capa 187A escrita é a vida

O impossível como ponto de partida da escrita de Marguerite Duras, autora francesa que será republicada no Brasil; como Tati Quebra Barraco construiu uma poética que subverte relações de dominação; o sociólogo Richard Miskolci discute a relação entre redes sociais e levantes conservadores no Brasil; uma discussão sobre Machado de Assis e sua formação em país pós-colonial.

Marguerite Duras em conversa no "Apostrophes", em 1984 (legendas em francês)

card ebook mensal SETEMBRO.21

José Castello

Everardo Norões

SFbBox by casino froutakia

Botao Vermelho mat.1 img2 FlavioPessoa

 

Começamos em setembro a publicar a série Botão Vermelho, uma parceria do Pernambuco com o Instituto Serrapilheira que une literatura e ciência para pensar novos mundos. Clique aqui e leia o editorial da série, escrito pela curadora e editora Carol Almeida.  

Neste texto, assinado pela escritora e pesquisadora Ana Rüsche, palavras em vermelho indicam informações científicas. Clique em cima delas para conhecer mais dados. 

 

***

 

Na Era do Fogo


A todo momento, o futuro divisa a fronteira com o presente. Assim, embora cobertores prateados fossem parte de futuros possíveis, eram insuficientes para proteger futuras gerações. Fazia frio no interior de um centro de detenção para crianças. Plinio, um garotinho com a franja escorrida lhe cobrindo os olhos escuros, amontoava-se com outras crianças, cheirando a um medo azedo. Não conseguia dormir, tinha um pouco de dor de barriga, mas os guardas somente iriam lhe dar papel higiênico se fosse pedir. Plinio mordia forte o lábio em silêncio.

Vindo da cintura das Américas, o garoto panamenho atravessara muitos mundos ao lado de sua jovem mãe, Rosa. No caminho, conheceram camaroneses, colombianos e haitianos que pagaram 40 dólares para enfrentar o inferno da Selva de Darién — o garoto logo imaginara a floresta imersa em chamas e, do fogo, saltam como chispas as rãs douradas venenosas das histórias da avó.

Depois de muitos contos e quilômetros, Rosa e o filho conseguiram enfim cruzar o Rio Grande, el Río Bravo del Norte. Nas águas velozes da fronteira, o menino batizou o tênis, último presente da avó. Em seguida, os dois encharcados tiveram a estrada abreviada: foram pegos por homens armados gritando em espanhol. Nem todos os recém-chegados foram detidos pelos guardas. Rosa foi. Resistiu, machucou-se muito, rosto úmido de água e sangue. O menino terminou sozinho numa cela transbordando de crianças.

As tristezas do garoto de nove anos não pararam aí. Era também o tempo da epidemia, e Rosa, mesmo tão valente quanto o filhinho, teve a vida ceifada sem conseguir respirar. Plinio soube logo em seguida, pois um dos homens de farda, um bombeiro grisalho, lhe contou baixinho em espanhol sobre a morte da mãe. No aprendizado da raiva, o pequeno nem esboçou gesto, trancou o rosto com um ronco quente no peito. A tragédia do menininho passou despercebida, como passam despercebidas muitas das histórias tristes do mundo neste exato momento.

Os dias tornavam-se idênticos. Sem pertencer a um grupo específico — os pequenos mexicanos se acotovelavam no mesmo canto da cela — e sem querer cuidar de outras crianças remelentas, o garoto limitava-se à solidão de manter o tênis limpo com sobras de papel higiênico. Devaneava entre grades, procurando o vento calmo acariciando bananeiras, o vulcão dormindo ao longe, imaginava a avó contando-lhe sobre rãs venenosas (imaginava tanto que se tornava uma rã dourada). Tudo que amava se findava na divisa de grades rudes.

Um dia, acordou abruptamente das fantasias de bananeiras com um guarda:

Plinio José Flores!

— É ele mesmo! — murmurou uma voz desconhecida.

Foi libertado. Houve outras crianças que também saíram adotadas — receberam uma bíblia, um crucifixo dourado e um par de roupas limpas. Plinio aceitou a camiseta larga, recusou três tentativas de abraços e concordou em entrar num carro velho com um adesivo imenso de arco-íris. Após quatro dias de estrada, paradas em restaurantes, mais tentativas frustradas de abraços, salgadinhos, sonhos desconfortáveis, o garoto foi desanuviando o rosto.

