capa 187A escrita é a vida

O impossível como ponto de partida da escrita de Marguerite Duras, autora francesa que será republicada no Brasil; como Tati Quebra Barraco construiu uma poética que subverte relações de dominação; o sociólogo Richard Miskolci discute a relação entre redes sociais e levantes conservadores no Brasil; uma discussão sobre Machado de Assis e sua formação em país pós-colonial.

Marguerite Duras em conversa no "Apostrophes", em 1984 (legendas em francês)

card ebook mensal SETEMBRO.21

José Castello

Everardo Norões

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Ensaio Zazie Eduardo Azeredo junho2020

 

 

Este é um trecho do ensaio À escuta dos pés: Caminhada e dança em Notícias de América, da dançarina, pesquisadora e artista visual Beatriz Galhardo, que a Zazie Edições publicará em seu site (zazie.com.br) para leitura gratuita neste mês.

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A cada pisada, o corpo humano em deslocamento e ereto sobre os dois pés realiza um trabalho para permanecer nessa postura, uma constante organização corporal em relação à gravidade. Os pés desempenham um papel fundamental nesse trabalho, já que são os únicos pontos de contato com o solo durante o deslocamento. Uma maneira de pensar a transformação das funções sociais dos pés na cultura ocidental é considerar o uso dos calçados. A partir de alguns dados históricos acerca do uso dos sapatos na cultura ocidental, procuro apontar neste ensaio como o trabalho Notícias de América (2011-2012), do artista mineiro Paulo Nazareth, se relaciona com essas transformações das funções sociais dos pés ao eleger a caminhada como principal gesto performativo a ser realizado. […]

Mesmo diante dessas características tão fundamentais ao modo humano de vida — modo intimamente relacionado à nossa capacidade de permanecer na posição ereta —, a história que se popularizou acerca do crescimento da cultura e da civilização privilegia o papel preênsil das mãos e consequentemente suas habilidades criativas e técnicas graças à transferência das funções de suporte e locomoção para os pés. Nessa narrativa, a aquisição da postura ereta, fundamental para a hegemonia humana no reino animal e seus desdobramentos para a vida cultural humana, pouco tem a ver com os pés, estando relacionada prioritariamente às capacidades técnicas das mãos.

[…]

A maneira como essa separação entre mãos e pés se desenvolve na cotidianidade confere um poder criativo de intervenção sobre o ambiente por parte das mãos, enquanto reduz os pés a uma atividade locomotora, ou seja, uma atividade meramente mecânica. Nesse sentido, vemos que existe um esforço para que o pé seja progressivamente retirado da esfera de atuação criativa e intelectual na vida humana. Curiosamente, esse esforço se configura também como uma maneira de melhorar o desempenho mecânico dos pés a partir do desenvolvimento de técnicas projetadas “pela cabeça”, realizadas e apreendidas pelas mãos. O avanço técnico em calçados não só colabora para essa ideia de potencialização da função mecânica e locomotora do pé como reafirma a divisão dos trabalhos existentes entre pés e mãos.

Aprisionar os pés em calçados, desse modo, não seria apenas uma resposta às preocupações com a saúde destes membros, eventual proteção em terrenos cortantes, frios ou muito quentes, mas também um modo de se afastar um pouco mais do chão, de reafirmar a vida cultural humana como aquela que interfere com as mãos no espaço; de se diferenciar dos demais primatas e de se diferenciar de um modo de vida considerado “selvagem” ou “animal”.

[…]

A invenção da sola flexível responde a uma demanda de produção de conforto para a mecanização do pé, que, quanto mais agilmente realiza seu trabalho, melhor pode servir às mãos. […] Mais tarde os pés dariam lugar aos pneus de automóveis, e, posteriormente, estes conviveriam com os pneus das grandes rodas das aeronaves. Transformações dos pés em máquinas de andar, mas que eventualmente, quando descalços, ainda soam como o homem e o animal confundidos.


NÃO VAI DE AVIÃO, VAI A PÉ

Paulo Nazareth, em Notícias de América, realiza um gesto que penso ser, ao mesmo tempo, o ponto de partida e o modo pelo qual o trabalho se desenvolve: em vez de ir de avião, ele vai a pé. Não se trata apenas de uma alteração dos modos atuais de locomoção para chegar a um destino (Nova York, Estados Unidos). Ao fazê-lo o artista está aproximando o gesto da caminhada ao gesto da viagem.

