capa 187A escrita é a vida

O impossível como ponto de partida da escrita de Marguerite Duras, autora francesa que será republicada no Brasil; como Tati Quebra Barraco construiu uma poética que subverte relações de dominação; o sociólogo Richard Miskolci discute a relação entre redes sociais e levantes conservadores no Brasil; uma discussão sobre Machado de Assis e sua formação em país pós-colonial.

Marguerite Duras em conversa no "Apostrophes", em 1984 (legendas em francês)

card ebook mensal SETEMBRO.21

José Castello

Everardo Norões

SFbBox by casino froutakia

Jack.Halberstam divulgacao

 

"A arte queer do fracasso aciona o impossível, o inverossímil, o improvável e o comum. Ela silenciosamente perde, e ao perder imagina outros objetivos para a vida, para o amor, para a arte e para o ser", explica o professor Jack Halberstam (foto). No trecho abaixo, extraído de seu livro A arte queer do fracasso, ele contrapõe essa visão queer a uma não queer, exemplificada pelo livro Trainspotting, de Irvine Welch. Halberstam aponta, assim, para a ideia de que há algo poderoso em estar errado aos moldes capitalistas, que são racistas e cis-heteronormativos.

Lançado pela primeira vez no Brasil, A arte queer do fracasso é o mais recente livro do Selo Suplemento Pernambuco / Cepe Editora. Você pode adquirir seu exemplar clicando aqui

Tradução de Bhuvi Libanio.

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Se a princípio você não obtém sucesso, talvez fracasso seja seu estilo.
— Quentin Crisp, The Naked Civil Servant

O valor de alguns aspectos da identidade gay histórica — ainda que sejam profundamente ideológicos — foi diminuído ou destituído com sucessivas ondas de libertação. É importante nisso a associação entre amor homossexual e perda — uma conexão que, historicamente, deu a pessoas queer insights sobre os fracassos e as impossibilidades do amor (assim como, obviamente, esperanças selvagens sobre seu futuro). Ao reivindicar tal associação em vez de negá-la, enxergo a arte de perder como uma arte especialmente queer.
— Heather Love, Feeling Backwards: Loss and the Politics of Queer History

Fracasso queer… Tem muito mais a ver com fuga e certa virtuosidade.
— José E. Muñoz, Cruising Utopia: the There and Then of Queer Utopia

 

Quando a primeira década do século XXI chegava ao fim, enquanto os Estados Unidos mergulhavam em uma das piores crises financeiras desde a Grande Depressão, e os economistas em todos os lugares se diziam desesperados por não terem visto o colapso financeiro se aproximar, enquanto trabalhadores perdiam a casa devido a garantias hipotecárias desvantajosas, e a classe média assistia às reservas para aposentadoria secarem devido a maus investimentos, enquanto pessoas ricas embolsavam ainda mais dinheiro e procuravam abrigo para a riqueza, enquanto o capitalismo financeiro da especulação mostrava sua verdadeira face — um jogo entre bancos com o dinheiro de outras pessoas —, era, sem dúvida, hora de falar sobre fracasso.

O fracasso, obviamente, está associado ao capitalismo. Uma economia de mercado precisa ter ganhadores e perdedores, jogadores e pessoas que assumem riscos, vigaristas e vítimas; capitalismo, conforme Scott Sandage argumenta em seu livro Born Losers: A History of Failure in America (Perdedores natos: A história do fracasso nos Estados Unidos, 2005), exige que todo mundo viva em um sistema que iguala sucesso com lucro e conecta fracasso com a inabilidade de acumular riqueza, mesmo que lucro para alguns signifique certas perdas para outros. Como Sandage narra em seu incrível estudo, perdedores não deixam registros, enquanto ganhadores não conseguem parar de falar sobre isso, portanto, o registro de fracasso é “uma história oculta de pessimismo em uma cultura de otimismo” (2005). Essa história oculta de pessimismo, uma história que, além do mais, está quieta por trás de toda história de sucesso, pode ser contada de várias formas diferentes; enquanto Sandage a conta como uma versão marginal da história do capitalismo estadunidense, eu faço aqui uma leitura dela como o conto de uma luta queer anticapitalista, além de uma narrativa sobre luta anticolonial, a recusa da legibilidade e a arte de inadequar-se. Essa é a história de arte sem mercados, drama sem um roteiro, narrativa sem progresso. A arte queer do fracasso aciona o impossível, o inverossímil, o improvável e o comum. Ela silenciosamente perde, e ao perder imagina outros objetivos para a vida, para o amor, para a arte e para o ser.

