capa 187A escrita é a vida

O impossível como ponto de partida da escrita de Marguerite Duras, autora francesa que será republicada no Brasil; como Tati Quebra Barraco construiu uma poética que subverte relações de dominação; o sociólogo Richard Miskolci discute a relação entre redes sociais e levantes conservadores no Brasil; uma discussão sobre Machado de Assis e sua formação em país pós-colonial.

Marguerite Duras em conversa no "Apostrophes", em 1984 (legendas em francês)

card ebook mensal SETEMBRO.21

José Castello

Everardo Norões

SFbBox by casino froutakia

Diderot.hospede Louis.Michel.Van.Loo outubro.20

 

 Para Elide Rugai Bastos

 

Escritores que não viajam ao estrangeiro escrevem também relatos instigantes de viagem ao estrangeiro. Poderia ter escolhido o poeta Carlos Drummond de Andrade, autor do poema Rua do Olhar, que se abre por esta estrofe: “Entre tantas ruas/ que passam no mundo,/ a Rua do Olhar,/ em Paris, me toca”. E segue mais abaixo: “Uma rua — um olho/ aberto em Paris/ olha sobre o mar./ Na praia estou eu.// Vem, farol tímido,/ dizer-nos que o mundo/ de fato é restrito,/ cabe num olhar.” O resto virá da leitura do poema.

Não muito por acaso, escolho outro viajante sem viagem. O filósofo e romancista Denis Diderot (1713-1784; imagem). Ele é o autor de Supplément au voyage de Bougainville (Suplemento à viagem de Bougainville), escrito em 1772 e publicado na França postumamente em 1796. O subtítulo do Suplemento é esclarecedor: “Diálogo entre A e B sobre o inconveniente de relacionar ideias morais a certas ações físicas que não as comportam”.

Como insinua o título do futuro livro, o filósofo iluminista hospeda o novo manuscrito no relato Voyage autour du monde (Viagem ao redor do mundo), de responsabilidade do navegador francês Louis Antoine de Bougainville (1729-1811), publicado um ano antes da escrita do Suplemento, em 1771. Depois de atravessar o Atlântico e bordejar pelas Américas, onde observa, anota e justifica, por exemplo, a expulsão dos jesuítas do território das Missões, ao sul do Brasil, Bougainville segue viagem para as ilhas da Polinésia e lá se detém a escrever os demais e muitos capítulos do relato.

Denis Diderot se transformou numa espécie bem especial de escritor/hóspede de obra alheia, espécie antiga, claro, mas tão pós-moderna quanto o pensamento do filósofo Jacques Derrida, responsável pela introdução do conceito de suplemento na leitura dos filósofos ocidentais.[nota 1]

Diderot é um leitor que no presente cria textos já produzidos no passado. Reparem: não disse um leitor que re/cria no presente textos já produzidos. Portanto, pouco tem a ver com Pierre Menard, personagem de Jorge Luis Borges que se apresenta, na modernidade, como autor do famoso Dom Quixote, de Cervantes. Diderot não é autor, é hóspede um tanto trapalhão e iconoclasta da obra de Bougainville. Ao capinar nas margens improdutivas e preconceituosas de texto alheio, no caso o relato colonialista de Bougainville, ele “suplementa” inteligentemente a escrita eurocêntrica dos relatos de viagem. Diderot, hóspede, tem a intenção de ali — na obra/hospedeira — cultivar uma lavoura menos peçonhenta. Adubo já tem: incomoda a mania dos viajantes em relacionar ideias morais a certas ações físicas que não as comportam.

Diderot não faz da escrita de hospedagem “cópia” ou “complemento”, colonialistas, à escrita maníaca de Bougainville. Neste caso, seu próprio leitor julgaria corretamente que na obra hospedeira há apenas deslizes ou detalhes negligenciados, que estavam sendo devidamente “complementados” por exercício de crítica. Seu suplemento não vem a reboque das ideias do hospedeiro, embora não lhe desagrade instalar-se naquela hospedaria. Questão de estratégia. Para Diderot, tudo sobre viagem ao estrangeiro está na Viagem ao redor do mundo e tudo sobre viagem ao estrangeiro lá NÃO está. Trata-se de um suplemento, diz o título do livro assinado Diderot. Ou seja, a intenção do filósofo é a de acrescentar uma reflexão pessoal e original ao que já é concretamente um todo de propriedade alheia.