No banco da frente, duas mulheres com animação incansável:

Mira, Plinio, ¡la Golden Gate! ¡La puerta dorada!

O garotinho avistou uma ponte vermelha e, como a mulher falava espanhol com sotaque, Plinio deduziu que talvez não soubesse as cores direito. Mas era bom sentir o vento, ver o mar novamente (seria aquilo o mar?), os veleiros. As duas mulheres eram donas de um riso fácil, penetrando, aos poucos, nos cantinhos da boca do menino.

Emma e Juliana eram, agora, suas guardiãs — a primeira, californiana com cabelo pálido e risada gostosa. A segunda, de cabelo castanho encaracolado curto, apresentou-se como brasileira, afirmando ter chegado nos EUA em fevereiro de 2014, “também não tinha papéis em ordem”, piscando para Emma. Plinio notou que Juliana tinha uma rã dourada tatuada no ombro.

Nos próximos anos, Plinio aprendeu a falar inglês e a detestar professores cheios de piedade. Aprendeu a mastigar, com raiva, o silêncio que se impunha quando alguém descobria sua história. Aprendeu a lidar com as perguntas mais idiotas sobre ter duas mães (Plinio sempre mencionava as três nessas oportunidades). Por incentivo materno, aprendeu a adorar dinossauros e trilobitas. Soube que as rãs-douradas-do-Panamá foram praticamente extintas por um fungo maligno. Sentiu a própria Falha de San Andreas em terremotos sob seus pés. Visitou o Brasil em mais de uma oportunidade (ao Panamá, nunca regressou). Aprendeu a viver sem comer carne naquele lar vegano. Conseguiu finalmente pronunciar “vulcão” em português. Ainda de vulcões, decorou nomes, imaginava a serpente subterrânea dourada sob cada um, dando o bote em Tacaná, Atitlán, Vulcão de Fogo, Vulcão de Água, Conchagua, Miravalles e em sua cidade natal, perto do vulcão Barú, a quatro mil milhas de distância. Aprendeu a amar livros e, quando suas mães, assíduas na City Lights, iam à livraria, o garoto assenhoreava-se da “cadeira do poeta”, enquanto as duas debatiam assuntos gargalhando.

Aos 14 anos, Plinio preferia assistir vídeos de palestras acadêmicas a estudar para a escola, onde dava socos e pontapés em moleques que o xingavam. Sabia palavras preciosas: petrogênese, orogênese, magmatismo. Sabia escalar coisas e correr como ninguém. Não sabia lidar com as garotas e com o fogo que lhe inundava as faces.

Às vezes, Juliana vinha incentivar os estudos geológicos independentes. Ao ver os mapas nos vídeos, apontava:

— Aqui fica a Falha de Cubatão. No Brasil. Você lembra, já fomos a Santos. Lembra? Quando descemos a serra de carro e você enjoou.

O adolescente faz cara de tédio, mostrando ter superado esse incidente lamentável de vomitar no próprio tênis na beira da estrada. Juliana não tinha mais família ou amigos no Brasil, embora o país seguisse um destino habitual de férias familiares. A mãe continua:

— Sabia que bem aqui, na formação dessa bacia, a Paraná-Etendeka, era para ter tido um episódio de extinção em massa e não teve? Foi diferente da Sibéria, a grande atividade vulcânica na Sibéria extinguiu a maioria das trilobitas. Nesta bacia aqui não.


— Sério?

— É. Apesar da semelhança aterradora nos gases emitidos, houve algo sutil, estão pesquisando ainda.

Plinio coça a cabeça e comenta:

— As rochas são livros com a história do planeta escrita a céu aberto.

Mal pronuncia e precisa se esquivar de um abraço da mãe orgulhosa.

Emma patrocinava os desígnios cientistas de Plinio comprando fósseis de trilobitas de aniversário. A bolha de amor contra notícias terríveis sobre as novas ofensivas contra imigrantes, agora alvejados à luz do dia. Afinal, é sempre mais simples lidar com extinções em massa ocorridas há 250 milhões de anos. Enquanto pudessem, iriam poupar o filhote.

