capa 187A escrita é a vida

O impossível como ponto de partida da escrita de Marguerite Duras, autora francesa que será republicada no Brasil; como Tati Quebra Barraco construiu uma poética que subverte relações de dominação; o sociólogo Richard Miskolci discute a relação entre redes sociais e levantes conservadores no Brasil; uma discussão sobre Machado de Assis e sua formação em país pós-colonial.

Marguerite Duras em conversa no "Apostrophes", em 1984 (legendas em francês)

card ebook mensal SETEMBRO.21

José Castello

Everardo Norões

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Capa.set18 3 Hana Luzia 

 

Hoje (3 de março) estão completos os 85 anos da prisão de Graciliano Ramos (1892-1953) pelo Estado Novo (1937-1945), evento disparador de uma experiência tematizada em sua produção literária, em Memórias do cárcere. É por meio dessa experiência que Silviano Santiago pensa a criação literária do autor alagoano em Fisiologia da composição, livro recente do Selo Pernambuco/Cepe Editora.

Abaixo, você lê um trecho de Fisiologia em que o autor fala sobre o corpo e a narrativa das Memórias do autor alagoano. Além de Graciliano e de suas Memórias, Silviano discute a gênese literária das obras de Machado de Assis (1839-1908) e a partir seus romances, como Em liberdade (1981).

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Liberdade, a palavra, aparece 51 vezes nas Memórias do cárcere. No entanto, é indispensável alguma precaução semântica no tratamento do vocábulo. No estilo de Graciliano Ramos, a liberdade tal como almejada pelo preso político não se assume como valor absoluto, já que não se confunde com a liberdade universal, filosoficamente almejada para a condição humana. Ela, na cadeia, expressa apenas o se mexer (sic) livre do ser humano. Lemos na página inicial do livro: “Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer” (grifo meu).

Se oprimido pelo estilo alheio, caso de Em liberdade, o corpo do escritor alagoano se mexe no interior duma forma-prisão, em quase tudo semelhante às propostas pela sintaxe e o Dops.

A liberdade do prisioneiro político não depende apenas da vontade do homem. Ela se deixa fabricar por ele entre os estreitos limites coercivos que, no mestiere di vivere (Cesare Pavese), são impostos a todas e a todos os encarcerados, indistintamente. Fora do cárcere, o prisioneiro continuará prisioneiro. Não terá a liberdade que julga poder usufruir na condição de interno que se julga inocente. Ser prisioneiro é consequência da condição linguística, e sociopolítica e econômica, do humano. Liberdade política é valor precário (ela não é “completa”, para citar o adjetivo no texto de Graciliano). Evidências do valor extramoral da liberdade são o inevitável uso correto do léxico e da sintaxe em língua nacional (ou nalguma língua dita universal, como o francês ontem e o inglês hoje), ditado pelo dicionário e pela gramática, e o comportamento social, político e econômico do cidadão, devidamente vigiado e punido pelas leis vigentes, legais ou ilegais. Conquista-se a liberdade em exercício individual entre manifestações concretas, variadas e violentas, de coerção.

Qualquer forma de poder imposta pela força ou pelo espírito humano ao indivíduo é coerciva. A prisão política do cidadão é um condicionamento entre outros de poder ditatorial, apenas uma variável da servidão humana. Lembre-se o belo título de romance de Somerset Maugham, Of human bondage (Servidão humana, na tradução de Antonio Barata). O exercício de liberdade do cidadão no campo do possível é, aliás, juízo recorrente na criação literária de nossa época. Citem-se versos de Píndaro, em epígrafe à coleção de poemas Charmes (1922), de Paul Valéry: “Ó minha alma, não aspire à vida imortal, mas esgote o campo do possível!”. Os versos de Píndaro reaparecem em outra epígrafe, a do ensaio Le mythe de Sisyphe (1942), de Albert Camus, autor traduzido por Graciliano Ramos pouco antes da redação de suas memórias. Aliás, a última frase do narrador de A peste incorpora precocemente os juízos de Graciliano sobre o encarceramento do ser humano na desgraça:

ele sabia que o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.

Em Memórias do cárcere, a tentação da inércia absoluta — consequência do entorpecimento do exercício corporal causado pelo encarceramento — não se confunde com o desejo de morte do prisioneiro, ou seja, com a fuga pelo suicídio, “uma virtude fúnebre”, como o caracteriza Stéphane Mallarmé no poema Hérodiade. As memórias tampouco pactuam com a tradição artística estabelecida, por exemplo, pelo escritor Georges Bernanos (que viveu no Brasil durante a Segunda Grande Guerra) e pelo cineasta Robert Bresson, dois dos principais artistas jansenistas franceses. Eles associam o confinamento político ao religioso, elaborando simbolicamente os limites extemporâneos da fé religiosa e os voluntários da vida monástica.

