capa 187A escrita é a vida

O impossível como ponto de partida da escrita de Marguerite Duras, autora francesa que será republicada no Brasil; como Tati Quebra Barraco construiu uma poética que subverte relações de dominação; o sociólogo Richard Miskolci discute a relação entre redes sociais e levantes conservadores no Brasil; uma discussão sobre Machado de Assis e sua formação em país pós-colonial.

Marguerite Duras em conversa no "Apostrophes", em 1984 (legendas em francês)

card ebook mensal SETEMBRO.21

José Castello

Everardo Norões

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Ineditos jul.19 1Filipe Aca

 

Abaixo, uma nota apresentando o poeta polonês Jan Kochanowski e, logo depois, cinco poemas traduzidos. O material compõe o livro Lamentos, ainda sem editora.


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O poeta Jan Kochanowski (1530-1584), considerado o pai do idioma literário polonês, além de criar há 500 anos o estilo e a linguagem que se tornaram referência por séculos, transformando-o no maior poeta da língua até o advento dos vates românticos no século XIX, também foi o primeiro autor da Polônia a criar uma obra tida como completa. Fora os epigramas conhecidos como Fraszki (o título proveniente do italiano frascas poderia ser traduzido como “brincadeiras”, “bagatelas”, “folguedos”), também escreveu cantos à moda de Horácio, dramas, poemas longos, elegias, odes e epicédios. Traduziu mais de 150 salmos para o polonês. Traduziu, também, fragmentos da Ilíada. Além da poesia escrita em polonês, escrevia também versos em latim (cerca de um terço de sua produção literária).

A listagem completa de suas obras contém mais de sete centenas de poesias nos dois idiomas, o que é um fato impressionante, levando-se em consideração as outras atividades desse verdadeiro homem da Renascença – foi político, cortesão, administrador, poeta da corte e estudioso que frequentou universidades em Cracóvia, Conisberga e Pádua – e sua vida relativamente curta, já que morreu aos 54 anos. Da mesma maneira, impressiona o fato de que, embora Kochanowski fosse um dos grandes poetas da época renascentista, e o maior poeta renascentista do mundo eslavo, seu legado permanece pouco conhecido fora das fronteiras polonesas. Embora algumas de suas obras tenham sido traduzidas para outros idiomas – talvez entre as mais famosas esteja a tradução para o inglês de seus Treny, em autoria conjunta dos poetas Stanisław Barańczak e Seamus Heaney (este laureado com o Nobel literário de 1995) –, ainda há muito trabalho a ser feito no sentido de apresentar sua poesia em outros idiomas. Em português, por enquanto, temos apenas 4 poemas dele. Três deles foram traduzidos por Aleksandar Jovanović na sua antologia de poesia eslava Céu vazio e um é a tradução coassinada por Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza no livro História da literatura polonesa, de autoria do primeiro.

Embora o poeta durante boa parte da vida estivesse perto da corte e de dignidades, nunca cedeu à tentação de se transformar num artista cortês bajulador. Muito pelo contrário. Tanto seus epigramas cheios de sátiras e dedicados às celebridades da época, quanto seus poemas mais sérios, nos quais aconselha os poderosos a como se portar e governar, mostram a verdadeira independência de um humanista e cidadão. Da mesma maneira, seu único drama concluído, e ao mesmo tempo a primeira tragédia moderna escrita no idioma polonês, A dispensa dos emissários gregos, cuja ação transcorre em Tróia na véspera do início da guerra sangrenta, é repleto de alusões políticas e transforma-se numa voz que chama a atenção dos que comandam a república nos tempos de ameaças bélicas.

No ocaso do reinado da dinastia Iaguelônica, a Polônia definitivamente se transforma na República dos Nobres, em que estes oficialmente agora elegem seu rei. Esses tempos marcam também o gradual afastamento de Kochanowski da corte real. O poeta resolve viver a vida de administrador de terras, dono de uma propriedade rural. Sua participação na vida pública resume-se a poucas e importantes aparições, mas a presença da nota de preocupação patriótica permeia constantemente seus escritos. A retirada para o seio da vida familiar, para “o campo tranquilo, o campo alegre”, como escreve numa de suas éclogas, é, no entanto, marcada por infortúnios. Se, por um lado, o reconhecimento da sua tradução do Livro dos salmos, que foi simultaneamente adotado pelas maiores religiões do reino (católica, protestante e ortodoxa) confirma sua fama, por outro lado, a morte do irmão e de duas filhas amarga os últimos anos do poeta.

Justamente esses infortúnios ao lado da maturidade poética resultam naquela que entre as obras de Kochanowski certamente merece destaque. Trata-se do trabalho cuja tradução foi empreendida pela dupla Barańczak/Heaney: Treny (Lamentos ou Trenodias). Consiste em um ciclo de epicédios dedicados à filha Urzsula, após falecimento desta. Ao lado da obra mais pessoal de Kochanowski, estamos também diante da obra escrita por um poeta que, dos seus dias. A maturidade dos Lamentos, tanto do ponto de vista da construção intertextual quanto do domínio da forma e da linguagem, faz do ciclo uma das mais importantes obras da literatura polonesa. Ao mesmo tempo, a universalidade de seu tema, a perda de uma filha, fazem com que os versos de Kochanowski não percam viço e importância, apesar da passagem dos anos.