Pode-se considerar que o fracasso esteja contido no conjunto das ferramentas opositoras que James C. Scott chamou de “as armas dos fracos” (1987). Ao descrever a resistência de camponeses no sudeste da Ásia, Scott descreveu certas atividades que pareciam indiferença ou aquiescência como “transcrições ocultas” da resistência à ordem dominante. Vários teóricos usaram as leituras de Scott sobre resistência para descrever projetos políticos diferentes e para repensar as dinâmicas do poder; alguns acadêmicos, tais como Saidiya Hartman (1997), usaram o trabalho de Scott para descrever resistências sutis à escravidão, a saber, trabalhar devagar ou fingindo incompetência. O conceito de “armas dos fracos” pode ser usado para recategorizar o que parece inação, passividade e falta de resistência em termos de prática de obstruir os negócios do dominante. Também podemos reconhecer o fracasso como maneira de se recusar a aquiescer a lógicas dominantes de poder e disciplina e como forma de crítica. Como prática, o fracasso reconhece que alternativas já estão embutidas no dominante e que o poder nunca é total ou consistente; de fato, o fracasso pode explorar a imprevisibilidade da ideologia e suas qualidades indeterminadas.

Em sua recusa do determinismo econômico, Gramsci escreveu: “o materialismo histórico mecânico não considera a possibilidade de erro, mas pressupõe que todo ato político é determinado, imediatamente, pela estrutura e, portanto, como modificação real e permanente (no sentido de alcançado)” (2000). Para Gramsci, ideologia tem tanto a ver com erro ou fracasso quanto com previsibilidade perfeita; portanto, uma resposta política radical teria que empregar um modo improvisacional para acompanhar o ritmo das mudanças constantes das relações entre dominante e subordinado dentro do fluxo caótico da vida política. Gramsci enxerga a função intelectual como modo de autoconsciência e um conhecimento aplicado das estruturas que limitam sentido às demandas de uma compreensão do “senso comum” a partir da classe social.

Os estudos queer nos oferecem um método para imaginar, não algum tipo de fantasia de um outro lugar, mas alternativas existentes para sistemas hegemônicos. O que Gramsci denomina “senso comum” depende muito da produção de normas e, portanto, a crítica às formas dominantes do senso comum é também, em algum sentido, crítica às normas. O senso comum heteronormativo leva à equação de sucesso com avanço, acúmulo de capital, família, conduta ética e esperança. Outros modos subordinados, queer ou contra-hegemônicos de senso comum levam à associação de fracasso com não conformidade, práticas anticapitalistas, estilos de vida não reprodutivos, negatividade e crítica. José Muñoz produziu o mais elaborado relato de fracasso queer até hoje; ele explica as conexões entre pessoas queer e fracasso em termos de utópica “rejeição ao pragmatismo” por um lado e, por outro, recusa igualmente utópica das normas sociais. Muñoz, em Cruising Utopia, formulou algumas afirmações inovadoras sobre sexo, poder e desejo de utopia. Algumas vezes a prática entre homens gays de cruising e sexo anônimo assume o papel central nessa genealogia do desejo de utopia queer, mas, em outros momentos, busca-se sexo de maneiras mais sutis, como foi em Disidentifications (Desidentificações, 1999), como uma relação desejosa e melancólica entre os vivos e os mortos. Com frequência, o arquivo de Muñoz está no centro e algumas vezes ele se volta para o fracasso fabuloso de especialistas da cultura queer, tais como Jack Smith ou Fred Herko, mas em outras ele trabalha muito abertamente com as histórias de sucesso (O’Hara, Warhol), a fim de propor uma classe arqueológica de produtores de subcultura esquecidos, que estão escondidos abaixo da superfície resplandecente do sucesso valorizado pelo mercado. Além de Muñoz tornar ser queer totalmente central em narrativas culturais do fracasso, há uma gama robusta de literatura que marca o fracasso, quase heroicamente, como narrativa que corre paralela ao convencional. Portanto, comecemos por investigar uma narrativa espetacular sobre fracasso que não estabelece a conexão entre fracasso e ser queer e vejamos o que acontece. Isso deve solucionar questões sobre o porquê do fracasso ser localizado dentro da gama de afetos políticos aos quais nos referimos como queer.

FRACASSOS DO PUNK

O clássico romance punk de Irvine Welch, Trainspotting (1996), é incontestavelmente um romance não queer sobre fracasso, decepção, vício e violência que se passa em um bairro pobre de Edinburgh. O romance consiste em xingamentos obscenos e acessos de violência da classe trabalhadora escocesa, mas também contém momentos límpidos de negatividade punk que indicam, à própria maneira raivosa, as políticas implícitas do fracasso. Trainspotting retrata as experiências e tribulações da juventude escocesa desempregada em busca de algum escape da Grã-Bretanha de Thatcher com humor feroz e sagacidade. Renton, o anti-herói no romance e um dos aproximadamente cinco narradores do texto, recusa a usual trajetória de desenvolvimento da progressão narrativa e passa o tempo indo e voltando entre o êxtase das drogas e a agonia do tédio. Ele não passa por qualquer período de amadurecimento, ele não progride de maneira alguma, nem ele nem seus amigos aprendem qualquer lição, ninguém para de viver uma vida ruim e, por fim, muitos morrem em decorrência do uso de drogas, do HIV, da violência e de negligência. Renton explicitamente reconhece que recusa um modelo normativo de autodesenvolvimento e transforma essa recusa em uma crítica amarga ao conceito liberal de escolha:

