capa 187A escrita é a vida

O impossível como ponto de partida da escrita de Marguerite Duras, autora francesa que será republicada no Brasil; como Tati Quebra Barraco construiu uma poética que subverte relações de dominação; o sociólogo Richard Miskolci discute a relação entre redes sociais e levantes conservadores no Brasil; uma discussão sobre Machado de Assis e sua formação em país pós-colonial.

Marguerite Duras em conversa no "Apostrophes", em 1984 (legendas em francês)

card ebook mensal SETEMBRO.21

José Castello

Everardo Norões

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Ramon Nunes Mello divulgacao site

 

 

O escritor Ramon Nunes Mello (foto) reuniu 96 poetas brasileiros, de várias gerações, para um livro em que a temática do HIV/Aids atravessa e sustenta os textos. Lançado pela editora Bazar do Tempo, com arte de Leonilson na capa, Tente entender o que tento dizer traz nomes como o imortal da ABL Antonio Carlos Secchin e a escritora e ativista trans Amara Moira. E são justamente desses dois que selecionamos os seguintes poemas:


Pela décima vez
(Amara Moira)

Confia em mim, sou casado,
doador de sangue e, por deus,
primeira trava com que eu
saio é você, olha o estado
em que ele fica, babado:
te dou mais dez, nem assim?
Você tem cara que fez
teste, o meu deu nem um mês;
aliança e tudo, eu sou, sim,
casado, ó, confia em mim.

 

***

 

Noite na taverna
(Antonio Carlos Secchin)

1
Senta uma puta perto da taça.
Arde uma tocha acima da mesa.
Salta uma estrofe em cima da coxa.
Nasce um poema a toque de caixa.
Fora, uma virgem dorme na lousa.
Ri-se o poeta em torno da brasa.
A mão do poeta passeia na moça.
O seio da moça é uma pétala gasta.

2
Crepúsculo, vinho, hemorragia:
vai vermelha a voz da poesia.
A vida só vale o intervalo
entre início e meio de um cigarro.
Traga, taverneira, algo bem ríspido,
afogue em rum qualquer sonho nosso.
Brindemos ao que esconde o futuro:
metáforas, Aids e ossos.