vinicius disse que, mesmo sendo íntimo de Octavio, e este íntimo de Mário, nunca conseguiu ser íntimo de Mário. Vinicius disse que tudo isso aconteceu possivelmente em 1932 – ou pouco depois. Lembra de Mário Peixoto como um homem de vinte e poucos anos. Disse também que foi mais ou menos nessa época que a amizade com Octavio “perdeu a intensidade” por causa de “motivos filosóficos”, que, disse Vinicius, “passaram a separar e não mais a reunir”. Vinicius, no entanto, reconheceu “o débito intelectual” que tinha com Octavio de Faria – “principalmente no que diz respeito ao cinema”.

Em outro depoimento de Saulo Pereira de Mello, há uma história um pouco diferente: “O Vinicius era de direita tal como o Octavio... o Paulo Francis, que tinha uma língua deste tamanho, escreveu no jornal que, quando Paris caiu nas mãos dos alemães, o Vinicius e o Octavio se abraçaram comovidos. Depois, como dizia o Plínio [Süssekind], “o Vinícius descobriu o povo e se afastou do Mário Peixoto e do Octavio”. Segundo Mário Vieira de Mello, “a família toda do Vinícius adorava o Octavio. Mãe, filhas, irmãos dele, todo mundo. Eles foram trazidos pelo Vinícius só quando nós já éramos um grupo. Nós fomos todos em grupo lá, o Almir (de Castro) foi cantar, o Almir cantava lá”. Para além do gradual afastamento ideológico, parece ter havido entre Vinicius e Octavio um desencontro afetivo e erótico, segundo José Castello, em sua biografia de Vinicius de Moraes. Ainda sobre a relação entre Vinicius e Octavio, diz o embaixador Mário Vieira de Mello: Mas essa paixão nunca se materializou, nunca se realizou, foi uma coisa que se revelava, por exemplo, no impulso dele dar um automóvel ao Vinicius, compreende? Quando ele me falou nesse projeto eu disse a ele: Octavio, não faça isso, o que é que vai pensar sua família, o que é que vão pensar as outras pessoas? Você vai dar um automóvel a título de que? Mas... e aparentemente ele nunca teve, nem o Vinicius... o Vinicius teve depois uns casos meios suspeitos de homossexualidade, mas isso nada tem que ver com o Octavio.

Vinicius de Moraes dá bastante ênfase ao papel formador de Octavio na sua vida e faz referência a uma longa e difícil carta escrita por Octavio a ele, datada de 15 de dezembro de 1932, em que, em meio a uma defesa de uma aristocracia do espírito e espiritualização do sexo, a relação entre os dois já parecia destinada a um fracasso pela vida boêmia de Vinicius, rapaz musculoso, cheio de namoradas. Relação que Castello vê enterrada na morte do personagem em Mundos Mortos (1937), que emula Vinicius. Vinicius não entende e não quer entender o que Octavio se esforça por lhe dizer e termina a carta assim: “Vou entregá-la daqui a alguns minutos para não ter tempo de relê-la e para ceder à tentação de fazer outra, menos impertinente e menos abandonada”.

Vinicius e Octavio iam muito ao sítio na serra. Há ainda uma nota no diário, de resto bastante literário e pouco pessoal, de Octavio de Faria, datada de 3 de fevereiro de 1934 que sintetiza, de forma poética, a presença de Vinicius em sua vida, sua intimidade, ao irem de caminhão, entre a fazenda de Itererê e Itajubá, passando, novamente, por precipícios (e a imagem de um caminhão passando por precipícios é importante). Continua Octavio: “Há muito, ando preocupado com essa necessidade de tentar... Tentar se deixar levar, correr riscos”. Depois do afastamento de Vinicius, é por esses riscos que Octavio se aventura: os literários, na construção de sua obra. Mas algo se perdera para sempre. Um amor de juventude. Abandona amores platônicos por seus iguais de classe e se deixa tomar pelo que a cidade lhe oferece dentro dos limites que sua posição social o constrange e da qual ele se beneficia. Nunca se casará, mas também não encarnará a figura transgressora de um Lúcio Cardoso.

O embaixador Mário Vieira de Mello, amigo tanto de Octavio quanto de Vinicius de Moraes, conta que, depois de retornar de seu estágio de sete anos fora do Brasil, não consegue manter a mesma intimidade do início dos anos 1930, “esse lado homossexual se desenvolveu mais, [Octavio] começou ir a futebol e se tornar amigo daqueles garotos que jogam futebol, e fazia amizades com eles; ele desenvolveu um tipo de amizade que era muito diferente da amizade que ele tinha por nós, por Almir [de Castro], embora o Almir também fosse homossexual, mas também que se revelou mais tarde, não é?”.

Essa amizade com jogadores de futebol é descrita também por Paulo Cezar Saraceni, em suas memórias, sem fazer referência a relações sexuais. Saraceni, que foi jogador do juvenil do Fluminense, lembra como Octavio escutava os jovens jogadores, dava conselhos, procurava resolver os problemas e mesmo dava dinheiro (1993, p. 8). Há mesmo uma referência a um jogo de futebol dentro do apartamento de Octavio na Praia de Botafogo (idem, p. 11). Curiosa era sua figura, de baixa estatura (1,60 m), sempre de terno, gravata e guarda-chuva pelas ruas e nos estádios torcendo pelo Fluminense.

Já de Mário Peixoto temos mais informação. Nos anos 1930, o fascínio por Raul Schnoor, ator de filmes nos anos 1920, de Irineu Marinho e Adhemar Gonzaga, além de Limite, não se desenvolveu depois do fracasso das filmagens de Onde a Terra Acaba. Raul Schnoor, depois de suas participações em alguns filmes, passou a morar em um sítio entre São Pedro da Aldeia e Cabo Frio, segundo sua irmã. Ele (1996) tem um depoimento pouco pessoal e distante no que se refere a sua relação com Mário Peixoto.

Contudo, tanto no depoimento de Rui Costa como no de Alice Gonzaga, o envolvimento sexual entre Mário Peixoto, Raul Schnoor e Brutus Pedreira teria sido o motivo de interrupção das filmagens. Talvez Carmem dos Santos tenha se sentido excluída afetiva e intelectualmente do filme. Num depoimento do crítico Pedro Lima, há um outro nuance: destaca o “homossexualismo” de Brutus e de Mário, mas afirma que Raul parecia estar fora da história – “era macho”. Diz que Mário não gostava de colocar mulheres nos filmes e foi por sua insistência que em Maré baixa [projeto nunca realizado], há figuras femininas atraentes.

Ainda, Mário teve uma relação, aparentemente platônica, com o poeta Felipe Daudt de Oliveira (1890-1933). Há ainda a relação com o músico Waldemar Henrique que precisa ser investigada e de outros que visitavam Mário em Mangaratiba ou os poucos registros de Mário no Rio de Janeiro nos anos 1950 e 1960. De todo modo, também Mário Peixoto foi à busca de prazeres, em parte reais, em parte imaginados. Experiência traduzida em poema:

[...] Janela aberta,
é o recalque das surpresas
que eu desvendo
e o amor impossível
que me arrasta para a praia
[...]
Eu amo o amor,
As manhãs de sol,
E as mortes escolhidas...
Só este corpo
Para compensar-me
De todas as danações
E só a corola macia
De uma flor
Para restringir-me ao
Contato
do que é verdadeiramente
grande
sem ser pobre.
Ignoro quem sou – como sei o que desejo