Observamos em Lamentos, como numa obra clássica da Renascença (e que em alguns momentos já prenuncia a chegada do Barroco), a presença de elementos clássicos e referências à tradição humanista ocidental. A invocação aberta de Simônides, a presença de Heráclito, de Cícero, de mitos gregos (como os de Níobe e Orfeu, por exemplo), o imaginário sálmico e o pensamento filosófico da antiguidade clássica, unem-se com as intertextualidades menos óbvias como, por exemplo, o canto da Antígona de Sófocles no Lamento VI, ou o relacionamento com os conjuntos epicediais, como o de Propércio. No entanto, outro elemento também típico da época do Renascimento faz do ciclo uma obra original. Além de ele ser dedicado a uma pessoa não notória, contrariando o costume nos epicédios da época, vemos um ciclo dedicado a uma criança, ou seja, uma pessoa sem importância alguma do ponto de vista público. E por mais que existissem epitáfios versados e poemas dedicados aos familiares mortos, um ciclo de 19 poemas dedicados à filha, ao luto por ela e às tentativas de superação de sua perda é uma novidade sem igual na poesia criada até então. Podemos pensar nas analogias com o ciclo de Petrarca (1304-1374) dedicado a Laura, na segunda parte de seu Canzioniere, de alguma maneira revisto por Pierre de Ronsard (1524-1585) no ciclo Sur la mort de Marie (os dois poetas conheceram-se durante a viagem de Kochanowski à França), mas as protagonistas do italiano e do francês não eram crianças.

A composição do livro também reflete de alguma maneira a de Petrarca. Os lamentos, conversas com a filha morta, evoluem desde o desespero até a consolação final com o destino. Diferentemente, no entanto, da oração – uma conversa com Deus que dá cabo ao ciclo petrarquiano –, Kochanowski termina Lamentos com a descrição do sonho no qual sua falecida mãe fala sobre a recepção que Urzsula teve no outro mundo e reflete didatica e moralisticamente sobre os fados humanos. Nessa situação, devemos pensar que as inspirações do poema final remontem a O sonho de Cipião, de Cícero, mostrando assim vários diálogos e o sincretismo estabelecidos pela obra do polonês. Um outro elemento que diferencia o ciclo de Kochanowski do petrarquiano é um autorretrato do poeta quando velho que vemos em Lamentos. A obra reflete a dor e o fim dos ideais estóicos do poeta, que não se provaram muito úteis na vida real. A evolução do sofrimento do poeta e suas etapas que terminam na consolação com o destino podem ser observados ao longo do ciclo. A construção que permite esse relato poético acabou incutindo várias influências na poesia polonesa. A crise do homem pensante renascentista perante o inimigo de todo ser humano – a morte – e a crise perante as ideias que não fornecem uma base diante da dor, talvez ecoem num outro ciclo famoso de um poeta polonês: O Senhor Cogito de Zbigniew Herbert, que mostra o homem pensante de hoje diante da “Terra desolada” do mundo moderno. Não acaba aqui, no entanto, a inspiração que Lamentos exerceram na literatura. Podemos encontrar seus ecos tanto nos ciclos epicediais de Władysław Broniewski, quanto nos poemas de Józef Wittlin ou Boleslaw Leśmian, mas também no ciclo de poemas que Stanisław Wygodzki dedicadou à sua filha, morta durante o Holocausto.

As traduções apresentadas adiante são parte de um projeto ainda inconcluso de verter a integridade da obra para o idioma português. A tradução dos Lamentos configura uma tarefa desafiante. Tanto porque o idioma polonês do século XVI é diferente do idioma de hoje, obrigando o tradutor a um estudo mais minucioso, quanto porque a tarefa de tentar refletir os recursos utilizados no original são um desafio constante. Embora eu esteja satisfeito com alguns dos resultados alcançados, outros poemas ainda aguardam uma versão final a meu contento. Por ora apresento aqui ao leitor uma amostra: alguns poemas extraídos da sequência original de Lamentos, para que se possa ter uma ideia da obra mais importante da literatura renascentista polonesa.

 

 

Ineditos jul.19 2Filipe Aca

 

LAMENTO IV
Violaste os meus olhos, ó Morte abjeta,
Tive que ver a agonia da filha dileta!
Vi quando arrancavas a frutinha imatura,
Os corações dos pais pisando com pés duros.
Nunca poderia ela, sem minha grã-desolação,
Morrer, nunca sem a dor sincera e a aflição
Abandonar-me pesaroso e sozinho nessa vida,
Não importando a hora da sua partida,
Mas nunca me poderia causar sua morte
Mor desdita e uma saudade mais forte.
E ela, vivendo mais anos, com a vênia de Deus,
Muitas alegrias legaria aos olhos meus.
E eu, nesse tempo, a minha existência viveria
E, por fim, Perséfone, mais calmo encontraria,
Sem ter sentido n’alma tão enorme pena
Que a nada se iguala na vida terrena.
Não estranho Níobe que em pedra se transformou
Quando os corpos dos filhos mortos contemplou.


