capa 187A escrita é a vida

O impossível como ponto de partida da escrita de Marguerite Duras, autora francesa que será republicada no Brasil; como Tati Quebra Barraco construiu uma poética que subverte relações de dominação; o sociólogo Richard Miskolci discute a relação entre redes sociais e levantes conservadores no Brasil; uma discussão sobre Machado de Assis e sua formação em país pós-colonial.

Marguerite Duras em conversa no "Apostrophes", em 1984 (legendas em francês)

card ebook mensal SETEMBRO.21

José Castello

Everardo Norões

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Hilda1 A

 

 

É o próprio organizador de Nuvens, o escritor Ricardo Domeneck, que avisa: Hilda Machado (1952-2007) é sua Cesárea Tinajero, referência à mítica poética mexicana que guia a investigação de Detetives selvagens, de Roberto Bolaño. Também um detetive selvagem, Domeneck foi vitimado por uma obsessão após a leitura de um único poema de Hilda, publicado numa edição de 2004 da Inimigo Rumor. Não sabia quem era aquela mulher, se era uma poeta regular (nem a própria família de Hilda sabia que ela escrevia) ou se havia outros textos tão fortes como o poema Miscasting, que o vitimou.

Após o suicídio da autora, Domeneck colocou na cabeça que precisava publicar um livro seu. Descobriu esse  Nuvens registrado na Biblioteca Nacional em 1997. E descobriu também uma obra poética desconcertante, triste na sua lírica ironia masoquista e isolada diante da produção literária ao seu redor. O escritor tornou-se o detetive selvagem que descobriu o planeta Hilda Machado.

O pré-lançamento de Nuvens acontece neste sábado (10/03) em São Paulo, às 14h30, com leitura do poeta Ismar Tirelli Neto, na Desvairada – Feira de Poesia, em São Paulo. Abaixo, três poemas do livro.

 

***

Um homem no chão da minha sala

Um homem no chão da minha sala
alonga sua raiz
galo que estufa o pescoço
cana-de-açúcar e bronze
poças, chuva, telha-vã
rio que escorre na velha taça empoeirada

O homem no chão da minha sala
cidades de ouro
castelos de mel
velhas metáforas
sinos línguas gelatina
O céu no chão da minha sala

Esse homem no chão da minha sala
provoca o veneno da cobra
pulgas atrás das orelhas
mexeu nos meus bibelôs
consertou aquela estante
revirou a roupa suja
desenterrou flores secas
fraldas
chifres
quatro cascas de ferida
um disco todo arranhado
e um punhado de pelos

Aquele homem no chão daquela sala
me fez cruzar o ribeirão dos mudos
estufa de tinhorões gigantes
no piso do meu mármore
ele acordou a doida
as quatro damas do baralho
uma ninfeta de barro
e a cadela do vizinho

Daquele homem no chão da minha sala
há meses não tenho notícia
desde que virei a cara
saltei janela
fugi sem freio ladeira abaixo
perdi o bonde
estraguei tudo

 

 


Impossibilidades

Viver suspensa nas nuvens
pôr nas nuvens o meu amor
e nunca mais cair das nuvens

 

 


Sagitariana

“Qui trop embrasse,
mal étreint.”

 

Parar
de fazer mil coisas ao mesmo tempo
de bater de encontro às coisas
de encontrar elefantes dentro das lojas

Sou de porcelana