Diderot lavoura nas entrelinhas, nas margens do relato de viagem, percebendo, do quarto em que se hospeda, como a cegueira mental domina o trato dos seres humanos “desconhecidos” dos viajantes. A cegueira se consolida e se consola pelo preconceito etnocêntrico. O viajante, autor do relato, é incapaz de enxergar de maneira diferente, além da convencional, as várias e diferentes sociedades que visita e os vários e diferentes seres humanos de quem se aproxima.
Feito nas entrelinhas e nas margens do relato de viagem, a capina feita por Diderot tem significado preciso: o filósofo iluminista leva os valores morais dos colonizados (ou seja, dos “primitivos”), descritos e analisados por Bougainville, a fazerem uma inesperada viagem de volta à Cidade-Luz a fim de dar um novo e importante recado aos compatriotas. O recado tem valor de troca se se ampliar, globalizar, o sentido dado ao conceito pelo antropólogo Marcel Mauss: “Vocês nos deram aquilo e (pela letra de Diderot) compete-nos agora oferecer esse suplemento.”

Evidentemente suplementar, a viagem de volta dos colonizados serve para Diderot contestar de maneira radical certezas etnocêntricas, ao fim da época colonial e início da época imperial. Na agenda metropolitana, insere a relatividade dos valores morais sobre os quais se funda — e tão arrogantemente se espraia — a civilização ocidental. Que saudades da Rua do Olhar: “Olhar de uma rua/ a quem quer que passe./ Compreensão, amor/ perdidos na bruma.” O Ocidente tem tomado posse, tem-se apropriado de outras terras e outras gentes, a partir e pela imposição ao Outro de muitos de seus valores desastrados. A cegueira etnocêntrica de Bougainville é suplementada pelo respeito ao Outro de Diderot.

Há algo que os “civilizados” podem aprender com os chamados povos colonizados, diz o Suplemento de Diderot. Nas leituras tradicionais dos antigos relatos de viagem, eram sempre as elites nativas que tinham algo a aprender com os europeus. Tinham de imitá-los. Não há outra razão para um contemporâneo nosso, Lévi-Strauss (1908-2009), cunhar no relato de sua viagem ao Brasil, Tristes trópicos (1955), uma de suas mais brilhantes máximas sobre o olhar antropólogo: “Les tropiques sont moins exotiques que démodés” (“Os trópicos são menos exóticos do que fora-de-moda”). As jovens nações, ou seja, as colônias europeias, renascem nacionais, soberanas e ultrapassadas (démodées). São cópia servil e tardia do modelo metropolitano. O anacronismo lévi-straussiano ganhará novo sentido no suplemento à viagem de Bougainville.

No final do século XVIII, ao ler o suplemento de Diderot, a burguesia emergente europeia poderia ter aprendido que, entre os povos “primitivos” do Taiti (dos colonizados franceses, talvez os menos exóticos e mais fora-de-moda), as ideias morais não têm como fundamento inquestionável o sentido de propriedade que o Ocidente inventa e impõe como ideia moral.

Semelhante lição nos será transmitida por um admirador moderno de Diderot, o romancista francês André Gide (1869-1951). São notáveis suas descrições do comportamento dos rapazinhos argelinos e tunisianos nas colônias francesas. Em O imoralista (1902), delicia-se com o “furto” da tesoura por Moktir. Velha e enferrujada, não tinha valor. Seduzido pelo objeto incomum, Moktir quer tê-lo como seu. Em agosto de 1919, Gide anotava em seu Diário: “[...] não há ‘lei moral’ que o verdadeiro psicólogo possa e deva admitir como dada”. Estava a escrever Os moedeiros falsos (publicado em 1925), que retoma O imoralista. Um rapazinho, filho de advogado, é surpreendido pelo narrador no momento em que “subtiliza” (o neologismo se impõe), na prateleira de livraria da rive gauche parisiense, um guia da Argélia.