Aos 17 anos, com uma rã-dourada-do-panamá no ombro musculoso, tatuagem-irmã da de Juliana, Plinio fez a decisão que muitos garotos fazem aos nove anos: decidiu ser bombeiro. As duas mães assentiram sem o importunar.

Plinio não somente se tornou bombeiro e socorrista, mas um cheio de medalhas. Enfrentou, aos 28 anos, o Grande Fogo da Califórnia — por mais de 20 meses, com seu destacamento, salvaram vidas na fronteira das árvores em chamas. Os abraços de famílias reunidas por salvamentos, as medalhas, nada foi capaz de o blindar contra comentários de gente odiosa que queria o centro-americano longe dali.

Talvez isso, a última ex-namorada Olivia, pesadelos com rios de fogo em florestas enxameadas de rãs douradas ou alguma outra coisa enevoada no coração, fez Plinio concorrer e ser aceito a um posto solitário: prestar serviço remoto de monitoramento e manejo ao Observatório de Vulcões em Yellowstone.

A tarefa era basicamente estar alerta. Uma vez a cada primavera, ia a cidades no entorno fazer palestras a civis — Plinio, particularmente, adorava fazer demonstrações a crianças em escolas. No mais, era ficar de olho em instrumentos e nas ordens para comandar evacuações.

Mas o tempo dos homens não é o tempo das rochas.

A verdade era que, nos próximos 40 mil anos, Yellowstone entraria em erupção. A atividade sísmica na região se alterara, assim como o padrão de emissão de gases, mas o quando da catástrofe nunca chegava. O governo, atendendo à gritaria de cientistas, finalmente decidiu cerrar as portas do Parque Nacional. O que era provisório, se tornou pior: depois de tremores constantes, mais de 50 mil pessoas foram evacuadas da área, agora denominada “perímetro do fogo”. Conglomerados de cidades-fantasma uivavam ao vento. Muita gente, alegando liberdades individuais, voltou a morar na área proibida, afinal, aquilo era a América.

Plinio instalou-se na fronteira do tal perímetro do fogo, onde somente montanhas eram divisas. A caldeira dormente virou uma amiga, com seus tremores, gases e achaques de velhice. De vez em quando, Plinio recebia a visita de Jim, velho turrão que não ligava para ameaças, “mais digno morrer como em Pompeia do que ir pra baixo da ponte. Quero mais que meu rancho e os grandes búfalos sejam eternizados em lava para visitantes do futuro”, logo brandia o braço, aludindo à violência antiga contra suas gentes. Plinio não sabia o verdadeiro nome de Jim, mas a prosa era sempre boa.

Os anos vieram, Plinio ganhou peso e uma poupança, as neves acumularam fios grisalhos em seus cabelos.

A vida de ermitão caía-lhe bem. Entre livros e paredes de madeira, cozinhava, acompanhava a atividade sísmica, evitava notícias. Em alguns dias, Plinio calculava se a ex-namorada Olivia lhe fazia falta. Noutros, tinha certeza que não. E de crianças? Aos domingos, falava com Emma e Juliana. Durante as noites estreladas, com Rosa. Ao limpar calçados, com a avó.

Yellowstone só era notícia quando o sismógrafo ditava.

Aos 180 anos do Parque Nacional, uma onda de calor piorou a sensação de ruína. Leis estaduais forçaram cidadãos a manterem máscaras contra gases em casa — “você terá somente três horas para vestir”, prenunciava a propaganda. Afinal, se a caldeira realmente estourasse, por toda a nação, as pessoas precisariam de máscaras para sobreviverem. Homens-placa faziam seu trabalho de manter o anúncio fixo “o fim está próximo”.

Botao Vermelho mat.1 img3 FlavioPessoa



Entretanto, ninguém tem paciência para a eterna ameaça. Agora havia furacões na Flórida, inundações devastadoras em Nova York e sabe-se lá o que acontecia no resto do planeta. Não é possível lidar com toda a desgraça ao mesmo tempo.

No perímetro do fogo, as noites seguiam magníficas.

Um novo outono ventou dourado, com temperaturas elevadas. O bombeiro agora sabia calafetar frestas e restaurar o piso de madeira. No final da tarde, cultivava o hábito de abrir uma cerveja e assistir ao pôr do sol.

