capa 187A escrita é a vida

O impossível como ponto de partida da escrita de Marguerite Duras, autora francesa que será republicada no Brasil; como Tati Quebra Barraco construiu uma poética que subverte relações de dominação; o sociólogo Richard Miskolci discute a relação entre redes sociais e levantes conservadores no Brasil; uma discussão sobre Machado de Assis e sua formação em país pós-colonial.

Marguerite Duras em conversa no "Apostrophes", em 1984 (legendas em francês)

card ebook mensal SETEMBRO.21

José Castello

Everardo Norões

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Dias.Gomes Reproducao.da.Internet

 

 

No livro Herói mutilado, em breve lançado pela Companhia das Letras, a jornalista Laura Mattos expõe a censura às telenovelas no Brasil a partir do caso de Roque Santeiro, de Dias Gomes (1922-1999). Roque Santeiro foi escrita como peça e sua encenação foi censurada nos anos 1960. Como telenovela, o texto foi novamente vetado na década seguinte. Em 1985, com o fim da ditadura, a novela sobre um falso herói bateu recordes de audiência. 

No trecho abaixo, da primeira parte da obra, Mattos nos apresenta às relações de Dias Gomes com o comunismo e o socialismo, as opressões que sofreu depois de uma viagem à URSS e sua aproximação ao Partido Comunista Brasileiro. Como diz a autora: ora convocando os princípios do PCB, "ora os recusando, em um jogo complexo de culturas políticas", o autor sempre colocou em suas obras personagens que denuciam as mazelas sociais do país.

 

 ***

 

A VIAGEM PROIBIDA

Carlos Lacerda não se deu conta da pólvora que tinha nas mãos. No dia 18 de maio de 1953, seu jornal, Tribuna da Imprensa, publicou sem destaque uma foto enviada pela agência oficial de notícias soviética. No canto direito da página 5, a imagem, em apenas duas colunas, abria a seção O Pequeno Mundo, de notas internacionais, com uma legenda inofensiva: “Uma delegação de trabalhadores e partidários da paz do Brasil, em visita a Moscou, colocou coroas de flores no Mausoléu da Praça Vermelha”.

Só duas semanas depois Lacerda identificou Alfredo Dias Gomes em meio aos tais “partidários da paz” da fotografia. Fosse ele apenas mais um autor teatral subversivo em início de carreira, vá lá, mas o homem era diretor de programação da Rádio Clube, propriedade de Samuel Wainer, arqui-inimigo de Lacerda.

A fotografia merecia ser promovida. Na edição de 27 de maio, ela voltou ao jornal, agora em três colunas e na primeira página, quase integralmente dedicada a atacar Wainer. “Diretores da Rádio Clube levam flores ao túmulo de Stálin”, dizia o título. O texto afirmava que, na imagem, do “bando de Samuel Wainer” foram identificados Dias Gomes, diretor da rádio, e Cláudio Santoro, diretor musical. “Vale dizer que Dias Gomes detém o posto-chave da rádio, que todos os dias manda ao ar programas de ódio social.” Mais grave: a quinta-coluna do rádio brasileiro, bradava a Tribuna, viajara a Moscou financiada pelo Banco do Brasil. A expressão “quinta-coluna”, originada na Guerra Civil Espanhola, referia-se aos apoiadores das quatro colunas que marcharam em Madri para derrubar o governo. Passou a designar espiões e grupos que atendem interesses contrários aos da instituição vigente. O jornal de Lacerda o usou para denunciar a infiltração comunista na rádio. [nota 1]

A excursão brasileira ao Primeiro de Maio soviético desembarcava em uma guerra da imprensa carioca que tinha, de um lado, Lacerda, e, do outro, Samuel Wainer e Getúlio Vargas. O texto sobre a viagem era parte de uma série de reportagens que acusava Wainer de formar seu grupo de comunicação graças a financiamentos do Banco do Brasil, facilitados pelo presidente em troca de apoio político.

Além da Rádio Clube e da então recém-lançada revista Flan, Wainer era dono do diário Última Hora. Fundado em 1951 como vespertino carioca, no ano seguinte já circularia em São Paulo e, no auge, chegaria à distribuição nacional, com sede própria em sete estados. Tornara-se, assim, o maior concorrente da Tribuna, [nota 2] que Lacerda lançara em 1949 no Rio de Janeiro, após conseguir angariar fundos com a ajuda de influentes amigos católicos, como Alceu Amoroso Lima, Gustavo Corção e Sobral Pinto. [nota 3]

Em meados de março daquele ano, Dias Gomes recebera o convite para se unir à comitiva de Moscou, organizada por Jorge Amado, seu camarada do Partido Comunista. Conterrâneos, eles se conheciam dos tempos em que Dias ainda morava em sua cidade natal, Salvador, quando seu irmão mais velho, Guilherme, e Amado formaram a autointitulada Academia dos Rebeldes, uma tentativa juvenil de se contrapor à Academia Brasileira de Letras. [nota 4]

A proposta de viajar à capital soviética deixou Dias em um dilema: ele tinha, de um lado, seu patrão, Samuel Wainer, pró-Getúlio, e de outro o PCB, que, com lógicas paradoxais e complexas, estava naquele momento aliado a Lacerda na campanha para depor o presidente. O jovem comunista preferiu enganar o chefe e topou ir a Moscou, inventando que faria uma viagem de estudos à Inglaterra. Para isso, endividou-se — não com o Banco do Brasil, como denunciava a Tribuna, mas com um agiota.