Tal como tematizado no cárcere, o corpo prisioneiro de Graciliano Ramos e sua sobrevida — a liberdade de viver/a liberdade de criar — é complexa e precisa ser analisada em detalhes textuais.

Em ser humano tão ávido de excitantes para a rotina cotidiana e de liberdade para a criação, a tentação da inércia — infelizmente, única a sair vencedora ao final das memórias — lhe é injetada de fora para dentro do corpo prisioneiro. Ou melhor, a inércia é ingerida pela boca sob a forma de substância líquida, o café. Excitante, o café passa a ser o responsável pelo entorpecimento físico do encarcerado. No plano da imaginação criativa, do trabalho criativo e da sexualidade, ele exercerá uma sequela de efeitos negativos de dentro para fora do corpo. Primeiro, o entorpecimento físico impede que a trágica experiência do escritor se reproduza sob a forma de escrita ficcional ou autobiográfica. Segundo, impede ainda que o corpo se excite nos encontros casuais com as mulheres prisioneiras. O café, um dos excitantes preferidos de Graciliano, é contraditoriamente causa da inibição do encarcerado, diante do papel em branco, do bloqueio do esforço de criação literária e, ainda, causa da anafrodisia.

Inibição e bloqueio baixam ao cárcere quando o escritor querutilizar as folhas de papel em branco que o faxina lhe traz. Cito:

as dificuldades imensas que me surgiam quando buscava utilizar o papel trazido pelo faxina. Sempre compusera lentamente: sucedia-me ficar diante da folha muitas horas, sem conseguir desvanecer a treva mental, buscando em vão agarrar algumas ideias, limpá-las, vesti-las; agora tudo piorava, findara até esse desejo de torturar-me para arrancar do interior nebuloso meia dúzia de linhas. Sentia-me indiferente e murcho, incapaz de vencer uma preguiça enorme e subitamente aparecida, a considerar baldos todos os esforços.


Passageiramente, abrandam-se a consciência da inércia e a dor da inação. Entorpece-se o corpo vivo. Autotortura-se a imaginação criadora.

Tal como servido no cárcere, o café é estimulante paregórico (etimologicamente, paregórico significa próprio para consolar, para acalmar). Ele é estimulante entorpecedor do corpo, da imaginação e do desejo sexual. Será também “misericordioso”, como o adjetiva cristãmente a dra. Nise da Silveira, companheira de cárcere (v. adiante). O encarcerado não seria mais torturado pelo desejo sexual e não cairia nas armadilhas da odienta homossexualidade. A formação da famosa médica e psicanalista em colégio de freiras talvez a situe no conjunto dos artistas jansenistas, Bernanos e Bresson, mencionados anteriormente. No cárcere, a tentação da inércia aniquila tanto a sedução e o poder da arte, já anotamos, quanto a sedução e o poder da mulher. Cito: “Surgiu-me de repente anafrodisia completa. Súbita desaparição dos desejos eróticos e um resfriamento geral, espécie de anestesia; órgãos se embotavam, paralisavam; a esquisita impressão de haver em mim pedaços mortos. Porque diabo me vinha aquilo de chofre?”. Impera, solitária, a sedução e o poder do café. À disposição da vontade do encarcerado. Não há como o viciado em café se mexer entre os limites estreitos a que a arte e a mulher o forçam e o coagem. A imaginação criativa brocha no papel, o corpo sexualizado, na cama. Secam-se, na fonte, a tinta e o esperma. Inibem-se a mente e a libido. Perdem sua vitalidade. De maneira imprevista e contraditória, a inércia é induzida no corpo de Graciliano Ramos — ironia maior da condição carcerária nas memórias — pelo hábito de ingerir três estimulantes prediletos — dentre eles, o café.

Durante o decorrer das memórias, o vocábulo café (logo depois de sua ingestão) metaforiza o entorpecimento vital do prisioneiro. O leitmotiv café se institui como o lugar textual onde o corpo tematizado do prisioneiro político nomeia mais claramente o esmorecimento gradativo da vontade de viver, do desejo de criar arte e de transar.

