capa 187A escrita é a vida

O impossível como ponto de partida da escrita de Marguerite Duras, autora francesa que será republicada no Brasil; como Tati Quebra Barraco construiu uma poética que subverte relações de dominação; o sociólogo Richard Miskolci discute a relação entre redes sociais e levantes conservadores no Brasil; uma discussão sobre Machado de Assis e sua formação em país pós-colonial.

Marguerite Duras em conversa no "Apostrophes", em 1984 (legendas em francês)

card ebook mensal SETEMBRO.21

José Castello

Everardo Norões

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Ineditos2.jul18 HanaLuzia

 

Abaixo, um trecho do livro Caminhando contra o vento, da escritora italiana Igiaba Scego, que participa da Flip 2018. A obra é lançada pela editora Nós neste mês e nela a autora faz um ensaio-depoimento para homenagear o cantor e compositor Caetano Veloso.

 

***

 

Ainda hoje a bossa nova encanta.

Ouvir João Gilberto é uma experiência mística. Pelo menos para mim.

Caetano Veloso se depara com a música de João Gilberto em 1959. Um amigo o levou para ouvir num dia em que andavam ao léu, e ele, Caetano, ficou enfeitiçado. Nada do que ele conhecia podia prepará-lo para tanta modernidade, e cabe ressaltar que o adolescente de Santo Amaro chafurdava na modernidade. Sentia-se atraído de forma intensa e inexorável. Era um chamado que ele sentiu em suas vísceras, o moderno atravessando seus ossos como uma rodovia. Amava a pintura abstrata que lhe parecia magnífica pois era como a música, não significava nada e ao mesmo tempo significava tudo. Amava o cinema de Godard e a Nouvelle Vague. Fellini e Antonioni o fascinavam com seus giros de câmera. E depois, em 1964, com o golpe militar, chegaram também as primeiras ações contrarrevolucionárias. Isso também é modernidade. Penso na loucura de uma revista como Pif-Paf, do Millôr Fernandes, que, com as suas cores psicodélicas e seu jornalismo engajado tornou-se uma referência para os jovens brasileiros politizados. Durou somente oito edições, apenas quatro meses, mas foi como um relâmpago num deserto de conformismo. É claro que Caetano Veloso não perdeu nenhum número da Pif-Paf. Como aquela revista, ele também estava em ebulição. Estava aturdido com toda aquela novidade que girava como uma galáxia enlouquecida ao seu redor. Tudo o confundia.

Um dia sonhava em pintar e no outro em fazer um filme. Entretanto, continuava cantando os seus sambas com a tia (quando os pais o mandaram para o Rio devido à sua saúde frágil e às péssimas notas na escola), e não perdia nenhuma apresentação no auditório da Rádio Nacional. Ali, viu de perto Nora Ney, Cauby Peixoto, Ângela Maria e a bela e sensualíssima Marlene, e adorava aquela música que havia se tornado algo tão familiar para ele. Porém, quando chegou João Gilberto, tudo aquilo que se agitava em seu peito de jovem desassossegado começou a fazer sentido, a girar na direção certa. Pode-se dizer que Caetano Veloso nasceu pela segunda vez em 1959, diretamente da cabeça de João Gilberto, mais ou menos como Minerva nasce da cabeça de Zeus.

João Gilberto é preciso, mas sabe também que a música é imprecisa, desordenada, rebelde, anarquista. E desnuda-se da sua precisão para correr atrás daquela musa desobediente, que desafine, como diz em Desafinado:

 

É que os desafinados também têm um coração.

 

Caetano aprende a desafinar no ritmo da bossa nova. Começa a misturar os antigos sambas da sua mãe com o estilo trazido por João Gilberto.

Ainda hoje ele é sua referência. É sempre aquela fonte da qual ele bebe para ser realmente ele mesmo, realmente moderno, realmente Caetano Veloso. Sempre pode aprender algo com ele. João Gilberto é o seu pai musical e o seu mestre supremo. É o seu passado e o seu futuro. Sem aquele encontro em 1959, talvez não houvesse Caetano Veloso algum hoje em dia.

