capa 187A escrita é a vida

O impossível como ponto de partida da escrita de Marguerite Duras, autora francesa que será republicada no Brasil; como Tati Quebra Barraco construiu uma poética que subverte relações de dominação; o sociólogo Richard Miskolci discute a relação entre redes sociais e levantes conservadores no Brasil; uma discussão sobre Machado de Assis e sua formação em país pós-colonial.

Marguerite Duras em conversa no "Apostrophes", em 1984 (legendas em francês)

card ebook mensal SETEMBRO.21

José Castello

Everardo Norões

SFbBox by casino froutakia

Ineditos Mai.19 June Jordan Hana Luzia

 

June Jordan foi uma poeta afro-caribenha, ensaísta, professora e ativista, nascida em Nova York em 1936. Ganhou inúmeros prêmios literários. Com sua poesia e seus ensaios, fez enormes contribuições ao pensamento feminista e LGBTQI+ contemporâneos e é frequentemente citada como fonte por escritoras como Michelle Wallace, Adrienne Rich e Alice Walker, entre outrxs. Toni Morrison falava que Jordan foi uma das poucas autoras que conseguia unir um ativismo incansável a uma escrita impecável. A autora morreu de câncer de mama em 2002.

***

 

POEMA SOBRE OS MEUS DIREITOS

Mesmo hoje eu preciso dar uma volta e arejar
minha cabeça em relação a esse poema que é sobre porque eu não posso
sair sem trocar de roupa de sapato
a postura do meu corpo meu gênero minha identidade minha idade
meu status como mulher sozinha à noite/
sozinha na rua/ sozinha não é o problema/
o problema é que eu não posso fazer o que eu quero
fazer com meu próprio corpo porque eu tenho o gênero
errado a idade errada a pele errada e
suponha que isso não fosse aqui na cidade mas lá na praia/
ou longe no interior e eu quisesse ir
pra esses lugares sozinha pensando em Deus/ ou pensando
sobre filhos ou pensando sobre o mundo/ tudo isso
revelado pelas estrelas e pelo silêncio:
eu não poderia ir e eu não poderia pensar e eu não poderia
ficar lá
sozinha
como eu precisava estar
sozinha porque eu não posso fazer o que eu quero com meu próprio
corpo e
quem neste caralho arrumou as coisas
desta forma?
e na França eles dizem que se o cara penetrar
mas não ejacular então ele não me estuprou
mesmo se eu der uma facada nele e gritar
e implorar pro filho da puta e mesmo depois que eu esmagar
a cabeça dele com um martelo e mesmo se depois disso ele
e seus bróder me estuprarem mesmo depois disso
dizem que eu consenti e não houve
estupro porque finalmente você entende finalmente
ele me foderam porque eu estava errada eu estava
errada de novo por estar ali/ errada
por ser quem eu sou
o que é exatamente como na África do Sul
penetrando na Namíbia penetrando em
Angola e isso significa quero dizer... como você sabe se
Pretória ejacula como vai ser a evidência a
prova da monstruosa e ditatorial ejaculação na Terra Preta?
e se
depois da Namíbia e depois de Angola e depois do Zimbábue
e se depois de todos meus antepassados e antepassadas resistirem até mesmo
à autoimolação das vilas e se mesmo assim
depois disso perdermos o que os garotões vão dizer? eles vão
alegar que consenti?:
Você tá me entendendo?: nós somos as pessoas erradas
com a pele errada no continente errado e por que
caralhos as pessoas estão sendo razoáveis sobre isso?
e de acordo com o Times essa semana
lá em 1966 o Serviço Secreto Americano decidiu que eles tinham um problema
e o problema era um homem chamado Nkrumah então eles
mataram ele e antes dele teve Patrice Lumumba
e antes dele teve meu pai no campus
da universidade de elite que eu fazia e meu pai com medo
de entrar no refeitório porque ele disse que ele
estava errado a idade errada a pele errada a identidade
de gênero errada e ele estava pagando minhas mensalidades e
antes disso
era meu pai quem dizia que eu estava errada que
eu devia ter nascido menino porque ele queria um/ um
menino e que eu devia ter a pele mais clara
e que eu devia ter um cabelo mais liso e que
eu não devia ser tão paqueradora e em vez disso eu devia
ser apenas/ um menino e antes disso
era minha mãe sugerindo cirurgia plástica pro
meu nariz e aparelho pros meus dentes e me dizendo
pra deixar esses livros pra lá para deixá-los pra lá em outras
palavras
Eu estou muito ciente dos problemas do Serviço Secreto Americano
e dos problemas da África do Sul e dos problemas
das empresas petroleiras e os problemas da América
branca em geral e os problemas dos professores
e dos religiosos e da polícia e dos assistentes
sociais e em particular de Mamãe e de Papai/ eu estou muito
ciente dos problemas porque esses problemas
tornam-se
eu
Eu sou a história do estupro
Eu sou a história da rejeição de quem eu sou
Eu sou a história do aterrorizante encarceramento da
minha pessoa
Eu sou a história de ameaças espancamentos e infinitos
exércitos que são contra qualquer coisa que eu queira fazer com minha mente
e meu corpo e minha alma e
quer isso seja sobre andar de noite
ou sobre o amor que eu sinto ou
sobre a santidade da minha vagina ou
a santidade das minhas fronteiras nacionais
ou a santidade dos meus líderes ou a santidade
de cada um dos meus desejos
que eu conheço por causa do meu particular idiossincrático
inquestionavelmente solteiro e extraordinário coração
Eu fui estuprada
por-
que eu tenho tido o gênero errado a idade errada
a pele errada o nariz errado o cabelo errado a
necessidade errada o sonho errado a geografia errada
a roupa errada eu
Eu tenho sido o que estupro significa
Eu tenho sido o problema que todo mundo tenta
eliminar por penetração
forçada com ou sem evidência de secreção mas/
que esse poema seja inconfundível
ele não é consentimento – eu não dou consentimento
a minha mãe a meu pai aos meus professores
à polícia à África do Sul à periferia
ao bairro rico à empresa aérea aos vagabundos
com pau-duro nas esquinas aos tarados espiando de dentro dos
carros
Eu não estou errada: Errada não é meu nome
Meu nome é meu meu meu
e eu não posso te dizer quem fez as coisas assim nessa porra
mas eu posso te dizer que de agora em diante minha resistência
minha simples, diurna e noturna autodeterminação
pode muito bem custar a sua vida.