LAMENTO V
Como uma oliveira miúda, no alto pomar
Seguindo a mãe, da terra ao céu tenta escalar,
Nem ramos, nem folhinhas ainda brotando,
Apenas uma varinha delgada galgando
A qual, na limpeza de urtigas e mato espinhoso,
Foi segada ao meio pelo hortelão ansioso,
Desfalece de pronto, da força inata privada,
Sem fôlego, cai inerte aos pés da sua mãe amada –
Assim aconteceu da minha querida Urszula a partida.
Diante dos olhos dos pais lentamente crescia sua vida,
Mal se levantou do solo, já pelo espírito contagioso
Da Morte Dura envolvida, dos pais amorosos
aos pés caiu morta. Ó Perséfone atroz,
Quantas vãs lágrimas provocaste pela dor feroz.

LAMENTO VI
Ó minha alegre cantora! Ó Safo eslava!
Quem, além do meu quinhão de terra ainda esperava
O meu alaúde, devido por lei da herança!
E tu confirmavas a todos essa esperança,
Criando novos cantos e nunca fechando
A boquinha, passavas o dia cantando,
Como um rouxinolzinho que entre a verde folhada
Canta a noite inteira com sua garganta animada.
Muito rápido calastes! De súbito a morte impiedosa
Te espantou, minha amável gárrula preciosa!
Não saciaste meus ouvidos com teus belos cantos
E o pouco que tive - pago agora com copiosos prantos.
E tu nem na agonia de cantar cessaste,
Mas à mãe beijando, ainda assim a saudaste:
"Cara mãe, não poderei mais servir à senhora
Nem sentar poderei à sua mesa acolhedora;
Terei que devolver as chaves, sozinha afastar-me,
Da casa dos meus caros pais pra sempre separar-me".
Foi essa, e mais não me permite recordar a atroz
dor paterna lancinante, a sua última voz.
O coração da mãe, ouvindo esse adeus aflitivo,
Devia ser bom, pois ainda conservou-se vivo.

LAMENTO VII
Indumentos infelizes, vestes desoladas
             Da minha filha amada!
Para que meus olhos tristes estais atraindo
             E minhas penas expandindo?
Não vestirá seu corpinho convosco, minha criança
             Não há mais, não há mais esperança.
Captou-a o sono duro, ferrenho, infinito.
             Seu vestido tinto bonito
E os laços para nada e cintos dourados,
             Os presentes maternos inutilizados.
Não para esse leito, minha doce cria
             Sua pobre mãe deveria
Levar-te. Não foi esse o dote prometido
             Aquele que tens recebido!
Deu-te só uma mísera faixa e um simples vestidinho;
             O pai somente de terra um punhadinho
Colocou nas cabeças. Ai que maldição!
             Fechados ela e o dote no mesmo caixão.


LAMENTO VIII
Num deserto imenso o meu doce lar
Meiga Urszula, com tua falta, vieste transformar.
Cá estamos todos, mas parece que ninguém existe,
Uma alma miudinha faz tanta falta, triste...
Por todos tagarelaste, por todos cantaste,
Todos os cantos da casa sempre visitaste.
Nunca deixaste a mãe boa se preocupar,
Nem o pai com os pensamentos a fronte turvar,
Um ou outro com graça sempre abraçando,
E com a risada alegre as penas dispersando.
Silenciou tudo agora, reina o deserto,
Ninguém nunca graceja ou brinca por perto.
De cada canto espreita-nos a aflição,
E o coração procura seu consolo em vão.

LAMENTO XII
Nenhum pai, dizem, um filho há amado tanto,
Nenhum sobre a filha derramou os prantos
Que derramei. E nunca havia u’a criança nascido,
Que mais amor dos pais tivesse merecido.
Dócil, asseada, meiga e nada mimada
Cantar, falar, rimar, sabia como se ensinada;
Imitar reverências e posturas alheias podia,
Quando manter os modos ou brincar sabia,
Inteligente, alegre, humana, bondosa,
Pura, modesta, calma e nada chorosa.
E ainda: nunca pela manhã falava em comer
Antes que a Deus as orações fosse oferecer.
Não iria dormir sem antes a mãe saudar
E pela saúde dos pais a Deus rogar.
Sempre alegre, correndo, seu pai encontrava
quando este de viagem à casa chegava.
A ajudar sempre pronta os seus pais amados
Cada encargo executava antes dos criados.
Essas coisas fazia na infância tenrazinha
Quando ainda menos de trinta meses tinha.
Não conseguiu suportar a sua frágil juventude,
O peso de tantos méritos e tantas virtudes.
Caíste sem aguardar a colheita, minha espiga adorada,
Não maduraste ainda e antes da hora esperada
Desolado eu faço o plantio na aflita terra!
E junto a ti também a minha esperança enterro:
Pois por todos os séculos não brotarás nem florirás
E os paternos olhos tristes nunca mais alegrarás.