capa 187A escrita é a vida

O impossível como ponto de partida da escrita de Marguerite Duras, autora francesa que será republicada no Brasil; como Tati Quebra Barraco construiu uma poética que subverte relações de dominação; o sociólogo Richard Miskolci discute a relação entre redes sociais e levantes conservadores no Brasil; uma discussão sobre Machado de Assis e sua formação em país pós-colonial.

Marguerite Duras em conversa no "Apostrophes", em 1984 (legendas em francês)

card ebook mensal SETEMBRO.21

José Castello

Everardo Norões

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Sergio Rubem inedito.mai.21

 

 

"Se Lúcia McCartney existe, tudo é permitido", escreve Sérgio Sant’Anna (1941-2020) sobre a narrativa e o livro homônimo de Rubem Fonseca (1925-2020). Lançado em 1969, Lúcia McCartney recebeu uma crítica elogiosa de Sérgio, que se consolidaria, mais tarde, como um mestre do conto. Para Sérgio, o trabalho de Rubem seria uma espécie de agente renovador da narrativa curta no nosso país.

Abaixo, você lê a íntegra do texto de Sérgio, A propósito de Lúcia McCartney (1970) — talvez um diálogo mediado pela escrita e leitura entre dois gigantes do conto no nosso país. O ensaio integra o livro O conto não existe (Cepe Editora), que reúne textos de não ficção em torno de Sérgio Sant’Anna, sejam os de sua autoria ou os de outros.

Organizado por Gustavo Pacheco e André Nigri, o livro é lançado nesta segunda (10) em live no canal da Cepe Editora, a partir das 19h. Além dos organizadores, participam da discussão a pesquisadora Giovanna Dealtry (UERJ), o escritor André Sant’Anna e o editor deste Pernambuco, Schneider Carpeggiani.

O conto não existe é o mais novo livro do Selo Literário Pernambuco/Cepe Editora e você pode adquirir seu exemplar clicando aqui.

 

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A PROPÓSITO DE LÚCIA MCCARTNEY

O sobrenome de Lúcia é dos mais adequados. E trata-se, evidentemente, de uma homenagem ao quarteto de Liverpool. Mas Lúcia McCartney é mais do que um nome de mulher e título de conto e livro. Lúcia McCartney é um exemplo radical deste CONTO BRASILEIRO da década de sessenta.

Os anos “sessenta” terminaram; foram loucos, selvagens e vertiginosos. Mas todos os adjetivos do mundo seriam insuficientes para descrevê-los. Uma nova “belle époque”, princípio do caos, a era da automação, a idade espacial, o apocalipse? Tudo isto, talvez. Ou nada. Porque, de que realidade estamos falando: a de ontem, a de hoje, a de daqui a meia hora? Mas algo é certo: as cenas principais foram executadas ao som das guitarras elétricas e os participantes, quando não eram cientistas loucos ou astronautas higienizados, possuíam cabelos compridos e carregavam um ar de descrença ou deboche. E os valores? Mas que valores? As coisas passam antes que se possa solidificar uma opinião sobre elas. E, mais uma vez, houve a rebelião do comportamento. E quem não prestou a atenção de repente viu as caras e o cenário mudados. O bandido virou mocinho e vice-versa. É neste contexto que existe Lúcia McCartney, como gente e como personagem.

Porque a arte é uma correspondência ao mundo. Em meio a “pops” e “ops” muita água rolou também no Brasil no campo da arte. Não vamos esquecer que nesta década (o fim dos anos cinquenta é aqui absorvido) surgiu para nós o cinema e uma harmonia nova, nascida com João Gilberto. Mas na literatura o processo parece mais lento, porque menos festejado. Mas as coisas aconteceram; só que não repararam muito nelas, porque a maior parte dos consumidores de livros no Brasil ainda hesita numa era pré-industrial: José Mauro de Vasconcelos. Mas o negócio está melhorando: a outra parte dos consumidores, aquela que lê livros, já chegou à literatura latino-americana. Qualquer dia, descobre-se o Brasil.