[…]

A caminhada passou a se diferenciar da viagem por volta do século XVIII, na Inglaterra anterior às grandes transformações industriais e urbanas. Para a maioria das pessoas, a caminhada era o único modo de locomoção; por meio dela as pessoas podiam realizar seus afazeres mais cotidianos. No entanto, raramente essa atividade fazia com que as pessoas percorressem longas distâncias. Nesse contexto europeu, a viagem era realizada por outras pessoas que não as caminhantes.

Os viajantes “caminhavam tão pouco quanto possível, preferindo o cavalo ou a carruagem” [nota 1]. Para dispor desses modos de locomoção os viajantes só poderiam ser pessoas abastadas, e se eventualmente “tivessem que andar, eles fariam o que lhes fosse possível para apagar a experiência pedestre de suas memórias e removê-la de seus registros”, conferindo à caminhada um caráter pejorativo, ou melhor, marginal. Assim, essa atividade era destinada às pessoas marginalizadas da sociedade: pobres, criminosos e ignorantes.

O andar como fim em si mesmo é adotado apenas no século XIX, um modo de intensificação do passeio nos jardins, possível apenas pelo desenvolvimento dos meios de transporte que, oferecendo maior conforto, aumentaram consideravelmente o fluxo de pessoas e o número de viagens. Surge, então, um modo de viajar no qual se escolhe o destino, quase como uma paisagem, e uma vez que se chega ao destino, por meio de algum transporte, pode-se caminhar por ele.

[…]

A viagem, como a entendemos hoje, é um fenômeno que resulta de um conjunto de mudanças ocorridas ao longo da modernidade. É possível que a separação entre o caminhar e o viajar também seja, de algum modo, algo particular à história das transformações técnicas no Ocidente. […]

O que quero dizer com isso é que, historicamente, a atividade da caminhada está relacionada à rapidez com que as descobertas e inovações nos meios de transporte se tornavam acessíveis a uma parte da população. Sabemos que na Europa, em especial na Inglaterra, onde os estudos de [do antropólogo Tim] Ingold se concentram, essas inovações interferiram muito rapidamente na vida das pessoas. O trabalho artístico analisado aqui parte de uma percepção sobre as diferenças dessas interferências a partir do acesso aos meios de locomoção.

Paulo Nazareth, na América Latina, mais especificamente em Governador Valadares, Minas Gerais, estabeleceu outro tipo de relação com o caminhar, uma relação latino-americana com o chão — se é que é possível dizer isso —, e, neste contexto, as mudanças nos meios de locomoção se deram e continuam a acontecer em outro tempo […]

Desse modo, a imagem da deambulação aparece como a atividade que poderia articular longos deslocamentos, uma espécie de deriva que simultaneamente solicita o trabalho dos pés. Na deambulação, embora se possa ter um destino final, o caminhar é aquilo que desenha o caminho, algo como uma improvisação cujo processo dificilmente pode ser realizado através de outro meio de locomoção.

Uma viagem que pode ser feita em aproximadamente doze horas e quarenta e cinco minutos – tempo médio de duração de um voo de Belo Horizonte até Nova York – no trabalho Notícias de América foi realizada em aproximadamente um ano, uma vez que o trajeto fora percorrido com caronas e caminhadas, respeitando os desejos e o trabalho de “deambulância” do performer. O deslocamento entre Governador Valadares e o Brooklin se torna um projeto performativo que o artista chamou: “residência em trânsito” ou “residência por acidente”.

Habitar o trânsito requer um engajamento com a condição locomotora humana, ou seja, com o próprio corpo e, nesse caso, principalmente com os pés. Não se pode habitar o trânsito sentado. Daí meu interesse em começar a abordar este trabalho pelos pés. Ao se deslocar, Paulo Nazareth enfatiza nossa atividade locomotora primeira, o andar, e consequentemente a importância de seus pés nesse processo. Mas até que ponto o projeto é uma viagem? O limite da viagem estaria relacionado com a duração temporal de um deslocamento? Quando as figuras do caminhante e do viajante se tocam?

Paulo Nazareth propunha que todo o pó do caminho deveria permanecer em seus pés antes que ele chegasse aos Estados Unidos […]. Como não foi descalço, o calçado de Paulo Nazareth torna-se fundamental ao seu próprio trabalho. Qual calçado usar para acumular poeira? Um chinelo de borracha. Havaianas tradicionais, azuis e brancas.

