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Coreografias do desejo e outros voleios na dramaturgia de Grace Passô; a subversão do abusador de mulheres como motivo corriqueiro na literatura; Thiago Mio Salla fala sobre pan-lusitanismo e a recepção do romance de 1930 em Portugal; O olhar, um dispositivo literário: sobre Eneida Maria de Souza (UFMG) e seu "Narrativas impuras", novo livro do Selo Pernambuco/Cepe Editora

"Parto", leitura feita por Grace Passô (Flip 2017)

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José Castello

Everardo Norões

SFbBox by casino froutakia

Astolfo Marques reproducao.da.internet 

 

 

Mais adiante você lê Ser treze, uma breve ficção do escritor maranhense Astolfo Marques (1876-1918; imagem) a respeito do Treze de Maio, publicada no jornal Pacotilha em 1905. Duas comadres lembram dos antigos festejos e comentam sobre antigos escravizados que, libertos pela Lei Áurea, afirmavam terem sido alforriados antes disso, o que aponta para questões conflitivas em torno da memória da Abolição no início do século XX. 

O texto mostra tanto a presença de uma visão positiva sobre a lei de 1888 quanto aponta para existência de formas de se esquivar de uma memória edulcorada (a da Lei Áurea) que apaga as lutas das camadas populares e dos movimentos sociais para dar protagonismo à ação do Estado e das elites.

O conto integra o livro O Treze de Maio e outras histórias do pós-Abolição, que traz 17 ficções breves de Astolfo Marques, com organização e introdução do sociólogo e pesquisador Matheus Gato (Unicamp). O livro é um dos lançamentos de estreia da Editora Fósforo e confronta imaginários opostos e persistentes sobre os significados do 13 de Maio no Brasil. 

Escritor, jornalista e tradutor, Raul Astolfo Marques nasceu e morreu em São Luís (MA). Publicou contos e crônicas nos principais periódicos maranhenses, além de quatro livros — A vida maranhense (1905), De São Luís a Teresina (1906), Natal (quadros) (1908) e A nova aurora (1913). Foi autodidata, trabalhou como contínuo na Biblioteca Pública do Maranhão e fundou o grupo de intelectuais Oficina dos Novos, que daria origem à Academia Maranhense de Letras, da qual foi integrante.  

 

***

 

SER TREZE


À memória de Joaquim Serra [nota 1]

 

 

Anoitecera, havia pouco.

Na Avenida Maranhense conversavam, num dos bancos recentemente colocados ali no antigo largo do Palácio, as duas comadres Eleutéria e Raimunda Codó.

Decorreram muitos anos já que as duas mulheres não sabiam notícias uma da outra, apesar de noutros tempos serem unidas carne com ossos e morarem sob o mesmo teto, bebendo água juntas, dormindo na mesma tipoia, fumando no mesmo cachimbo e bebendo do mesmo mingau.

Circunstâncias imperiosas separaram as duas amigas, havia doze anos, ficando a Eleutéria na cidade e indo a Codó residir em Viana, donde só voltara em fins do ano passado.

Tão prolongada ausência, entretanto, não arrefecera aquela amizade fraternal. Pelo contrário, tornara-a crescente, e agora, que não mais se separariam, a Eleutéria apresentava à Codó uma criança vivaz e robusta para ela ser madrinha, ficando assim para todo o sempre alicerçada a antiga afeição.

A conversa se ia encaminhando sobre múltiplos assuntos quando na igreja da Sé o sino vibrou forte e sonoramente as sete horas. Parece que aqueles melífluos sons, ferindo os ouvidos das duas amigas, reavivou-lhes na memória cenas do passado.

Assim foi que a Raimunda Codó, lançando a vista para a Catedral, falou à amiga:

— Sabes de que me alembro, quando eu olho ali p’ra igreja da Sé? De quando gritou a liberdade; da festa de arromba que ali se fez, Eleutéria!

— É verdade, minha comadre, parece que foi ontem... Mas já lá se vão dezessete anos, que não são dezessete dias!

— A procissão de Nossa Senhora da Vitória, ali naquela Sé, pelo Treze de Maio, eu nunca vi outra mais bonita!

— E foi só isso? E as passeatas? Chega a gente não tinha mais tempo nem p’ra comer. De vez em quando os foguetes estouravam e a música zabumbava por aí afora, e lá a gente, se estava em casa, descansando, era só trançar a saia na cintura e ganhava o bredo.

— Tu te alembra da Margarida, aquela da casa das Macedos?