Não se trata do romance brasileiro, é claro, que anda, quase sempre, tímido e ruborizado. Afinal, Guimarães Rosa e Clarice Lispector já são instituições reconhecidas, pedindo uma continuação. O que se quer falar, aqui, é da tremenda renovação por que passou o conto nacional nesses últimos anos. Haveria, certamente, uma projeção internacional, não fosse a língua portuguesa.

No Brasil tudo é um concurso permanente e nos habituamos a considerar Dalton Trevisan o maior contista do país. Palmas para ele. De fato, Trevisan é um grande contista, na sua permanente trajetória rumo ao despojamento. Mas o rei está seminu. Porque ele só tem uma jogada, embora a execute cada vez mais rápida. Terminará por escrever telegramas e o expedidor e o destinatário serão João e Maria. Mas o certo é que existe outras passagens e personagens no mundo além dos maridos traídos de Curitiba.

Mas a equipe não é composta só pela “estrela”. Há lugar para todos e várias tendências a explorar, sem a mesquinha preocupação do “maior” ou “menor”. Se repararmos bem, há muita gente boa jogando no time e modificando, talvez, os próprios fundamentos do jogo. A ficção nacional (não se analisa aqui os motivos) está se renovando através do conto. Pode-se mesmo vislumbrar uma contribuição de caráter internacional. Porque um dia as barreiras serão transpostas e estes autores, traduzidos e difundidos. Há uma longa lista, passando (sem esgotá-la) pela sóbria invenção de Samuel Rawet, o mundo mágico e lírico de J. J. Veiga, o universo insólito e totalmente livre de Moacyr Scliar, a harmonia abstrata e dissonante de Nélida Piñon, o submundo de João Antônio, a infância e adolescência desmistificadas de Luiz Vilela. E vários outros. E, finalmente (já que o regime monárquico e o protocolo o exige), o novo rei: Rubem Fonseca.

Dificilmente se encontrará um contista com universo tão abrangente quanto Rubem Fonseca. Este escritor está atento para todas as coisas do mundo e para elas lança um olhar extremamente penetrante. Suas inovações formais correspondem sempre à necessidade de melhor absorver este mundo. Nada de formalismos estéreis, que já nasceram velhos e servem para camuflar a importância do escritor. Em Rubem Fonseca há uma trajetória bem definida, iniciada com Os prisioneiros e depois A coleira do cão, verdadeiros impactos para quem estava atento, quando se percebeu lançada no mercado uma literatura moderna e vigorosa. Um mundo que ia desde os halterofilistas e os distritos policiais até as mais sofisticadas estórias de amor, com um tratamento formal sempre apropriado. A par disto, uma erudição e riqueza existencial apresentadas sem ostentação. Poder-se-ia dizer que Rubem Fonseca levara a sobriedade e contenção formal até o limite de uma corda esticada ao máximo. E, por vezes, quando este limite era ultrapassado, encontrava-se o leitor diante de uma audácia praticamente inédita no conto brasileiro. É o caso de O gravador, onde R. F. levou o diálogo, onde é perfeito, ao paroxismo. E o som, o puro som (e mesmo o silêncio) era captado e transmitido não através de alto-falantes, mas da palavra escrita, elevada a um novo potencial.

Depois do grande acerto dos dois primeiros livros, os derrotistas poderiam temer uma estabilização por parte de Rubem Fonseca. Uma estabilização em alto nível, seria. Mas Lúcia McCartney logo desfaz este temor. Um terceiro impacto, desta vez com estampido, atingindo, assim, alguns ouvidos mais surdos. Lúcia McCartney é o mais importante livro de ficção brasileira dos últimos anos. Importante tão por causa do eterno concurso, mas porque quebra cadeias e abre um horizonte imenso.

Neste ponto, é bom desconfiar do tão comentado conflito de gerações na literatura brasileira. Ou, pelo menos, é útil observar que o conflito não é de idade, mas de mentalidade. O grande artista, ao que parece, possui uma temporalidade mais elástica. Pois a verdade é que ninguém mais do que este quarentão e diretor da Light (outro paradoxo?) sacudiu a poeira dos porões da ficção nacional. Lúcia McCartney comprova isto.

