capa 187A escrita é a vida

O impossível como ponto de partida da escrita de Marguerite Duras, autora francesa que será republicada no Brasil; como Tati Quebra Barraco construiu uma poética que subverte relações de dominação; o sociólogo Richard Miskolci discute a relação entre redes sociais e levantes conservadores no Brasil; uma discussão sobre Machado de Assis e sua formação em país pós-colonial.

Marguerite Duras em conversa no "Apostrophes", em 1984 (legendas em francês)

card ebook mensal SETEMBRO.21

José Castello

Everardo Norões

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Abaixo, um conto inédito de Caio Fernando Abreu (1948-1996), no qual ele inventaria – de forma bem humorada – os "tipos de gays" da sua época. A narrativa foi publicada no volume Contos completos, uma edição com toda obra curta do autor e posfácios pensando sua produção. 

 

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As quatro irmãs (uma antropologia fake)

 


Para Ivan Mattos,
Marco Antonio Lacerda
e Nelson Pujol Yamamoto

 

Reza não muito antiga lenda que homossexuais masculinos de qualquer idade ou nação — além de bofe, bicha, tia ou denominações similares — dividem-se em quatro grupos distintos. Seriam na verdade, e sempre segundo a lenda, quatro irmãos que atendem por nomes femininos. A saber, e essa ordem arbitrária não implica cronologia nem preferência: Jacira, Telma, Irma e Irene.

Para começo de conversa, vamos à mais popular delas: a JACIRA. Suficientemente conhecida, seja pelo personagem Jacir (que no romance Onde andará Dulce Veiga?, de minha autoria, em dias de arco-íris recebe uma Oxumaré de frente e transforma-se na devastadora Jacira) ou pelos louváveis esforços do jornalista Eduardo Logullo em divulgá-la através da coluna Joyce Pascowitch, na Folha de S.Paulo. Das quatro irmãs, Jacira é aquela que todo mundo sabe que é homossexual, e ela mesma — que refere-se a si própria, seja qual for seu nome, sempre no feminino — acha ótimo ser. A Jacira usa roupas e cores chamativas, fala alto em público, geralmente anda em grupos de amigas também jaciras como ela, todas exercendo o velho hábito de “fechar”. É uma pintosa — como diria Antonio Bivar. Uma pintosa assumida, despudorada. Sempre foi bicha, adora ser bicha e, maniqueísta como ela só, continua achando que a humanidade divide-se entre bofes e bichas, categoria esta na qual se inclui. Com orgulho. Superinformada, embora não leia muito, a Jacira sempre sabe — de orelhada — tudo que está em cartaz na cidade. Fofocas de televisão são seu forte, principalmente aquelas que insinuam viperinas dubiedades sobre a sexualidade alheia. Ao entrar em qualquer ambiente, uma Jacira sempre é imediatamente notada. O que satisfaz seu principal objetivo na vida: aparecer.

>> A evolução da escrita de Caio Fernando: uma resenha de Contos completos, por Ramon Ramos

Bem menos luminosa e sem graça que a Jacira é: a TELMA. Seu nome provavelmente originou-se daquela versão que Ney Matogrosso cantava: Telma, eu não sou gay/ que falam de mim são maldades, algo assim. A Telma, ao contrário da Jacira, é infelicíssima. Ela bebe. Bebe para esquecer que poderia ser homossexual. O problema é que, exatamente quando bebe, mais exatamente ainda depois do terceiro ou quarto uísque, é que a Telma transforma-se em homossexual. Embriagada, Telma ataca. E dramaticamente, na manhã seguinte nunca lembra de nada. Embora tenha, digamos, caído em tentação muitas vezes, tantas quantas bebeu (ao beber, Telmas ficam muito erotizadas), ela sempre nega que é, e negará até a morte. A única solução para uma Telma empedernida seria a psicanálise (que ela, a mais doente, acha que não precisa) ou parar de beber. O que significaria, por tabela, também parar de trepar. Pobres Telmas — categoria da qual países como o Brasil (vide academias de musculação, futebol, chopadas com o pessoal da repartição etc.) está cheio.

