capa 187A escrita é a vida

O impossível como ponto de partida da escrita de Marguerite Duras, autora francesa que será republicada no Brasil; como Tati Quebra Barraco construiu uma poética que subverte relações de dominação; o sociólogo Richard Miskolci discute a relação entre redes sociais e levantes conservadores no Brasil; uma discussão sobre Machado de Assis e sua formação em país pós-colonial.

Marguerite Duras em conversa no "Apostrophes", em 1984 (legendas em francês)

card ebook mensal SETEMBRO.21

José Castello

Everardo Norões

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Marx inédito mai17

 

Abaixo, você lê um breve trecho de Karl Marx: Uma biografia, livro escrito por José Paulo Netto e lançado pela Boitempo Editorial no final deste mês. Nas mais de 800 páginas, Netto — importante intelectual marxista e professor emérito da UFRJ — sintetiza a vida e obra do alemão, desde sua infância na antiga Prússia, passando por sua juventude em Paris ao lado de Friedrich Engels (1820-1895) e sua morte como apátrida, em 1883, na capital inglesa.

O trecho abaixo revela o percurso de publicação do primeiro tomo de O capital, obra que ganhou visibilidade quando publicada pela primeira vez, mas que não compensou financeiramente os sacrifícios pessoais feitos pelo autor para sua criação. Notas de rodapé e a maior parte das referências bibliográficas do trecho foram suprimidas.

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Londres: O capital (1867-1881/1882)

No dia 29 de abril de 1867, na tipografia de Otto Wigand, em Leipzig, por encomenda do editor Otto Meissner, de Hamburgo, começaram a ser impressos os mil exemplares da primeira edição do Livro I de O capital. O volume foi dado a público no dia 14 de setembro — com as suas vendas, Marx não auferiu sequer o equivalente ao que gastara com o tabaco consumido durante a redação da obra pela qual, como confessou, “sacrificara saúde, felicidade e família” (carta a Sigfrid Meyer, 30 de abril de 1867).

À diferença do que ocorrera em 1859 com Contribuição à crítica da economia política, porém, o lançamento do primeiro livro de O capital não passou em branco: teve alguma repercussão entre intelectuais e vanguardas trabalhadoras. Na sequência imediata da publicação, Ludwig Feuerbach e o acadêmico Eugen Dühring (o mesmo com o qual Engels polemizaria anos depois) manifestaram-se favoravelmente sobre o livro; o jornal lassalleano de Schweitzer publicou uma série de artigos sobre o volume e noutros periódicos alemães Engels o divulgou em matérias anônimas; além disso, comentários saíram em periódicos de língua inglesa. A imprensa ligada à Internacional (por exemplo, o suíço Der Vorbote [O Precursor]) fez propaganda do texto e uma conferência da organização, em setembro de 1867, em Bruxelas, recomendou a sua leitura pelos operários. Ainda assim, a primeira edição alemã do Livro I de O capital nada teve de um sucesso imediato de vendas: ela só se esgotou quatro anos depois.

Decerto que, ao fim do último quartel do século XIX, com Engels tendo providenciado a publicação dos livros II e III, a obra de Marx já se divulgava pela Europa e começava a ser conhecida nos Estados Unidos; à mesma época, surgiam os primeiros “resumos” de O capital. Já no decurso do século XX, as edições de O capital, vertidas em dezenas de idiomas, circularam por todos os continentes, alcançando tiragens contadas em vários milhões de exemplares — fenômeno para o qual foi decisiva a atividade editorial desenvolvida, a partir da Revolução Russa de outubro de 1917, pelo partido bolchevique (depois Partido Comunista da União Soviética) e em seguida replicada por partidos comunistas e socialistas nos seus respectivos países.

Também é fato que, quando iniciou a redação do Livro I, em janeiro de 1866, Marx já tinha muito clara a projeção da sua continuidade e chegou mesmo a anunciar para breve a conclusão dos trabalhos para efetivá-la. Anúncio que não cumpriu: até os fins da década de 1870 e a entrada dos anos 1880, ele seguiu pesquisando, a despeito das importantes atividades políticas desenvolvidas na primeira metade dos anos 1870 [...]. Tais pesquisas só viriam à luz, parcialmente, com a publicação póstuma dos livros II (1885) e III (1894).