Tampouco haveria Caetano Veloso algum sem Gilberto Gil.

Gilberto Gil e Caetano Veloso são como John Lennon e Paul McCartney, mas menos desgastados, mais amigos, mais cúmplices. Sua amizade completou quase meio século da mesma forma que suas carreiras. Para entender o quão profundas são as raízes dessa camaradagem, basta olhar os milhares de vídeos de suas apresentações no YouTube, ou simplesmente vê-los se moverem pelo palco. A amizade e a admiração se escondem nos olhares divertidos, naquele conhecer-se de cor, no antecipar-se continuamente, na risada contagiosa. Querem-se bem. Humanamente e musicalmente. Fundem-se e confundem-se, permanecendo sempre o que são.

Caetano Veloso amava loucamente Gilberto Gil, mesmo antes de conhecê-lo. Ainda garoto, aprendera de cor o velho samba Serenata em teleco-teco, um dos sambas em que o ritmo é ditado pelo violão numa eterna corrida contra si mesmo. Gilberto Gil tinha um toque mágico, a um só tempo angelical e infernal. E fazia dançar, ah, como ele fazia dançar. É impossível resistir ao seu ritmo, que chega até os ossos e faz remexer como um terremoto. Eu, por exemplo, quando estou me sentindo para baixo, ouço Expresso 2222 e a tristeza se joga pela janela, frustrada, por não conseguir se apossar de mim. Gilberto Gil traz em si a força luminosa do otimismo e da força de vontade. Ele não conta mentiras, não afirma que o mundo irá te salvar, mas pouco afirma que a vida acabou. Seu violão maluco sempre oferece uma possibilidade, uma oportunidade, uma esperança. Gilberto Gil te faz acreditar no mundo.

No Brasil, a anedota é famosa, tanto que, anos depois, Daniela Mercury até fez uma música sobre isso. Caetano Veloso já amava o ritmo de tamborim do Gil. Já tinha ouvido ele no rádio, no ubíquo rádio. Bastaram poucas notas para que Gil se tornasse seu novo herói. Depois, um dia, Dona Canô o viu na televisão e começou a gritar: “Caetano, venha ver aquele preto que você gosta!” Os dois se encontrariam em breve. Um encontro estranho, em Salvador, em plena rua. Alguém os apresenta.
No começo, Veloso se sente intimidado por Gil, parece-lhe impossível que seu mito do violão estivesse assim, a dois passos dele. Conversa em voz baixa, quase incrédulo. O ano é 1963, nenhum dos dois sabe o que vão fazer a seguir. São apenas duas pessoas que compartilham o mesmo demônio. E é a partir desse ano que Caetano Veloso começa a aprender a tocar violão. No início, não sabia absolutamente nada. Com alguns acordes de base, arranhava algo aqui e ali, mas pouca coisa. Depois, porém, Caetano canibaliza Gil com os olhos e, observando-o, aprende, aprende, aprende e, no final, torna-se realmente bom.

Naquele ano, Caetano Veloso encontra, também, Gal Costa, a voz para quem irá escrever muitas músicas.

Uma camaradagem diferente da que tinha com Gilberto Gil, mas tão potente quanto aquela. É Dedé Gadelha, futura primeira mulher de Caetano, que os apresenta. Há uma faísca musical fortíssima entre os dois. Caetano encontra naquela mulher uma amiga e, principalmente, uma companheira musical das mais precisas e atentas.
Salvador não era o centro do mundo. Não era o centro nem mesmo do Brasil. A cultura acontecia no Rio e em São Paulo.

Geograficamente, Salvador encontra-se no norte. Uma das áreas mais pobres daquele país-mundo, mas também um dos lugares com a maior tensão criativa. A Bahia foi o último estado a se unir à federação brasileira, e o estado com a mais forte matriz africana, devido à antiga rota dos escravos. Nota-se isso na cultura sincrética que ainda hoje permeia o território. Vê-se isso no candomblé, nas roupas tradicionais das mulheres e nos traços de urbanística que não deixam dúvidas. Um território negro e mestiço no qual — ensina-nos Jorge Amado — há uma forte imigração da Síria e do Líbano, um fenômeno que foi presente nessas terras entre os séculos XIX e XX. Na Bahia, a música nasce dessa mistura entre culturas distintas, nasce desse mesclar-se continuamente.