— Eh! Essa rapariga era levada da breca. Pois ela não teve coragem de, assim que chegou o telegrama dizendo que não havia mais escravos, chegar-se p’ras senhoras e dizer: “Agora todos somos iguais, quem quiser que vá ao Açougue. Quando as senhoras quiserem, têm uma casa às ordens no beco do Rancho”! E foi saindo acompanhada dum carroceiro com o seu baú na cabeça. As brancas ficaram todas com cara de André.

— E quando se fez uma passeata para cumprimentar o Maranhense e o Victor Castello,[nota 2] que Deus os chame lá, que os pretos do Jerônimo Tavares apedrejaram a casa daqueles brancos que tinham muitos escravos, lá na praça d’Alegria?

— Mas, minha comadre, tudo isso contado não é acreditado. E a Vitória, das “Corações de Ferro”,[nota 3] que largou o balde lá no mercado, e não apareceu mais nas casas das senhoras...

— ... Que elas mandaram a polícia e o chefe respondeu que o tempo de prender escravos já se havia acabado, que agora eram todos iguais.

— E elas ficaram com a cara deste tamanho!

— E nunca que a Vitória foi perdoada, pois, quando o Queirós foi delegado de polícia, elas arranjaram um aranzel com a rapariga que ela não só se meteu em bolos como teve a cabeça raspada.

— Mas o que não se pode negar é que as festas foram de estrondo.

— Também, foi só naquele tempo. Hoje está tudo mudado. Nem uma festinha mais se faz p’ro Treze de Maio.

— Sabe quem ainda faz um festejozinho, muito limitado, quase só p’ros de casa e os mais amigos? É nhá Amância, lá no Caminho Grande.

— E que não tinha obrigação, pois ela não foi treze. Ela é das que têm carta no cofo; ao passo que as tais de “alforria por decreto”, assinado com pena d’ouro, essas se vão esquivando...

— É, minha comadre, a grande questão é que, hoje, ninguém quer ser treze; quando se puxa uma conversazinha diante dos que foram, eles vão logo escapulindo-se.

— Pois, outro dia, senhora, eu não tive uma pega com a Maria Benedita, lá no canto do Ribeirão?

— Deveras, minha comadre?

— É como te digo. Ora, nós que conhecemos Maria Benedita desde negrinha, com aquela canela seca, vendendo arroz de Veneza, da fazenda do coronel Gonzaga! Sabes o que ela teve coragem de dizer, na minha presença? Que ela foi forra na pia,[nota 4] que nunca conheceu cativeiro, que foi criada como branca e outras gabolices mais. Ora dá-se p’ra isso!

— Muito bem arranjado, esse negócio! Ora a Maria Benedita! Ela que dê uma folga nisso, e que faça por menos...

— Mas também, eu desanquei a negra que ela ainda me fiou restando! E ela agora há de andar na certa comigo. Trastejando, eu ’stou-lhe no piso...

— Quando ela estiver com essas pabulagens, diga-lhe: “Cuida com o teu corpo, rapariga, que tu não ’tás fazendo nada”...

— Não, p’ra cá agora ela vem de carrinho; quando não, estamos com o carro no toco. Na minha presença ninguém vem se apurar.

— Bem faço eu, que não nego o que fui. E p’ro quê? Eu sei perfeitamente que Deus Nosso Senhor não deixou cativo no mundo, que isso foi uma história dos homens. Por isso não vejo de que me hei de envergonhar. Digo em alto e bom som que fui escrava, e que achei um filho de Deus que deu por minha carta quinhentos bagarotes! Tenho-a no meu cofo!

— E eu digo em alto e bom som que fui liberta no dia primeiro do ano de oitenta e oito, do mesmo em que veio a lei de Treze de Maio. Sabes como os meus brancos eram atilados. Parece que a coisa rosnou lá por cima e eles, p’ra fazerem “um bonito”, passaram a minha carta. Já se vê que eu também tenho carta no cofo...

— Bom, assim como nós, está bem, porque só dizemos a verdade. Mas essas outras que por aí andam, que p’ra não dizer nem que foram treze nem que têm carta no cofo, dizem que foram forras na pia?! Ah! Uma onça!

— Estão pensando que a gente veio ao mundo ontem. Mas hão de ser sempre desmascaradas.

— Dê daqui, dê dali, o que é certo é que o Treze de Maio aí vem e não se fala numa só festa, a não ser nessa de nhá Amância e, talvez, algum arrasta-pé em casa de nhá Domingas. Pra que tamanha ingratidão com esse dia, que é grande, que é todo nosso!