Tidos pelos viajantes franceses como pivetes, os taitianos e os rapazinhos árabes — e até o rapazinho sonhador parisiense — não são ladrõezinhos vulgares. Simplesmente, não têm como norma de comportamento em casa alheia o sentido de propriedade.

E voltemos ao ano de 1500 e aos indígenas de Vera Cruz e futuros cidadãos brasileiros. Um deles quer carregar para a terra os objetos da caravela de Pedro Álvares Cabral, que lhe seduzem o tato e a vista. Um exemplo? Umas contas de rosário que um deles logo “as lança ao pescoço”, anota Caminha em sua carta a D. Manuel, o Venturoso. E acrescenta precavidamente: “Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não o queríamos nós entender, porque não lho havíamos de dar”. Os marujos não retribuiriam com “contas de rosário” as informações recebidas sobre ouro e prata existentes na terra. Os indígenas caíram que nem peixinhos na isca do ouro e da prata que lhes era exibida.

Em determinada passagem do suplemento de Diderot, um velho polinésio pergunta ao navegador europeu: por que você matou o taitiano que veio ao seu encontro, que acolheu a você na cabana dele, que te recebeu aos gritos de “Taïo! amigo, amigo”, que te emprestou mulher e filhas para o sexo? A razão para o assassinato, suplementa o texto de Diderot, é simples e contraditória: o viajante, que tinha recebido tudo como uma “dádiva” do taitiano, o assassina porque acha que ele quer furtar algumas ninharias. O valor do conceito de “furto” está diretamente vinculado à noção de propriedade, noção inexistente naquela terra e entre muitos povos e que, no entanto, está alicerçada em concreto no conquistador mal-agradecido e assassino.

“Por que é tão forte o sentido de propriedade na Europa do século XVIII?” é a pergunta que Diderot suplementa, prenunciando o Engels de A origem da família, da propriedade e do Estado (1884). É o que, em outro contexto e igualmente no século seguinte ao de Diderot, muitas mulheres/leitoras perguntarão a respeito do sentimento possessivo dos maridos machistas, como está tão bem descrito em romances que vão de Madame Bovary, de Gustave Flaubert, a Dom Casmurro, do nosso Machado, para não esquecer o genial S. Bernardo, de Graciliano Ramos, já no século XX. Por que se esquecer do drama de Ângela Diniz às voltas com Doca Street?

É por aí também que muitos escritores modernistas, valendo-se da paródia e do pastiche, recorrem ao usucapião para questionar a “propriedade” de estilo pelos autores ditos clássicos da língua. Hospedam seus poemas em poemas alheios. Neste caso, podemos aconselhar duas leituras: o ensaio magistral de Michel Foucault O que é um autor?, ou, entre nós, o caso do mineiro Sebastião Nunes. Nos anos 1990, Tião Nunes se apropriou do logotipo de conhecido jornal paulista para dar e publicar uma “entrevista” que ele NÃO consegue dar e publicar nos suplementos literários prestigiosos.

Na “provinciana” cidade de Sabará (MG), Tião Nunes esteve fazendo sua capina cultural, “suplementando” os “suplementos literários das metrópoles” brasileiras. E ainda e finalmente, o que nós estaríamos pensando se nos hospedássemos hoje no suplemento de Diderot e observássemos a repressão policial aos movimentos dos sem-terra e dos sem-teto.

 

 

NOTAS

[nota 1] Nota da edição: “O suplemento é uma adição, um significante disponível que se acrescenta para substituir e suprir uma falta do lado do significado e fornecer o excesso de que é preciso”, diz o Glossário de Derrida, livro organizado por Silviano Santiago e republicado há pouco pela editora Papéis Selvagens. O suplemento é oposto ao complemento: “A um outro, ausente e exterior, que venha se acrescentar a um mesmo pleno”, diz o Glossário sobre a lógica do complemento, “ele [Derrida] propõe um outro que já é sempre um mesmo diferido, que se inscreve em sua margem” e que seria o suplemento.