capa 187A escrita é a vida

O impossível como ponto de partida da escrita de Marguerite Duras, autora francesa que será republicada no Brasil; como Tati Quebra Barraco construiu uma poética que subverte relações de dominação; o sociólogo Richard Miskolci discute a relação entre redes sociais e levantes conservadores no Brasil; uma discussão sobre Machado de Assis e sua formação em país pós-colonial.

Marguerite Duras em conversa no "Apostrophes", em 1984 (legendas em francês)

card ebook mensal SETEMBRO.21

José Castello

Everardo Norões

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A Editora Relicário abriu a pré-venda desse que promete ser um dos grandes lançamentos de poesia de 2020, Batendo pasto (https://www.relicarioedicoes.com/livros/batendo-pasto/), 56 poemas inéditos de Maria Lúcia Alvim, autora que havia se transformado numa raridade pelos sebos do Brasil. A edição conta com ensaios de Paulo Henriques Britto, Guilherme Gontijo Flores e apresentação de Ricardo Domeneck, que destrincha os 40 anos do silêncio poético — e também do sumiço — da poeta. "A publicação desse Batendo pasto é um acontecimento e um pequeno milagre nesse ano em que estamos tão necessitados de milagres", aponta Domeneck. Confira 4 poemas que fazem parte de Batendo pasto.


*

Tempo Virado

Nervos amotinados

Cortei uma franja


*


Eu era assim no dia dos meus anos

E quando me casei, eu era assim

Eu era assim na roda dos enganos

E quando me apartei, eu era assim

Eu era assim caçula dos arcanos

E quando me sovei, eu era assim

Eu era assim na voz dos minuanos

E pela primavera, eu era assim

Enquanto fui viúva, eu era assim

Enquanto fui vadia, eu era assim

E pela cor furtiva, eu era assim

No amor que tu me deste, eu era assim

E trás da lua cheia, eu era assim

E quando fui caveira, eu era assim


*


Este soneto é em usufruto

das palavras que aqui vou perpetrar.

O fruto se retalha, dissoluto.

Palavras criam corpo no lugar.

Corre os olhos num rasgo de Absoluto.

Repare nesta folha, circular.

Nesse gomo roliço, diminuto.

Na pedra corriqueira, a ressudar.

Assim o Coração, pão de minuto.

Aquilo que na moita irá grassar.

Amor pardinho, vira o dia curto.

O Bem virá depois, para ficar.

Ao contrair o Sol, zarpo de bruto:

Meeira, me aboleto, sabiar.


*


O amor

                     soltou do meu corpo

          como o tamoeiro de canga

                     desgovernou

          todo um tempo

                                        de amanho