A tarde ainda estava alta. De súbito, Plinio é acometido por náuseas, assiste às colunas da varanda dançarem e vomita nos próprios pés. Os amortecedores de junção foram acionados, “alerta, abalo sísmico, 7,8 na escala de magnitude de momento”. E nada mais. Enjoado, o bombeiro vê a máscara contra gases pendurada na parede como uma cabeça de búfalo empalhada.

Antes que pudesse acionar a limpeza do próprio vômito, avista um cilindro de metal numa cauda imensa de poeira. Um pouso forçado?

O instinto de socorrista grita. Agarra a máscara e, de regata mesmo, dispara o alarme à central e corre ao local da aterrissagem. Depois de trotar, chega à carenagem. Fora a poeira em suspensão, nada parecia precisar de socorro. Plinio nunca vira uma aeronave assim, sem janelas ou portas aparentes.

— Tecnologia chinesa — resumiu.

Gastou 15 minutos dando a volta, o bólido era imenso. Avistou um grupo de pessoas. De onde teriam saído? Acenou com os dois braços nus.

Ao se aproximar, viu capas oleosas amarelas e placas redondas no rosto, como óculos escuros. Não pareciam em perigo. Ao se aproximar, uma das silhuetas ondulou num passo à frente e anunciou:

Pazin mó venire.

O socorrista estacou e a mesma figura pronunciou um perfeito:

— Viemos em paz.

Plinio arrepiou-se alarmado. “Coisa boa isso não é”. Arrependeu-se de ter deixado a arma em casa. Estufou o peito e fingiu não se intimidar:

— Tá tudo bem com vocês? Precisam de ajuda?

O grupo de seis pessoas entreolhou-se. Plinio não conseguia distinguir se eram homens ou mulheres, tinham o rosto coberto com algum tipo de gosma transparente, cabelos penteados para trás.

Adjudare mó venire. Estamos aqui para ajudar vocês — retomou a palavra a figura.

Plinio, sem muito remédio, cumpriu o protocolo:

— Pois não. Ali é uma das unidades do Observatório de Vulcões — apontou a casa solitária ao longe, porém visível. — A partir dali, podemos acionar o resgate. Sou Plinio José Flores, bombeiro e socorrista.

Ah, mui bien!

Nunca havia recebido visitas em sua casa, na realidade, ninguém, exceto Jim na varanda. Nem mesmo Olivia ou Emma ou Juliana. Mas fez um gesto de “vamos lá”. Aos poucos, reparou que não davam passadas, nas pernas tinham uma espécie de prótese mole, “a tecnologia chinesa não tem limites”.

O sol espraiava um final de tarde gigante no vale. Observou que, sem aquela coisa estranha no rosto, a figura na liderança lembraria bastante Rosa, sua mãe biológica. Durante a caminhada, “Rosa” fez Plinio parar. Mostrou o próprio ombro: havia uma rã tatuada ali também.

Praticamente o mesmo desenho do ombro de Plinio.

O bombeiro sentiu-se enjoado e só meneou a cabeça. Como ela podia ter uma tatuagem praticamente idêntica à de Juliana?

Ao chegar, com vergonha do cheiro de vômito na casa, o anfitrião pediu para o grupo ficar na varanda, distribuindo cadeiras e esteiras. Mostrou o banheiro, trouxe copos d’água, os gestos provocavam risadinhas. Cheiravam os copos e um par foi ao banheiro. Bastante desconfortável tudo aquilo.

A base do Observatório não retornou nenhuma instrução. Por conta do terremoto, havia pequenos focos de incêndio em outras localidades. Na realidade, era Plinio quem precisava de ajuda com tanta gente ao redor. Procurou ser cordial:

— O pôr do sol no outono é um dos mais bonitos.

A frase causou alvoroço nas capas amarelas. Sem os tampões pretos sobre os olhos, a mulher lembrava ainda mais a mãe falecida do bombeiro. Colocou a mão na frente da boca:

— Muito bom! Será nossa primeira vez vendo o sol se pôr!

— Sério? Na terra de vocês não tem sol? — Plinio sentiu-se um idiota com o tênis vomitado.

— Viemos do futuro, Sr. Flores, do veniredain mó venire. Somos de 2920.