[…]

Durante a década de 1960 a classe trabalhadora brasileira era o principal público consumidor das Havaianas, pelo baixo custo e boa durabilidade do produto. Mais tarde, outros modelos com variações de cor e preço foram lançados visando uma inserção da marca tanto no mercado internacional quanto entre as classes média e alta brasileiras. Pode-se dizer que a marca continua produzindo palmilhas com forquilha, só que em grande escala, com algumas variações e para outros tipos de pés que não apenas os dos trabalhadores. Ainda assim, é possível encontrar atualmente no mercado o antigo modelo branco e azul: “tradicional” e barato.

[…] Se existe um limite entre uma sociedade descalça e outra calçada, aqueles que usam chinelos se colocam exatamente neste limiar; essa forma praticamente arcaica de se calçar guarda alguma proximidade da relação dos pés com o chão. Percebemos isso ao observar as sandálias de Paulo Nazareth (clique aqui para vê-las) após sua caminhada de aproximadamente um ano de duração.

Ao observar a palmilha nota-se que a sandália se tornou uma espécie de chão, sendo possível mapear a desigual incidência do peso corporal sobre as partes da palmilha. Nas Havaianas está contida enquanto marca física a experiência da caminhada de Paulo Nazareth: toda a ação tátil podal se delineia ali, o peso de um corpo em trânsito, meio na natureza meio fora dela. As sandálias, por não serem totalmente fechadas, possibilitam algum contato com o chão e não são da mesma ordem que as botas totalmente fechadas e atadas; elas escapam do pé, ou talvez seja melhor dizer que os pés escapam das sandálias, principalmente quando estão molhados de suor, escorregadios, ou simplesmente quando estão sujos, empoeirados.

As sandálias possibilitam que os pés se sujem e por isso podemos perceber onde esse tipo de calçado falha e se rompe : na extremidade das tiras que unem a forquilha à sola — a única força de constrição nesse tipo de calçado. Com a ação do caminhar, as tiras se alargam ou se desgastam e rompem, restando ao caminhante o reparo da junção. Paulo Nazareth faz o reparo com diferentes materiais, mas basicamente [...] com metais, e não mais borracha. Como se a sandália, por oferecer a proximidade do pé com o chão, fosse algo que falhasse quando extremamente usada, pois o que a constitui como calçado está paradoxalmente relacionado à experiência pedestre descalça, e por isso ela demandasse um material menos maleável.

[…]

Que diferença faz que o tato podal carregue o peso do corpo em vez do peso do objeto?” No trabalho Notícias de América, o peso do corpo aparece como uma inscrição, um desenho feito pelo tato podal na superfície de um calçado; as mãos estão em segundo plano. Ao escolher realizar todo o deslocamento com o mesmo par de sandálias e submetê-las ao trabalho dos pés, Paulo Nazareth acaba por moldar, durante o caminhar, um material muito específico: a borracha. Uma espécie de escultura que é moldada a partir da principal ação do trabalho performativo; esse moldar não se dá pelas mãos, mas pelos pés. As sandálias, após o deslocamento performático, tornam-se uma “coisa” que nos proporciona a experiência de outras dimensões dos deslocamentos das pessoas migrantes, como se nos calçados pudéssemos ver a miniaturização de um grande movimento diaspórico.

A diferença do tato manual para o podal talvez tenha a ver com uma experiência que podemos chamar de “escuta dos pés”. Uma escuta necessária para que possamos permanecer de pé, necessária também ao engajamento das musculaturas internas, à flexibilidade e à resistência presente nos pés. Essa escuta também é técnica e potencialmente criativa. Além dos objetos e desenhos confeccionados pelas mãos de Paulo Nazareth, temos suas fotografias e sandálias, ambas construídas e modificadas por uma ação performática dos pés: a marcha cotidiana.

[…]

Nietzsche propõe esta imagem: bailarinos com ouvidos nos dedos dos pés. O que chamo de escuta dos pés é esse movimento constante de atenção realizado pelo corpo humano na postura ereta a partir da relação com a ação gravitária, ou seja, uma movimentação de escuta próxima do chão. Enquanto Tim Ingold oferece uma análise antropológica, na qual se verifica que a função dos pés tem sido reduzida a ponto de transformá-los em mera máquina locomotora, tendo em vista o desenvolvimento da civilização cultural do Ocidente, Nietzsche, em Assim falou Zaratustra, evoca os dançarinos.


NOTAS

[nota 1] Todas as aspas deste texto pertencem a Estar vivo: Ensaios sobre movimento, conhecimento e descrição (Vozes, 2015), livro do antropólogo britânico Tim Ingold.