capa 187A escrita é a vida

O impossível como ponto de partida da escrita de Marguerite Duras, autora francesa que será republicada no Brasil; como Tati Quebra Barraco construiu uma poética que subverte relações de dominação; o sociólogo Richard Miskolci discute a relação entre redes sociais e levantes conservadores no Brasil; uma discussão sobre Machado de Assis e sua formação em país pós-colonial.

Marguerite Duras em conversa no "Apostrophes", em 1984 (legendas em francês)

card ebook mensal SETEMBRO.21

José Castello

Everardo Norões

SFbBox by casino froutakia

Teresa Pereira inedito fev18

 

Abaixo, um trecho inédito de Karen, de Ana Teresa Pereira (foto), que será lançado em breve pela editora Todavia. O romance foi vencedor da última edição do prêmio Oceanos. 

 

***

Não deixei o quarto o resto do dia. Embora sentisse que nada ali me podia reconfortar. O medo não vinha da chuva, da casa onde só entrara umas semanas antes, nem sequer da vereda íngreme para a cascata ou da rua abandonada junto ao mar onde me via a fugir de alguém num pesadelo. Embora essas coisas estivessem entranhadas em mim, este medo era ainda mais fundo. Sentia medo da minha mão bem cuidada, do verniz que começava a descascar e que Emily certamente irá repor no dia seguinte. Medo do meu cabelo que o champô de boa marca tinha transformado, dando-lhe um brilho novo, medo do roupão azul que vestia e tinha um monograma na algibeira do peito.

Pensei na entrada da minha casa em Londres, os degraus que levavam à porta, os arbustos que cresciam ao lado, não me lembrava de os ter visto em flor. O vestíbulo e as escadas eram vagos, como se estivessem sempre às escuras. A porta do estúdio, um vaso com uma planta. A janela entreaberta que dava para os telhados. A janela onde tinha os vasos com gerânios, que trazia para a cozinha quando o tempo estava mau. O meu gato a dormir na cadeira de vime de que mais gostava. O fim da tarde a ouvir música, a ler poemas, gosto de ficção em geral, de romances de cordel, gosto de poucos poetas, mas desses gosto apaixonadamente. E depois o momento em que parava em frente do cavalete, ou me inclinava sobre a mesa, e uma coisa que sentira profundamente, que pensara profundamente, começava a tornar-se visível. As minhas mãos e os meus braços sujos. O cheiro a tinta de óleo que não desaparecia ainda que deixasse as janelas abertas. Havia angústia naquele processo mas também, quando conseguia afastar-me do caminho, algo que se assemelhava a um estado de graça, como a bênção numa igreja. Eu era religiosa no que dizia respeito às minhas pinturas. Compreendia porque Fra Angelico precisava de rezar antes de começar o seu trabalho, eu também rezava, à minha maneira, às vezes até da maneira convencional.

Deitei-me cedo, com um livro, e fiquei à espera da habitual pancada na porta. Pelas onze horas, quando eles se fossem deitar.

Já não pensava nos quadros, mas nos beijos dele. No regresso ao automóvel, debaixo da chuva. O Sam a abanar a cauda e a sacudir-se e a molhar tudo à sua volta. Ele comentara, como se não tivesse importância:

— Sabes que beijas muito melhor?

— Eu não sabia beijar?

— Não.

— E não me ensinaste?

— Sempre gostei dos teus beijos desajeitados.

Quando bateram à porta, endireitei-me na cama. Foi ele que entrou e isso não me surpreendeu.

Estendeu-me a chávena de cacau e começou a mordisca um biscoito.

— Não são para mim?

— Emily não me deixa comer mais de dois ou três. E manda-me embora se me apanha na despensa.

— Nunca fez isso comigo.

— Não.

— Porquê?

— Sempre te tratámos como uma princesa.

O pequeno-almoço na cama, o vaso de rosas de outono. Só havia rosas no meu quarto e na biblioteca. As da biblioteca eram mais pesadas, com um perfume mais pesado, não tinham a leveza das pequeninas, talvez de uma trepadeira, que estavam na minha cómoda. Ele sentou-se na cama e deu-me um biscoito, como se fizesse um favor.

— Deviam adorar-te...

— Quem?

— Não sei. A cozinheira, as empregadas da casa, quando eras menino.

— Sim, nessa altura ainda havia empregados.

— Emily não o é.

— Não. De forma alguma.

Mas ela também o adorava. Um sentimento um pouco maternal, talvez, embora não devessem ter nem dez anos de diferença.

— O que fazia ela antes de vir para aqui?

— Era casada com o dono de uma estalagem à beira-mar. Casou muito jovem.

— A sério?

— Tinhas esquecido?

— Creio... que sim.

— Quando o marido morreu tinham dívidas e ela vendeu a estalagem e ficou com pouco dinheiro. Foi então que a minha mãe a convidou para trabalhar aqui.

— Conheciam-se?

— A minha mãe tinha passado alguns verões na estalagem.

Tudo tão familiar, tão romance do princípio do século XX. Deviam tomar chá as duas todas as tardes, e ler novelas românticas.

— Ela devia ser bem bonita.

— Ainda é.

— Sim.

Estendi-lhe a chávena de cacau que ele pôs no prato onde já não havia biscoitos. Pousou-os na cómoda e quando voltou sentou-se mais perto de mim.

— Não é justo.

— O quê?

— Não dormir no meu quarto.

Esbocei um sorriso.

— O outro não é agradável?

— Estás a brincar? Aquela ala da casa é gelada.

— Ainda mais do que esta?

— Não imaginas.

— Queres voltar para o calor da tua cama.

— Quero.

— E o que fazes comigo?

— O que tu quiseres.

Roçou com os dedos a cicatriz na minha testa.

— Deves ser a única mulher a quem uma cicatriz torna ainda mais bonita.

— Achas?

Inclinou-se para beijar-me.

— Não teremos tanto frio se estivermos juntos.

— Não. Suponho que não.

— Sinto a falta do teu corpo. Terrivelmente.

— Emily disse... que não sabia se tu me amavas.

— Ela disse isso?

— Disse que era impossível saber o que sentias de facto.

— É estranho. Eu sempre achei que ela lia em mim como num livro aberto.

Levantou-se.

— Até logo.

Dei por mim a dizer a mais simples das orações, por favor, faz com que ele volte, por favor, faz com que ele volte.

Ele voltou daí a quase uma hora.

Quando acordei na manhã seguinte, já não estava na cama. Mas em breve ouvi os sons habituais, ele a assobiar, o Sam a latir, Emily a dizer qualquer coisa de uma janela.

Levantei-me e fui à janela. Naquele dia ele pareceu sentir a minha presença. Voltou-se para trás e acenou-me.

Retribuí com um pequeno gesto. Estava um dia bonito, azul e sol.

E eu estava apaixonada pela primeira vez. Nunca vira alguém tão apaixonado na minha vida.