O bombeiro engasgou e tossiu amargo. Quando se recuperou, olhou bem o grupo. As pegadinhas de Halloween não tinham limite? Depois, observou a geleca no rosto, os tampões pretos lembrando olhos de rãs, os pés-tentáculos, havia camadas impenetráveis ali. A tecnologia chinesa não poderia estar tão avançada.n Inclusive, notou que “Rosa” falava por meio dos dedos, seria um aparelho de tradução?

Para não pagar de trouxa, pelo sim, pelo não, fingiu a maior normalidade:

— Bom, então, venham apreciar o pôr do sol.

Pediu um minuto de licença e foi limpar o tênis, tremia de adrenalina. Ao retornar, encontrou o grupo quieto.

Iluminados pelo imenso. Na planície, a bola de fogo caía atrás das montanhas. Véus celestes estendiam-se rosas e lilases. As primeiras estrelas cintilavam. Ao final, aquela gente suspirou, alguns abraçaram-se. O bombeiro concluiu, “sem os óculos, bem que poderiam se passar por centro-americanos”, embora não conseguisse entender a partir de onde começavam os tentáculos.

A noite estalava de estrelas. Sem receber instruções do Observatório, Plinio fez o que faria em qualquer lua nova: uma fogueira.

Apanhou lenha e logo serviu aos olhos uma copa bonita de fogo. Distribuiu umas latinhas de cerveja de abóbora. O grupo estava tão feliz quanto pré-adolescentes, dando gritinhos naquela língua.

— Nunca vimos o céu antes.

O bombeiro assentiu. Já não tinha mais pressa em entender tudo. O primeiro gole de cerveja domava o coração. Simplesmente aguardou. As labaredas estalavam e o mundo estava em paz.

A mulher com rosto familiar então desfiou a história:

— No futuro, todo mundo mora embaixo da terra, Sr. Flores. A quilômetros de profundidade. Exploramos energia geotérmica, aprendemos a conviver com o fogo subterrâneo. Acá mó venire hoje aproveitando o duto da Caldeira de Yellowstone.

— E por que vocês viajaram?

Por adventurin mó venire, por aventura, curiosidade. Oficialmente, estamos em uma missão humanitária. Por salvarin mó venire, Sr. Flores, para salvar vocês. Ou o que for possível. Talvez isso mude nosso futuro.

— Nos salvar?

— Sim, no próximo ano acontecerá a grande erupção. O início da Longa Noite. Tudo até aquelas montanhas morrerá instantaneamente de calor, você sabe, o perímetro. Então virão as cinzas e nuvens piroclásticas. O céu ficará com partículas em suspensão e muito do que é verde perecerá. Não será somente uma erupção, serão quase 80 anos de erupções. O ar precisará ser tratado, filtrado. Montreal sobreviverá, um dos primeiros lugares com o ar filtrado para um contingente grande de pessoas. O hemisfério sul terá mais meses de sol, depois o mundo todo se cobrirá. Frio e escuro por eras.

Vendo as estrelas tão límpidas e quietas, o coração de Plinio tremeu e repetiu:

— E por que vocês vieram?

Acá mó venire a transferire tecnologdia mui rapidin, Sr. Flores. Facilitar o descobrimento de uma liga metálica a partir de grafite pirolítico, revolucionar o grafeno. Organizar logo as cidades subterrâneas, enquanto há boas sementes. Tecer redes de solidariedade. Quem não tem comunidade fenecerá. Ainda este ano será inventado o padrão luminoso para o processamento otimizado de vitamina D. E o essencial: vamos tentar instalar um filtro na caldeira.

Plinio pressionou as sobrancelhas:

— Para alterar a composição dos gases?

A interlocutora agitou os dedos:

— Isso! Um filtro para cristalizar o enxofre, outro para tratar o gás carbônico e uma técnica para minimizar o material particulado. Como posso explicar? Parece com uma tela de gelatina translúcida. Claro, é uma experiência. Nos protótipos, deu certo. Agora vamos ver se acertamos a escala.

O panamenho viu um pedaço da verdade escorregar e procurou medir bem as palavras:

— E por que se importariam tanto conosco?