De outra perspectiva, pode-se entender esse esmorecimento pela intoxicação causada pelo café e pela exigência dos dois outros e verdadeiros estimulantes, a aguardente e o tabaco. No Autorretrato aos 56 anos, Graciliano, na terceira pessoa, não menciona o café, mas afirma: “Gosta de beber aguardente” e “Fuma cigarros ‘Selma’ (três maços por dia)”. Antes da prisão, na casinha de Pajuçara, em Alagoas, o gosto e o prazer do café se misturam aos da aguardente e se combinam com os do tabaco. Corpo e imaginação, se ativados pelos três estimulantes, funcionam a contento e são capazes do aparentemente impossível em escritor tão exigente. Encarcerado, Graciliano relembra a redação da conhecida cena de assassinato no romance Angústia e observa: “Esse crime extenso enojava-me. Necessários os excitantes para concluí-lo. O maço de cigarros ao alcance da mão, o café e a aguardente em cima do aparador. Estirava-me às vezes pela madrugada” (grifo meu).

O café adocicado e enjoativo normaliza o nojo de viver e o de escrever. E o desejo de transar.

Na manhã do segundo dia de cárcere no “Pavilhão dos Primários”, o café é servido ao escritor e homem político alagoano e força seu conhecimento da nova vida cotidiana. “O longo bico de um bule enorme passou entre os ferros da grade”. Os prisioneiros buscam rapidamente os canecos de alumínio que lhes foram oferecidos na véspera. Servem-se com prazer. Os leitos individuais viram mesas e cadeiras. Anota: “bebi o café adocicado, enjoativo”. O café não é do seu gosto e não lhe proporciona o prazer e o estímulo esperados. Adocicado, enjoativo — a adjetivação negativa para o café servido, anotada uma vez, será leitmotiv a acompanhar o corpo do prisioneiro e o café durante o transcorrer das memórias. O estimulante não se fez acompanhar dos parceiros aguardente e tabaco, e, mais grave, não é o café do seu gosto. Assim mesmo, o interno o toma. Com a assiduidade de viciado. O desgosto não vai além de motivo de desprazer, já que não minimiza nem desgasta nem corrói o poder do vício diário. É o hábito que faz o monge: “me acostumara a beber diariamente dois canecos do café adocicado e enjoativo, com saibo de formiga”. A tentação da inércia se evidencia nas repetidas ingestões do estimulante.

No entanto, seu efeito paregórico só se aclara em momento seguinte ao em que Graciliano observa a perda do estímulo sexual por parte do companheiro Sérgio: “presumi Sérgio indiferente à beleza física [das companheiras femininas], só interessado nas relações intelectuais, a carecer de sexo”. Ao se dar conta do olhar observador que apreende o outro, carente de sexo, e introjetá-lo, Graciliano descobre o próprio corpo em suas limitações fisiológicas. Cito: “Depois modifiquei o juízo [sobre o companheiro Sérgio]. Também comigo se passava qualquer anormalidade. Surgiu-me de repente anafrodisia completa”.

“Por que diabo me vinha aquilo de chofre?”

Um faxina — o mesmo deus Hermes, a prover papel e café ao encarcerado — lhe dá a resposta:

Certa manhã, fornecendo-me o segundo caneco, o faxina me proporcionou este aviso: — Se o senhor soubesse o que há nisto, não bebia tanto. Indaguei, o tipo encolheu os ombros e ficou por aí. Desatento ao conselho, não me abstive do líquido enjoativo, adocicado. E nem de longe suspeitei que o gostinho de formiga tivesse ligação com o prolongado esmorecimento.

A dra. Nise da Silveira, companheira no cárcere, complementa o alerta do faxina com a explicação médica sobre o (possível) uso do brometo de potássio (nas memórias, não se precisa o nome do sal) no café servido aos prisioneiros masculinos. Corriqueiro em colégios internos e cárceres, um anafrodisíaco é misturado ao café matinal ingerido pelos comunitários. A visão da psicanalista lhe desperta o interesse e o memorialista a anota: “Agora, vindo a explicação de Nise, quase me convencia de que a beberagem anafrodisíaca tinha efeito misericordioso”.

A conclusão pessimista do memorialista é inevitável: “E eu imaginara fabricar uma novela na cadeia, devagar, com método, página hoje, página amanhã”. Da fábrica do corpo não sai diário nem novela. Culpa da falta de liberdade? Ou do café?

Passagem extraída das páginas finais de Memórias do cárcere:

A perspectiva de liberdade assustava-me. Em que iria ocupar-me? Era absurdo confessar o desejo de permanecer ali, ocioso, inútil, com receio de andar nas ruas, tentar viver, responsabilizar-me por qualquer serviço. Longo tempo me esforçara por justificar a preguiça: todos os caminhos estavam fechados para mim, nenhum jornal me aceitaria a colaboração, inimigos ocultos iam prejudicar-me. Escasseavam agora as evasivas covardes. A coragem de um editor, elogios fáceis na imprensa, vagas esperanças na minha literatura de carregação e afinal os bons propósitos de indivíduos estranhos revelavam-me solidariedade (grifo meu).