— Eu cá por mim sempre guardei o dia e hei de guardar enquanto Deus Nosso Senhor me emprestar vida e saúde. É o mesmo que ser um domingo ou um dia santo grande...

— A mesma coisa se dá comigo. E o que há mais de admiração nisso é que nenhuma de nós foi treze; temos ambas as nossas cartas no cofo.

— É por isso que dizem que o melhor sentimento é o que se concentra no coração e não o que se alardeia. Não fazemos festa porque não podemos; mas guardamos o dia com a maior veneração, cá no nosso peito. Ser treze é uma grande coisa, Eleutéria!

— É uma honra, minha comadre!

Estas últimas palavras foram saudadas pelo mesmo sino, que, dando agora as nove horas, o sonoro e cadenciado bimbalhar como que bendizia aquelas duas mulheres que numa linguagem simples, banal, confessavam o seu ardente patriotismo, o seu amor e devotamento pela grande data dos brasileiros.

*

A estas horas certamente que, como elas, muitos comemoram no coração a data da lei que fraternizou os nacionais e que, igualando pretos e brancos, prenunciou uma nova era — a do recorte do solo livre pelo braço livre, lavrando-o e fertilizando-o para tornar o país grande entre os que são os maiores no concerto das nações...


Pacotilha
13 de maio de 1905

 

 

NOTAS

*Todas as notas são do livro O Treze de Maio e outras estórias do pós-Abolição.

[nota 1] Joaquim Maria Serra Sobrinho (1838-1888) foi um jornalista e escritor maranhense que se destacou na luta contra a escravidão no Brasil. Em São Luís colaborou com diversas revistas literárias, entre as quais A Coalisão, Ordem e Progresso, Imprensa e o Semanário Maranhense. No Rio de Janeiro, para onde deslocou-se em 1868, colaborou em jornais de feitio liberal como A Reforma e A Folha Nova. A maior parte dos seus textos em favor da Abolição era assinado por pseudônimos, fato que contribuiu para que seu nome caísse na obscuridade. Machado de Assis nos legou o seguinte depoimento sobre o autor (na Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 5 de novembro de 1888): “Era modesto até a reclusão absoluta. Suas ideias saíam todas endossadas por pseudônimos. Eram como moedas de ouro, sem efígie, com o próprio e único valor do metal. Daí o fenômeno observado ainda este ano. Quando chegou o dia da vitória abolicionista, todos os seus companheiros de batalha citaram gloriosamente o nome de Joaquim Serra entre os discípulos de primeira hora, entre os mais estrênuos, fortes e devotados; mas a multidão não o repetiu, não o conhecia”.

[nota 2] O autor refere-se a José Maria Baptista Maranhense e Victor Cancio da Silva Castello. Descritos como homens de cor, ambos foram, em 1885, fundadores do Clube Artístico Abolicionista Maranhense. Infelizmente a literatura historiográfica ainda não se debruçou sobre a trajetória desses dois ativistas. Entretanto, o escritor negro José do Nascimento Moraes (1882-1958) nos deixou um vivo perfil de José Maria no romance Vencidos e degenerados (1915): “Maranhense era mulato, mais baixo que alto, e careca. Contava quarenta e tantos anos, grisalho, gordo e simpático. Marceneiro de profissão, e estudante nas horas vagas, tinha decidido gosto pelas letras, pela ciência, por tudo enfim que fosse domínio da inteligência humana. Se bem que não lhe fosse possível cultivar o espírito com o trato constante do estudo, em disciplinas regulares, fazia, contudo, o que estava ainda à altura de suas forças; procurava relacionar-se com os literatos da terra, chegava-se a aqueles de quem apregoavam um espírito esclarecido; e, como era inteligente, de uma assimilação fácil, deu força à sua loquacidade. José Maria discutia, argumentava, tinha ideias e pensamentos, e os expunha sempre, defendendo-os quando se fazia preciso, ajudado do bom senso que sempre tivera. Entusiasta impressionável, agitador e cheio de resolução, entre os abolicionistas do grupo tomou posição evidente, e sua casa, que já era um ponto de conversação assiduamente frequentado por muitos intelectuais da época, tornou-se um dos centros de reuniões de abolicionistas. Os escravos o consideravam um dos seus protetores; e, porque ele era sincero na causa que defendia, eles o procuravam a todo momento para tratarem da liberdade deles”.

[nota 3] O autor, provavelmente, refere-se a senhoras de escravos maldosas, assim apelidadas e conhecidas na cidade.

[nota 4] Expressão que designava as pessoas que foram libertadas ao nascer, no ato de batismo.