Diante da repercussão da reportagem sobre a viagem, Wainer mandou demiti-lo, assim como a Santoro. Quem cumpriu a ordem foi o diretor comercial, Marques Rebelo, simpatizante do Partido. A emissora, como quase todas as outras, era coalhada de comunistas. Dias havia contratado pecebistas como o próprio Cláudio Santoro, músico clássico com quem ele dividira o quarto em Moscou, e o ator Mário Lago, seu companheiro nas noites de boemia. [nota 5]

Havia um estagiário de dezoito anos, também ligado ao PCB, que não saía de seu pé. O garoto fora empregado a pedido de José Hernandes, que editara um romance de Dias, Duas sombras apenas, em 1945. Era José Bonifácio de Oliveira Sobrinho. Conhecido como Boni, chegou a participar de um congresso comunista em Praga. Havia sido levado à militância pelo radialista e pioneiro da TV Túlio de Lemos, mas sua filiação terminaria não muito depois, aos vinte e poucos anos. Decepcionou-se com membros que lhe solicitaram espaço na programação de rádio para a propaganda de uma exposição iugoslava. Eles não queriam um preço mais barato, para o Partido economizar, mas mais alto, a fim de dividir o superfaturamento. [nota 6]

Entre um programa e outro, os estúdios da Rádio Clube eram usados para reuniões políticas e, tarde da noite, funcionários assistiam a filmes rejeitados pelo circuito comercial, muitos deles soviéticos, em um cineclube organizado por Luiz Alípio de Barros, crítico de cinema do jornal Última Hora. [nota 7]

Apesar de disseminada, essa efervescência comunista tinha de se manter o mais sigilosa possível naquele ano para lá de turbulento. Em 5 de janeiro de 1953, foi assinada uma nova Lei de Segurança Nacional, mais ampla e severa do que a por ela revogada, a primeira da República brasileira, de 1935. Greves e qualquer movimento de crítica ao poder constituído, como a “incitação à luta de classes”, tornaram-se crimes, punidos com cadeia.

Dias perdeu o emprego em meio ao caos político do Brasil, com a divisão dos militares, a tentativa de deposição de Getúlio liderada por Lacerda e os reflexos da guerra fria. Além de demitido, foi condenado ao que na época costumavam chamar de “lista negra” da radiodifusão, um combinado informal entre empresários para barrar a contratação de comunistas e afins. Para o jovem dramaturgo apaixonado pelo teatro, o trabalho no rádio era um fardo, mas importante para a sua sobrevivência financeira. E aquela era uma hora especialmente errada para ficar desempregado, endividado com um agiota e com o nome incluído na relação dos vetados. Janete Clair, com quem se casara em 1950, havia interrompido a carreira de locutora e atriz de radionovelas no ano anterior, quando perdera um filho com poucas semanas. Ela era RH negativo, e Dias, positivo. O bebê herdara o sangue do pai, provocando uma reação de incompatibilidade com os anticorpos da mãe, e a medicina tinha então poucos recursos para evitar sua morte prematura causada pela chamada eritroblastose fetal.

Para piorar, o casal havia acabado de obter um empréstimo bancário a fim de comprar o primeiro apartamento da família, na Rua Senador Vergueiro, no Flamengo, onde morava com o primogênito, Guilherme, de três anos, e com a mãe de Dias, d. Alice. Com a demissão da Rádio Clube, o escritor devolveu o imóvel e voltou para o aluguel, em uma casa na Rua Saturnino de Brito, no Jardim Botânico. [nota 8]

O teatro ele abandonara quase dez anos antes, desiludido com a preferência do mercado pelas comédias, com a resistência a uma estética mais realista e nacional e com vetos políticos a seus textos. Voltar aos palcos agora, com o nome na "lista negra", era uma ideia descartada. Uma pena, pois os palcos fervilhavam. Naquele ano de 1953 nascia o Teatro de Arena, iniciado com o grupo da Escola de Artes Dramáticas de São Paulo e que tinha como objetivo contrapor-se ao modelo do TBC, o Teatro Brasileiro de Comédia, voltado a produções mais caras e a textos estrangeiros. O Arena logo se tornaria um centro de arte engajada, alinhado às estratégias da esquerda. [nota 9] Suas peças, elaboradas com base na valorização de uma cultura de raízes nacionais, denunciavam injustiças sociais e eram voltadas às classes populares, com intuito de conscientização do público para uma transformação da sociedade.