Tomados em seu conjunto, os três livros de O capital (utilizamos, aqui, os volumes editados pela Boitempo: Livro I, 2013; II, 2014; III, 2017; [...]) constituem uma arquitetura teórica monumental que revela, com notável rigor, no que toca à estruturação econômica, o que Marx disse ser a articulação interna da sociedade burguesa. Porém, na sua monumentalidade, O capital é uma obra inacabada, inconclusa — e ainda aludiremos às razões de fundo dessa incompletude. Antes, cuidemos do que Marx entregou ao público: o Livro I.

O Livro I

A 10 de abril, Marx toma um barco à beira do Tâmisa para Hamburgo, aonde chega dois dias depois de navegação em mar revolto. Encontra-se com Meissner, que haveria de editar todos os três livros de O capital, entrega-lhe os originais e acerta com ele os detalhes da impressão em Leipzig. De Hamburgo, Marx dirige-se a Hanover; ali fica por cerca de um mês, na casa de seu correspondente desde 1862, o médico Kugelmann — nesse primeiro encontro pessoal, Marx é calorosamente recebido pelos Kugelmann, uma família deveras hospitaleira. É nos últimos dias de sua estada entre eles que Marx recebe, para revisão, as primeiras provas tipográficas do Livro I, trabalho que prossegue no seu retorno a Londres. Essa revisão, feita parcialmente com a ajuda de Engels, conclui-se em 16 de agosto de 1867; pouco antes, a 25 de julho, Marx escreve o prefácio da obra.

O Livro I só teve a sua primeira edição esgotada no outono de 1871. A segunda edição alemã, lançada em fascículos, o primeiro circulando em meados de julho de 1872, não foi uma simples reedição:

A própria estrutura da obra foi profundamente modificada. Em lugar dos seis capítulos da primeira edição, o conjunto do livro passou a ser dividido em sete seções e vinte e cinco capítulos. Por sua vez, quase todos os capítulos foram divididos em parágrafos ou partes mais pequenas. Ao melhorar a estrutura do livro, Marx teve em conta as observações feitas por Engels em 1867. (Fedosseiev, org.1983, p. 434)

De fato, Marx continuou trabalhando por anos no seu texto; ao prefaciar a terceira edição alemã, póstuma, em 7 de novembro de 1883, Engels informou que o amigo 

planejava reelaborar extensamente o texto do volume [Livro] I, formular de modo mais preciso diversos pontos teóricos, acrescentar outros novos e complementar o material histórico e estatístico com dados atualizados. Seu estado precário de saúde e a ânsia de concluir a redação definitiva do volume [Livro] II obrigaram-no a renunciar a esse plano. Devia-se modificar apenas o estritamente necessário e incorporar tão somente os acréscimos já contidos na edição francesa (Le capital. Par Karl Marx, Paris, Lachâtre, 1873), publicada nesse ínterim. (Engels, em Marx, 2013, p. 97)

Na sequência desse esclarecimento, Engels discorre sobre as suas intervenções no texto, concluindo que “nesta terceira edição […] nenhuma palavra foi alterada sem que eu não tivesse a certeza de que o próprio autor o faria”.

O texto do Livro I que, enfim, foi tomado pelos pesquisadores como referência última é o da quarta edição alemã, de 1890, cuidadosamente revisado por Engels com a ajuda da filha mais jovem de Marx, Eleanor. No prefácio (datado de 23 de junho de 1890), Engels declara que se valeu inclusive de notas manuscritas de Marx, mas preocupou-se sobretudo em clarificar as fontes das citações marxianas, à época objeto de debate e polêmica; em suma, diz ele que “quem quer que compare esta quarta edição com as anteriores verá que […] nada [se] modificou no livro que valha a pena mencionar”.


Referências

P. N. Fedosseiev et al. Karl Marx: Biografia. Lisboa: Edições Avante/Edições Progresso, 1983.

Karl Marx. O capital: Crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital [1867] (tradução de Rubens Enderle). São Paulo: Boitempo, 2013.