As estrelas piscaram. Uma outra pessoa contestou numa voz rouca:

Mó venire pues moir’mó. Estamos morrendo, Sr. Flores. Longe daqui, nas profundezas.

O crepitar do fogo foi, durante alguns minutos, a única coisa que se escutou. Logo, a voz rouca tornou:

— É uma morte lenta. Nossas cidades são lindas, Sr. Flores, cheias de luz, frutas e música. Mas não estamos mais conseguindo limpar o ar. É uma taxa ínfima de poluição, embora capaz de matar as crianças de nossas crianças. Precisamos de novos passados para termos um futuro — a voz fez uma pausa. — Esse grupo aqui se sacrificou por gente que não iria conhecer, por gente que ainda não nasceu em nosso tempo. Ninguém aqui vai poder voltar para casa. Vamos morrer com vocês, nesse novo tempo.

Plinio observou as capas, os tentáculos, as faces iluminadas de dourado.

— E vocês já tentaram vir ao passado antes?

A voz rouca consentiu:

Si, siempre. Definir o presente é um poder. Do presente, você fixa o que é o passado. Do presente, você fixa as bases para o futuro. Estar com os dois pés fincados no tempo presente das épocas de crise é um poder, uma potência, uma possibilidade.

A primeira interlocutora tomou a palavra, apontando a tatuagem no ombro do bombeiro:

— E essa marca que você carrega pode ser uma prova de sucesso. As Atelopus zeteki são o símbolo do nosso destacamento, uma das primeiras espécies de anuros revividos. Onde você conseguiu essa marca?

O bombeiro não gostou do tom e limitou-se a cruzar os braços. Queria mesmo saber se tinham dentes-de-sabre, pterodáctilos e trilobitas, mas mastigou o silêncio. A voz rouca interveio:

— Mais de duas mil pessoas viajaram ao passado desde nosso tempo, Sr. Flores. Tecnicamente, nosso salto limita-se ao ano 2000, retroceder mais ainda é perigoso. Mas não sabemos se as expedições foram bem-sucedidas. Quando o passado muda, a linha temporal toda muda. Os feitos são apagados completamente. Sabemos quais partiram, mas não o que se sucedeu depois, nunca ninguém voltou. Mas a tua rã dourada pode nos dar algumas pistas.

“Rosa” bateu palmas e obrigou todos os seis a mostrarem o mesmo símbolo no ombro. Diante de tantas marcas familiares, Plinio somente revolveu as brasas e tentou fazer piada:

— Bom, ainda bem que vocês pararam aqui. Vou adjudare no que puder.

Coçou a cabeça. Disso conhecia, da busca da vida melhor, da história heroica desaparecida em cinzas, da gente recém-chegada sem papéis.

Subitamente, uma estrela cadente cruzou a noite e o grupo todo fez “ooh”. Plinio riu da cena, pareciam crianças.

Deu um gole longo na cerveja. No aprendizado da coragem, procurou ser um anfitrião decente:

— Bom, me contem então alguma história bonita sobre o futuro. Vocês já destruíram o capitalismo?

 

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* Ana Rüsche é escritora e pesquisadora nas áreas de ficção científica e utopia. Seu último livro é A telepatia são os outros (Monomito, 2019).

 

A pesquisa científica que inspirou essa história é da professora Adriana Alves, geóloga e pesquisadora doutora em geociências pela Universidade de São Paulo (USP). Seu trabalho mais recente envolve a identificação dos gases que foram liberados na atmosfera nos grandes eventos vulcânicos que deram origem à Província Magmática do Paraná-Etendeka (PMP), localizada na região Sudeste e Sul do Brasil. Como existem teorias na Geologia de que extinções em massa do passado teriam sido causadas pela exalação de gases tóxicos de vulcões, Adriana investiga por que a formação do PMP, apesar de ter sido resultado de um gigante evento vulcânico, não teria causado extinção na Terra. O primeiro ano com apoio do Serrapilheira foi dedicado ao desvendamento de quanto enxofre a província teria carregado. Desse trabalho um outro foi derivado. “Estamos propondo um método simples e novo de quantificação de enxofre que as lavas podem ter carregado. Ele é baseado em análise de dados de repositório. É 100% gratuito e, pelas comparações com estudos que já existem, bem certeiro", explica Adriana.