Menos trágica, mas mais complexa, é a terceira irmã: a IRMA. As Irmas não são exatamente infelizes — pelo menos, não tanto quanto as Telmas —, embora bem menos felizes que as Jaciras — que aparentam ser ou realmente são felicíssimas. Irma é toda aquela que todo mundo jura que é, incluindo a mãe, a irmã e a esposa (Irmas casam muito) — mas ela não sabe que é. Não sabe ou finge que não. A Irma dá pinta, quase como a Jacira, adora todo o folclore gay, de Carmen Miranda a show de travesti, passando por Mae West, James Dean e Marilyn Monroe. Estranhamente, não “faz”. Quando solteiras, ninguém de sexo algum poderá afirmar — muito menos provar — que já fez sexo com uma Irma. Ou se fez, não prestou muito. Quando casadas, nem sempre suas esposas (frequentemente modelo “homem da casa”) exibem ar muito satisfeito. Sexualmente satisfeito. Irmas costumam ser afáveis — ao contrário das problemáticas Telmas, introvertidas e depressivas. Adoram Jaciras, apesar destas gostarem de chamá-las, sobretudo em público e aos gritos, de “queridas”. É que toda Jacira sabe — ou supõe — que no fundo toda Irma é tão Jacira quanto ela. Mas como as Telmas, Irmas fogem de definições. E ao contrário das Telmas, muito pecadoras, podem até morrer sem se atreverem a provar dos prazeres do — para citar uma Jacira clássica — amor que não ousa dizer seu próprio etc.

Inicialmente limitada a essas três, a lenda recentemente incluiu a existência de uma quarta irmã: a IRENE. Tão assumida quanto a Jacira, ao contrário desta, a Irene não dá pinta. Ela é, sabe que é, mas não exibe nem constrange. Pode até usar brinquinho na orelha, dar alguma rabanada menos comedida, ou mesmo — de brincadeira — referir-se a si mesma ou a alguma amiga no feminino. Mas a Irene é tranquila. Geralmente analisada, culta, bom nível social, numa palavra — Irene parece serena em relação à própria sexualidade. Que é diversificada. Podem ter longos casos, morar junto, ou vivenciarem certas idiossincrasias eróticas. Só gostar de working class, por exemplo, ou de adolescentes, choferes de táxi ou estudantes de física. Ou de Irenes como elas: são as Irenes lésbicas. Telmas e Irmas escondem tudo da família, dos vizinhos e colegas, embora a Irma praticamente não tenha o que esconder. Jaciras não escondem nada, explicitérrimas. As Irenes deixam no ar: se alguém quiser perceber, que perceba. Educação é básico para elas. Serenamente educadas, pois, às vezes até casam. Com mulheres.

Entre as quatro, as relações desgraçadamente são turbulentas. Jaciras, por exemplo, adoram seduzir Telmas. Estas (quando sóbrias, claro) têm medo pânico de Jaciras. Irenes, por sua vez, nutrem grande carinho apiedado pelas desventuradas Telmas — e isso pode até resultar numa ardente noite de paixão entre ambas. Da qual naturalmente a Telma jamais lembrará, embora tenha feito horrores. O grande risco que toda Irene corre é apaixonar-se por uma Telma: comerá o pão que o diabo amassou, até entrar noutra. Com a Irma, de quem Irene também gosta, o risco não é tão grave: Irenes sabem que com Irma não rola. E pode assim transformar tudo numa aparentemente saudável “amizade viril”: as duas fingindo, para usar a terminologia antiga, que são bofes. Há quem creia.