Não se trata aqui de desmontar o livro, ao modo dos tecnocratas (a quem muitas vezes escapa o essencial, embora percebam, quase sempre, o arcabouço em que ele é fundado), mas de situá-lo em sua importância e que isto motive os leitores potenciais.

Começando com Desempenho, que faz parte da família de um de seus contos antológicos do livro anterior – A força humana –, Rubem Fonseca torna-se cada vez mais ousado e oferece logo em seguida este fabuloso Lúcia McCartney, que estabelece o novo caos (ou a nova ordem) na ficção brasileira. Nunca um conto foi tão representativo de uma época e nunca o famigerado duelo forma-conteúdo conheceu equilíbrio semelhante. O mundo de Lúcia é complexo e fascinante, como o é a literatura de Rubem Fonseca. Por isto: diálogos verdadeiros e diálogos possíveis (com todas as alternativas); cenas e sonhos (verdadeiros e inventados); cartas, telefonemas; chaves e subdivisões; truques gráficos etc. Se Lúcia McCartney existe, tudo é permitido.

A partir daí, o livro de Rubem Fonseca é uma sucessão de surpresas, nesse exercício tão temido que é o da liberdade. Os próprios títulos dos contos o confirmam. R. F. não tem medo de levar essa liberdade até o fundo do fundo. Asteriscos, a utilização de um “meio”, que é o conto, para a autocrítica destes mesmos meios modernos de comunicação; Corrente, Os inocentes e Âmbar gris, a radicalização do gênero, contos rapidíssimos (que alguns preferem chamar de minicontos, numa rotulação de gosto duvidoso), mas que prosseguem com o leitor muito tempo depois de a página virada; J. R. Harder, executive e Correndo atrás de Godfrey, tragédias prosaicas e modernas, contos bilíngues para uma temática internacional; Véspera, o anticonto de Natal. E este A matéria do sonho, que, sem ser formalmente o mais ousado, é uma obra-prima do conto mundial. O homem posto a nu, silenciosamente sofrido, solitário e impelido a amar. E vários outros, até terminar neste Relato de ocorrência em que qualquer semelhança não é mera coincidência. Isso mesmo, um simples relato, secamente um relato, no modo dos relatórios ou roteiros de cinema: um caso narrado com toda a objetividade, mas um caso que transcende o circunstancial, porque é um caso onde estamos todos profundamente envolvidos em nossa situação humana: “Um relato de ocorrência em que qualquer semelhança não é mera coincidência”.

Rubem Fonseca, acreditamos, alcançou aquele estágio onde o escritor não simplesmente escreve, na base da intuição, mas começa a refletir sobre sua própria arte. Daí aquilo que se assemelha a uma progressiva desintegração formal. Não lhe basta apenas dar um recado, mas também questionar-se sobre o meio como este recado é dado. Este, pensamos, é o estágio da maturidade e costuma ser o ponto de partida para uma criação ainda mais fecunda.

Entretanto, é tarefa inútil dissecar esse livro de Rubem Fonseca. Não há nada que os contos não traduzam melhor do que qualquer análise. O projeto, aqui, além da homenagem, é somente o de retirar uma lição e uma opção.

Os saudosistas continuam a falar em Hemingway e a estabelecer certas regras para o conto. O escritor americano seria o ideal e perene modelo. Os diálogos de Hemingway, a objetividade de Hemingway etc. Tudo muito certinho e no lugar apropriado. Mas Hemingway está morto e o espetáculo deve continuar. E depois da morte do artista principal muita coisa foi acrescentada ao espetáculo. E ao artista, mesmo na corda bamba, foi dada (ou conseguida) uma liberdade sem limites. Ele pode até cair, se quiser. Afinal, já existiu na história da literatura um irlandês chamado James Joyce. Não sejamos, pois, os últimos a reconhecer este óbvio: NÃO HÁ MAIS REGRAS NO JOGO.


Suplemento Literário do Minas Gerais 

(Janeiro de 1970)