Suponha que eu consiga pesar os prós e os contras, saiba que vou ter uma vida curta, tenha a mente sã etcétera, etcétera, mas ainda assim queira usar heroína. Eles não deixam você fazer isso. Eles não deixam você fazer isso, porque é visto como sinal do próprio fracasso deles. O fato de que você simplesmente escolhe rejeitar o que eles têm a oferecer. Escolha a gente. Escolha vida. Escolha pagamento de hipoteca; escolha máquinas de lavar; escolha carros; escolha sentar-se no sofá e assistir a jogos que entorpecem a mente e esmagam o espírito, e enfiando comida ruim na boca. Escolha apodrecer, mijando e cagando em si mesmo em um lar, uma puta vergonha para os pirralhos egoístas e fodidos que produzimos. Escolha vida. Bem, escolha não escolher vida. Se os filhos da puta não conseguem lidar com isso, o problema é deles. Como diz o Harry Lauder, eu só quero me manter ligado no fim da estrada (1996, tradução livre).

A escolha de Renton de não escolher “vida” o coloca em oposição radical a modos de respeitabilidade masculina, mas também proporciona a ele espaço para expor a contraditória lógica de saúde, felicidade e justiça dentro do estado pós-assistencial. Nesse discurso perverso de forma brilhante ele justifica a escolha que faz por drogas acima da saúde como opção para “não escolher vida”, onde “vida” significa “pagamentos de hipoteca… máquinas de lavar… carros… sentar-se no sofá e assistir a jogos que entorpecem a mente e esmagam o espírito, e enfiando comida ruim na boca”, e basicamente apodrecer na domesticidade. A sociedade, ele nos diz, “inventa uma lógica complexa espúria para absorver pessoas cujo comportamento está fora do convencional” (1996); dentro dessa “vida” lógica, uma passividade doméstica entorpecente constitui uma “escolha” moral melhor do que uma vida de drogas e álcool. Essa mesma lógica oferece as forças armadas a homens jovens como alternativa para as gangues de rua e casamento como alternativa para promiscuidade sexual.

A polêmica se estende também para a estrutura do governo colonial dentro do Reino Unido. Numa diatribe feroz contra os ingleses por colonizarem a Escócia e os escoceses por deixá-los, Renton sai em defesa de seu amigo maníaco e violento, Begbie:

Begbie e outros são fracassados em um país de fracassados. Não adianta culpar os ingleses por terem nos colonizado. Eu não odeio os ingleses, eles são apenas uns idiotas. Somos colonizados por idiotas. Não conseguimos nem escolher uma cultura decente, vibrante, saudável pela qual ser colonizado. Não. Somos comandados por filhos da puta incapazes. O que isso faz de nós? Os mais baixos dos mais baixos, a escória do mundo. O lixo mais desgraçado, servil, miserável, patético que jamais foi criado. Não odeio os ingleses. Eles só se dão bem com as merdas que têm. Odeio os escoceses (1996, tradução livre).

Talvez a diatribe de Renton não tenha valor por suas qualidades inspiradoras, mas é uma crítica malvada e potente ao colonialismo britânico por um lado e, por outro, à retórica otimista falsa do nacionalismo anticolonial. Em um contexto muito diferente, Lisa Lowe descreveu a escrita que recusa a binaridade do colonialismo versus nacionalismo como “escrita descolonizadora”, que ela diz ser “uma contínua ruptura com o modo colonial de produção” (1996). Trainspotting, um romance escocês descolonizador, prevê drogas, furtos e violência como “armas dos fracos” utilizadas pelos homens colonizados da classe trabalhadora dos bairros pobres de Edinburgh.

A crítica de Renton à retórica liberal de escolha e sua rejeição à hétero-domesticidade resulta em uma negatividade catártica e nervosa que busca vários alvos, tanto dominantes quanto minoritários. Algumas vezes a negatividade dele cai facilmente em racismo, sexismo e profunda homofobia, mas, em outros momentos, parece estar em sintonia com uma política progressista da crítica. De fato, o discurso de Renton encontra eco em teoria queer recente que associa negatividade com ser queer. No Future (Nenhum futuro), livro de Lee Edelman, aos moldes de Renton, recomenda a pessoas queer pensar em “como alternativa, escolher não escolher a criança como imagem disciplinar do passado imaginário ou como espaço de identificação projetiva com um futuro sempre impossível” (2005). Enquanto a recusa de Edelman pelas escolhas oferecidas volta a ordem simbólica em si mesma para questionar a própria construção da relevância política, as recusas de Trainspotting rapidamente se colam ao status quo, porque não podem imaginar o enfraquecimento do homem branco como parte do surgimento de uma nova ordem. Por fim, Trainspotting é hétero-masculino demais em sua simples reversão da autoridade masculina, sua fraternidade antimulher e suas explosões de violência imprevisíveis. Sem uma visão elaborada de modos alternativos, o romance colapsa na linguagem raivosa e agitada do homem punk cujo legado de privilégio patriarcal e racial foi mantido. Nesse exemplo de fracasso não queer, fracasso é a ira do homem branco excluído, uma raiva que promete e cumpre punição para mulheres e pessoas de cor.