Jaciras não simpatizam muito com Irenes, acham-nas “metidas”. A recíproca também é verdadeira: Irenes acham Jaciras pintosas demais, embora divertidas, folclóricas. E inconvenientes. E com a imperdoável mania de roubar namorados alheios. Irenes adoram namorar, pegar na mão, ir ao cinema, comer pizza, fim de semana em Ilhabela, ver TV — tudo isso together. Já Telmas e Irmas, entre si, são confusíssimas. Talvez uma tema o julgamento da outra, vai saber. Irmas, no entanto, às vezes podem ceder aos insistentes encantos das Jaciras. Existem mesmo certas Irmas que algumas Jaciras — para ódio das Irenes — juram já ter feito. Jaciras, por sua vez, não raramente invejam Irenes, que sempre aparentam certa prosperidade (ao contrário das Telmas, com cotê decadente). Irenes mais neuróticas gostariam, de vez em quando, de serem confundidas com Irmas. E Telmas costumam sentir cegos, súbitos impulsos de desvendar suas almas abissais para os ouvidos compreensivos das Irenes. Na verdade, no fundo Telmas, Irenes e Jaciras invejam um pouco aquela impressão (nem sempre verdadeira) de pureza que toda boa Irma passa. Assim como se estivesse fora de qualquer grupo de risco. A propósito, já que abordamos este tema desagradável, embora aparentem ser as mais perigosas, no que se refere a riscos, e apesar de promíscuas (a promiscuidade está implícita na jacirice), Jaciras cuidam-se muito. Camisinhas nacionais, infelizmente, daquelas que arrebentam na hora H. Irenes sempre carregam na frasqueira um sortido estoque de poderosas camisinhas que trouxeram de suas viagens, e com a idade tornam-se um tanto maníacas com a higiene, meio obcecadas com safe sex. Certas Irenes não fazem há anos, vivem em permanente estado de nervos. Já as Irmas, como não fazem, ou quando fazem, é tão escondido que não se sabe, não se preocupam com isso. O problema, novamente, são as Telmas. Impulsivas e atormentadas, nunca estão prevenidas. E jamais podem prever quando passarão do quarto uísque ou da décima quinta cerveja, números fatais para uma Telma. Portanto, não carregam camisinhas. Nem sequer as têm no banheiro. Tamanha a negação. Enlouquecidas numa cama (uma Telma desejosa vale por cem Jaciras), Telmas fazem coisas que Madonna (ídolo das Jaciras) duvidaria. Esta representa outra secreta tortura mental das Telmas: como às vezes realmente não lembram do que fizeram (por lapso etílico), têm sempre o rabo preso e um medonho medo de serem positivas.

Irmas são sempre negativas. Ou aparentam. Acontecem surpresas, pois ser Irma não significa necessariamente ser casta. Irenes normalmente lidam bem com um teste positivo: espiritualizam-se, viram vegetarianas, fazem ioga, procuram o Santo Daime ou Thomas Green Morton. Leem muito Louise Hay. Jaciras muitas vezes negam-se a fazer O Teste: têm uma certeza irracional (ou não) de que daria positivo. O que nem sempre é verdade, visto que nada mais forte que santo de Jacira.

Vírus e seus desprazeres à parte, na verdade a aids não mudou muito o comportamento das quatro. Elas são arquetípicas, atávicas, eternas. Freud, por exemplo, cá entre nós, era Irmésima. Já Platão parece ter sido uma boa Irene. Mas ninguém colocaria em dúvida a jacirice de Oscar Wilde. Rimbaud, por sua vez, dá a impressão de ter começado como Jacira (quando chegou a Paris) para transformar-se — o que é raro — em Telma (na Abissínia). Clássicas ou modernas, elas não devem ser criticadas por isso. À sua maneira, cada uma busca essa coisa — como diria Leda Nagle —, o amor, a Ancestral Sede Antropológica. O que pode acontecer (vide Rimbaud) são transmutações: Irenes que se ajaciram; Irmas (com tendências etílicas) que viram Telmas; Telmas que — bem comidas — se irenizam ou até ajaciram etc. Há quem diga que essas novas identidades têm até nome, como as Juremas (Jaciras que se tornam Irenes).

Eu duvido. Jaciras são inabaláveis, intransformáveis. Jacira que é Jacira com maiúscula nasce Jacira, vive Jacira, morre Jacira. No fundo, achando o tempo todo que Telmas, Irmas e Irenes não passam de Jaciras tão loucas quanto elas.

Talvez tenham razão.

 

Caio Fernando Abreu
São Paulo, agosto de 1991