capa 187A escrita é a vida

O impossível como ponto de partida da escrita de Marguerite Duras, autora francesa que será republicada no Brasil; como Tati Quebra Barraco construiu uma poética que subverte relações de dominação; o sociólogo Richard Miskolci discute a relação entre redes sociais e levantes conservadores no Brasil; uma discussão sobre Machado de Assis e sua formação em país pós-colonial.

Marguerite Duras em conversa no "Apostrophes", em 1984 (legendas em francês)

card ebook mensal SETEMBRO.21

José Castello

Everardo Norões

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Dunker mar.18 rep.da.internet

 

 

Abaixo, um trecho do ensaio A arte da quarentena para iniciantes, do psicanalista e professor (USP) Christian Dunker, que a Boitempo Editorial publica na segunda-feira (4) apenas em formato e-book. Como sugere o título, o texto discute a atual pandemia e suas reverberações na sociedade e nos indivíduos.

No excerto publicado pelo Pernambuco, Dunker explica a questão da hipocondria e como podemos lidar com o medo de adoecer em meio ao isolamento. Também reforça a necessidade de dar continuidade às medidas de cuidado para evitar o contágio do vírus. 

 

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Até 2013, a hipocondria era considerada um Transtorno Somatoforme, ao lado do transtorno conversivo, dismórfico corporal (no qual a imagem de si se altera brutalmente), somatizador, de dor crônica (fibromialgia) e próxima dos transtornos factícios (como a síndrome de Münchausen, na qual a pessoa deliberadamente cria sintomas em si mesma, ingerindo venenos, cortando-se ou expondo-se a condições mórbidas). A hipocondria pode ser um sintoma secundário em muitos quadros de linhagem ansiosa, depressiva ou paranoica. Seu tratamento é difícil e sistêmico: debela-se a depressão para que a hipocondria tenda a melhorar indiretamente. Mas se há algo que deve ser enfrentado é esta relação entre a experiência do corpo, e principalmente dos prazeres, com a sua inscrição ou tramitação psíquica. Tipicamente, um hipocondríaco piora diante de uma grande satisfação, como se seu “aparelho” de prazer estivesse limitado a um nível muito baixo e muito sensível de funcionamento.

O terceiro traço da hipocondria diz respeito a sua sugestionabilidade. Ouvir notícias sobre uma nova doença ou epidemia é ao mesmo tempo algo insuportável e compulsivamente atraente. Da informação para a preocupação parece haver uma passagem direta. Ao que tudo indica, a hipocondria tem uma certa facilidade para captar e traduzir a atmosfera social de insegurança ou pessimismo, como se aquilo que é muito complexo e indeterminado para receber um nome na realidade material se transformasse em um enigma de nomeação para a realidade psíquica. Entre 1878 e 1914 quase 17% dos internos suíços tinham ideias hipocondríacas. Durante a guerra, esse percentual subiu para 24%, caindo nos anos subsequentes. Na Escócia, a diferença vai de 7% para 29% . A capacidade de se influenciar com notícias e reportagens médicas ou epidemiológicas parece estar diretamente relacionada com o pertencimento e a nomeação do mal-estar. Ela explora a atitude de extremo reconhecimento e submissão à ordem médica, mas também de resistência e de exceção em relação à sua potência real de cura. Observemos aqui como Argan, o doente imaginário de Moliére, superou sua dificuldade. No fundo, ele aceitou e encenou o pior pesadelo que “vivia antes de viver”: a morte. Quando conseguiu brincar de morto, fingir que tinha lhe ocorrido o pior de seus cenários, foi também o momento em que ele descobriu a verdade sobre sua doença. Conselho: olhe o medo de frente, aceite que o perigo é real, mas não deixe que o medo que vem de fora se confunda com a angústia que vem de dentro. Para o primeiro, cautela e informação, para o segundo, algo que ninguém poderá fazer por você: acalme-se. Leia, preste atenção em seus sonhos, medite sobre sua história de vida, pense no que você tem feito consigo mesmo nos últimos tempos. Aprofunde-se em si mesmo, experimente o abismo mais profundo de seus fantasmas. Depois volte e conte uma boa história.

Para a psicanálise, todos os sintomas existentes estão presentes em cada um de nós em estado latente. A aptidão para produzi-los decorre do fato de que os sintomas são soluções possíveis para conflitos que potencialmente estão em todos nós. Por isso, diante da pandemia de coronavírus cada um de nós deverá enfrentar sua própria hipocondria. Não subestime nem superestime o medo. Siga todas as recomendações de isolamento social e cuidados com higiene e limpeza, mas não se deixe dominar pela solidão. Respeite seu medo, mas não o deixe se transformar em angústia e desespero. Fique em casa, consigo e com os outros que também estão passando por isso junto com você, ainda que à distância. Informe-se bem e todos os dias, mas não deixe que a sugestionabilidade tome conta da casa. Tempos de incerteza e indeterminação são muito bons para revermos nossa arrogância e nossa expectativa de controle sobre a realidade. É possível que com calma e circunstância o coronavírus faça com que nós deixemos nossas coroas narcísicas de lado e nos tornemos mais humildes diante de forças mais poderosas da natureza. Aproveite para pensar que o tratamento para sua solidão hipocondríaca pode ser um pouco de solidariedade. Se ainda assim sobrar alguma energia, agradeça à ciência, às universidades, ao SUS (Sistema Único de Saúde) e a todos os médicos, jornalistas, políticos e cuidadores que estão fazendo o possível nesta situação.