Dessa turma, Dias Gomes só iria se aproximar depois. Diante das circunstâncias daquele momento, restava-lhe a televisão, tão sem prestígio, instalada havia três anos no país — a TV Tupi fora inaugurada em setembro de 1950 na cidade de São Paulo, na primeira transmissão da América Latina. Com recursos mínimos, não muito atrativo para o mercado publicitário, o veículo mantinha poucos profissionais com contrato e, quando precisava, comprava textos de roteiristas. Dias fez seus primeiros trabalhos para a Tupi do Rio com pseudônimo. Para assinar suas criações para o teatro de comédia na TV, usou o nome da esposa, o de Paulo de Oliveira, seu ex-assistente na Rádio Clube, e o do amigo Moysés Weltman, do Partido Comunista. [nota 10] Em uma verdadeira “farra de troca de nomes”, assinou, por exemplo, como Wanda Wladimir, junção dos nomes dos dois filhos de Moyses. [nota 11] Quando os amigos recebiam o pagamento, “miserável”, Dias ia a suas casas para buscar o dinheiro. Assim seria durante nove meses, até ele ter um programa liberado com o seu nome pela Standard Propaganda, que produzia conteúdo para o rádio e para a TV. Dois anos depois, conseguiria novamente um emprego, na Rádio Nacional, de onde viria a ser expulso posteriormente também em virtude de sua ligação com o comunismo.

A entrada na lista negra do rádio não era sua primeira complicação por motivos políticos. Logo na estreia nos palcos, com uma peça escrita quando tinha apenas dezenove anos, aprendeu o significado de liberdade cerceada. Pé de cabra, sobre um ladrão filósofo que falava em hipocrisia e distribuição de renda, [nota 12] só pôde ser montada por Procópio Ferreira, em julho de 1942, após ter dez páginas cortadas pelo Estado Novo, que a considerou marxista. Dias, que jurava nunca haver lido Marx, resolveu ler.

Dois anos depois, em 1944, iria se filiar ao Partido Comunista Brasileiro.[nota 13] Ele e o PCB tinham praticamente a mesma idade. Sob o reflexo da Revolução Russa de 1917, o Partido fora criado em um congresso em Niterói, em março de 1922, com a intenção principal de promover a revolução do proletariado, substituindo o capitalismo pelo socialismo.[nota 14] Sete meses depois, em 19 de outubro, nascia o dramaturgo, que passaria grande parte de sua vida seduzido por essa proposta, intercalando diferentes graus de ligação com o Partido, ora convocando seus princípios, ora os recusando, em um jogo complexo de culturas políticas.[nota 15]

Independentemente da intensidade de seu engajamento com os comunistas, Dias Gomes recrutou, da primeira à última obra, um exército de personagens que denunciariam as mazelas sociais do país.

 

NOTAS 

[nota 1] Ver Igor Pinto Sacramento, Nos tempos de Dias Gomes: a trajetória de um intelectual comunista nas tramas comunicacionais. Tese de doutorado, Rio de Janeiro: UFRJ, 2012, p. 127; CPDOC da FGV. Disponível em: <http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/glossario/quinta_coluna>. Acesso em: 2 abr. 2018.

[nota 2] Para a disputa entre Wainer e Lacerda, ver Ana Maria de Abreu Laurenza, Lacerda X Wainer: o Corvo e o Bessarabiano. São Paulo: Senac, 1998.

[nota 3] Para a informação sobre a ajuda a Lacerda, Otavio Frias Filho, “O tribuno da imprensa”, Revista piauí, n. 91, abr. 2014. Disponível em: <http://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-tribuno-da-imprensa/>. Acesso em: 22 jun. 2016.

[nota 4] Dias Gomes, Apenas um subversivo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998, p. 23.

[nota 5] Igor Pinto Sacramento, op. cit., p. 128.

[nota 6] Entrevista de Boni à autora, no Rio de Janeiro, em 12 set. 2011.

[nota 7] Depoimento à autora, em 29 mar. 2011, do jornalista Henrique Veltman, que militava com Dias Gomes no Partido Comunista e foi seu contemporâneo nas radionovelas. Seu irmão Moysés Weltman, radionovelista, era amigo de Dias, a quem cedeu seu nome para assinar textos para o teatro e para a TV Tupi quando ele entrou na “lista negra”, após o episódio da Rádio Clube.

[nota 8] Dias Gomes, Apenas um subversivo, p. 145.

[nota 9] Miliandre Garcia de Souza, Do Arena ao CPC: o debate em torno da arte engajada no Brasil (1959-1964). Dissertação de mestrado, Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2002, p. 146.

[nota 10] Depoimento à autora de Henrique Veltman; Dias Gomes, Apenas um subversivo, p. 147.

[nota 11] As informações e a expressão “farra de troca de nomes” são de Henrique Veltman, irmão de Moysés, em depoimento à autora, em 28 mar. 2011.

[nota 12] Dias Gomes, Peças da juventude. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994, pp. 39-138.

[nota 13] Dias Gomes, Apenas um subversivo, pp. 100-1.

[nota 14] História do PCB no site do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas. Disponível em: <http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos20/QuestaoSocial/PartidoComunista>. Acesso em: 22 jun. 2016.

[nota 15] Igor Pinto Sacramento, op. cit., p. 37.