capa 187A escrita é a vida

O impossível como ponto de partida da escrita de Marguerite Duras, autora francesa que será republicada no Brasil; como Tati Quebra Barraco construiu uma poética que subverte relações de dominação; o sociólogo Richard Miskolci discute a relação entre redes sociais e levantes conservadores no Brasil; uma discussão sobre Machado de Assis e sua formação em país pós-colonial.

Marguerite Duras em conversa no "Apostrophes", em 1984 (legendas em francês)

card ebook mensal SETEMBRO.21

José Castello

Everardo Norões

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Joao Silverio Trevisan inedito set17

 

 

No inédito deste sábado, um pequeno trecho da obra Pai, pai, de João Silvério Trevisan, que será lançado pela Alfaguara no próximo dia 28. Trata-se de um livro de memórias do escritor sobre sua homossexualidade e a difícil relação com o pai. No excerto, o autor narra um episódio traumático da infância no interior de São Paulo, seu batismo político para a questão do que é "ser homem".

 

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MEU RIO JORDÃO

Na infância, sofri um incidente significativo do embate opressor ante a “mentalidade Trevisan”, e que implicou um dos meus primeiros gestos de reação interior. Foi tão aterrorizante que ficou soterrado durante boa parte da minha vida, e só o resgatei num dos últimos períodos de análise por que passei. Deixei-o reportado num dos meus contos, talvez mais de um. Eu teria entre 8 e 9 anos, quando fui convidado a pescar com meus tios e primos, no rio Jacaré Guaçu, um afluente do Tietê, próximo a Ribeirão Bonito. Eram águas caudalosas e piscosas. Como eu sempre adorei pescar, não pestanejei: fui, refreando certo temor endêmico de pisar fora do meu ambiente usual. Não tenho certeza se viajamos para lá de caminhão, mas vejo claramente a cena que se armou logo que chegamos à beira do rio. Lembro, relembro. Eu vestia um calção feito por minha mãe de pano de saco de farinha. Pelo clima de risadinhas e olhares de esguelha, farejei algum perigo. Não que fosse novidade. Com minha insegurança, eu farejava sempre, como maneira de ficar alerta e me precaver. Mas desta vez parecia uma armadilha, e não deu tempo de pensar em fugir. Fui agarrado pelo grupo e, sem mais, jogado no meio do rio Jacaré. Eu, que não sabia nadar, me debatia aterrorizado, engolindo água e tentando voltar para a margem. Só descobri o motivo da brincadeira quando entrevi o grupo, na margem, rindo e gritando que era para eu “aprender a ser homem”. Não sei quanto tempo durou aquilo que me pareceu uma agonia. Batendo os braços como podia, consegui alcançar a margem e me agarrei no mato ribeirinho para sair do rio, ao mesmo tempo que patinava com os pés na lama. Quando consegui me estabilizar para fora da correnteza, assustado e ofegante, o grupo ainda ria da brincadeira divertida com o menino maricas. Eu tossia, sem dizer nada, e nem poderia. Mesmo humilhado, dentro de mim cresceu um vagalhão de revolta incontida. Encarei aqueles homens que me escarneciam. Não senti medo, mas algo de repugnância. Na minha cabecinha transfigurada pelo desamparo e pela dor, emergiu uma iluminação desconhecida que extravasava a minha idade. Como uma chispa de consciência nova, intuí que eu perdera a batalha mas ia vencer a guerra. Uma sensação difusa subiu borbulhando e logo se configurou como precoce revelação para uma criança assombrada por fantasmas vivos. Então, pela primeira vez, percebi as diferenças e tive certeza: “Sou homem sim, mas não quero ser igual a vocês”. Apesar do céu não se abrir, nem o espírito de Deus surgir em forma de pomba para me chamar de “filho amado”, ali se configurou o meu rio Jordão. Aquele foi meu batismo, doloroso sim, mas bênção. Inadvertidamente, eu iniciava meu processo de ser outro, um homem, sem deixar de ser o mesmo filho de José, o cachaceiro.