>> Odara nos ensina a viver entre monstros: um artigo de Fred Coelho

Ao contrário do que ocorre hoje nas periferias do mundo, a Bahia, e principalmente a sua capital, Salvador, nunca estiveram à margem das coisas. Em Salvador, podia-se encontrar o melhor da cultura brasileira produzida naquela época. Assim, Caetano Veloso, com sua irmã Bethânia, com Gil e Gal Costa, podiam usufruir de tudo que o mundo tinha para lhes oferecer.

Refletindo sobre a Bahia dos anos 1960, meu pensamento viaja até Primavalle, o bairro de Roma em que me criei. Eu e minha família fomos um pouco nômades. Não encontramos de imediato uma boa colocação na capital. Os meus pais vinham de outro país e também de outra classe. Na Somália, desfrutavam de uma boa condição, mas chegaram à Itália como refugiados, tendo perdido tudo num piscar de olhos. Em Roma, tiveram que criar novamente uma vida como subproletários, refugiados, pessoas carentes de tudo. Por onde começar? Em que bairro?

Atravessaram muitas dificuldades: do fascismo à Balduina [nota 1], passando por uma casa úmida em Trionfale, depois, finalmente, pela periferia de Primavalle, em uma casa digna e com vizinhos muito simpáticos. Numa certa época, Primavalle provocava medo em Roma. Era o bairro da criminalidade, o bairro da pobreza absoluta. Roma ainda não sabia que, aos poucos, aquele bairro tentava se transformar em algo diferente. E se transformou com os pouquíssimos locais públicos de cultura, como a Biblioteca Franco Basaglia na Rua Federico Borromeo, por exemplo. Mas por que estou falando de Primavalle num livro sobre Caetano Veloso? Porque na Bahia, da mesma forma que em Primavalle, são os pontos de civilização em meio aos lugares mais carentes e bagunçados que fazem toda a diferença, que podem oferecer alguma possibilidade. Primavalle salvou minha vida. Graças àquela biblioteca, respirei o ar do mundo, viajei por tantos países, projetei centenas de aventuras, vivi mil vidas. Santo Amaro, depois Salvador, foram para Caetano Veloso algo um pouco parecido. Lá, ele respirava o mundo. Como naquela noite quando, ainda adolescente, viu La Strada de Fellini e se trancou em seu quarto sem comer. Zampanó interpretado por Anthony Quinn tinha atingido o seu coração, aquele homem que jamais olhava para o céu, salvo na cena final. Tudo para ele se fazia sentimento. Ser Fellini era um sentimento. Ser Godard era um sentimento. Também Gilberto Gil era um sentimento. Sem entender aquela efervescência cultural e política, aqueles pontos de cultura numa terra difícil e periférica como a Bahia, não poderíamos de fato colher aquilo que movia Caetano Veloso.

A Bahia mistura mistura tudo, esse é o seu apanágio. E quem é de lá sabe como viver como equilibrista sobre a arquitetura de um mundo em dissolução.

Pois o mundo em que cresceram Caetano Veloso, sua irmã Maria Bethânia e os amigos Gilberto Gil e Gal Costa era um mundo que estava acabando.

Tinham celebrado sua forma de estar — e fazer — juntos num espetáculo, o primeiro de muitos, em quarteto (que anos depois se chamará Doces bárbaros) ao qual irão se juntar Tom Zé e Os Mutantes. Sobem ao palco com um espetáculo intitulado Nós, por exemplo, no qual o próprio Caetano Veloso será autor, diretor e apresentador de um show em que cada um, mas principalmente ele, queria que tudo saísse de forma esplêndida.

 

NOTAS

[nota 1]: Balduina é uma área urbana do município de Roma pertencente ao bairro Trionfale. Está situada no lado sul de Monte Mario e, com os seus 139 metros de altura, é o ponto mais alto de Roma.