Eneida Maria de SouzaHana Luzia sobre foto de divulgação outubro.21

 

Como traçar um perfil intelectual objetivo de uma pessoa de quem se considera discípula e amiga há aproximadamente 40 anos? Como fazer jus ao exemplo que ela oferece ao analisar, de forma tão sensível, a relação entre arte e vida no tratamento dos autores que constituem o corpus de seu trabalho crítico? Sem respostas fáceis a essas perguntas, recorro à memória de quando nos conhecemos: ela, na condição de professora da turma do mestrado em Literatura Brasileira da UFMG, tarefa assumida assim que voltou de seu doutorado na Sorbonne; eu, na de uma aluna simultaneamente deslumbrada e amedrontada com o alto nível de sofisticação e embasamento teórico que via descortinar-se à minha frente. As aulas eram dedicadas às leituras que fundamentaram sua tese de doutorado sobre Macunaíma, publicada em 1988 com o título A pedra mágica do discurso. Munida de instrumental teórico que mesclava formalismo russo, estruturalismo e pós-estruturalismo, Eneida decodificava aos olhos de seus alunos a máquina textual construída por Mário de Andrade (1893–1945). Sim, pois como ela mesma iria afirmar posteriormente, entre nós a recepção de teorias em grande medida divergentes se daria em modo sincrônico, o que não representaria um déficit para a crítica local, como alguns intérpretes do Brasil gostavam de afirmar. Ao contrário, consistia em oportunidade para, por meio da bricolagem, se produzir leituras inovadoras. Acredito que foi o primeiro contato dos alunos da turma com os textos de Lévi-Strauss, Julia Kristeva, Antoine Compagnon, Jacques Derrida, Gilles Deleuze, dentre outros. Com essas leituras, articuladas à dos autores que constituíam a fortuna crítica marioandradina até aquela época, a professora, ainda que priorizasse a análise textual, já nos oferecia recursos para nos livrarmos do velho complexo de inferioridade implícito nos conceitos de plágio, cópia e influência, presentes nos estudos das culturas periféricas frente às matrizes europeias e com os quais se procurava atingir a obra de Mário de Andrade em seu tempo.

Para além da amplitude teórica que nos era oferecida nesse curso, algo mais se revelava nas aulas — o apreço da pesquisadora pela cultura popular e os saberes das pessoas comuns, ou a “sabença”, como preferia o autor de Macunaíma. Posteriormente, vim a tomar conhecimento de que ela já havia manifestado antes o interesse pela literatura de cordel, tema de uma de suas primeiras publicações, o que explicaria a posterior opção por uma obra de resgate do rico folclore nacional, na produção da tese orientada por Julia Kristeva. Assim, operou-se em seu trabalho crítico, sem nenhum traço de elitismo e desejo de hierarquização, o casamento entre a cultura erudita e a popular, tão bem representado pela obra de Mário de Andrade.

Mais tarde, quando já me tornara sua orientanda no doutorado em Literatura Comparada e, como amiga, passei a frequentar sua casa, encantava-me a beleza das peças de artesanato que ela trazia de suas viagens e que adornavam todos os cômodos. Dentre elas, entretanto, algumas sempre me fascinaram com maior intensidade: as bonecas de pano reunidas no canto de uma estante. São muitas e uma pessoa desatenta irá ver poucas diferenças entre elas e se perguntar quanto ao porquê desse acúmulo de brinquedos tão rusticamente elaborados. Mas o olhar de Eneida parece treinado para enxergar o ouro no meio das piritas (qualidade comprovada nos “garimpos” que realiza nas viagens que faz) e ela é capaz de singularizar cada uma dessas bonecas, que, segundo dizem, é herança dos africanos desterrados que mantinham no Brasil a tradição de confecção das abayomis, aqui conhecidas também como “bruxinhas”. Na minha interpretação, elas evocam muito mais do que as lembranças da infância ou dos prazeres da leitura das travessuras de Emília, a boneca do Sítio do Picapau Amarelo que, em entrevista, ela disse tê-la encantado quando criança. Acredito que nessas bonecas se incorpora o valor conferido a um imaginário gestado a partir da precariedade, à potência da arte popular para criar beleza em contextos de escassez de recursos, à inventividade das pessoas comuns para transformar restos de tecidos em objetos capazes de alimentar a fantasia, injetando a ficção num universo que muitas vezes é de grande privação. Essa gaia ciência da pessoa comum seria, assim, a fonte de muitos dos ensaios que Eneida viria a desenvolver em sua carreira, o que pode ser comprovado especialmente no livro Narrativas impuras (Selo Pernambuco/ Cepe), seja quando trata diretamente da obra de Mário de Andrade, seja na leitura da obra fotográfica de Assis Horta e Chichico Alkmim ou do trabalho realizado pelos fotopintores do Ceará. Interessa-lhe, todavia, não a fetichização do popular em sua pretensa autenticidade, mas o trânsito entre a tradição e a modernidade, ou o processo de transfiguração do vernacular em um cenário descompassado de modernização conservadora.

Diante do que se disse acima, seria tentador atribuir a Eneida o qualificativo de colecionadora. No entanto, ela sempre o recusou, demonstrando até mesmo certa implicância por qualquer postura antiquária. Nas Passagens de Walter Benjamin, o filósofo lembra que o colecionador procura reagir contra a dispersão da ordem das coisas no mundo e que, se lhe falta alguma peça para o acervo, tudo o que reuniu antes seria por ele considerado fragmentário e incompleto. Essa preocupação totalizadora não parece estar presente no trabalho e no cotidiano de Eneida, pois não lhe interessa o que falta, mas, sim, a experiência vital de, como um flâneur, acompanhar o seu tempo, deixando que as contingências a conduzam, sempre na expectativa de que delas surgirá algo de bom. Talvez por isso nunca tenha desejado ser especialista na obra de nenhum artista, embora volta e meia retorne, de forma renovada, à de Mário de Andrade. A curiosidade intelectual que sempre manteve a conduz a uma grande variedade de escritores, dentre os quais destacam-se Autran Dourado, Jorge Luís Borges, Pedro Nava, Henriqueta Lisboa, Silviano Santiago, para citar apenas os que são o tema exclusivo de livros de sua autoria ou por ela organizados.

A opção da pesquisadora pelo ensaio já indica a consciência de que toda análise é fragmentária, mas, fugindo ao “ecletismo frouxo” de muitos dos textos que se publicam hoje em dia sob essa rubrica, percebe-se que seu processo de escrita é fruto de intensa pesquisa em arquivos e de leituras aprofundadas sobre o autor ou assunto tratado, na tentativa de reunir o maior número de informações de caráter literário e histórico-biográfico possível. Com isso, consegue produzir interpretações filiadas a uma perspectiva efetivamente cultural, sem deixar de lado as tensões que incidem sobre os objetos de estudo. O amplo conhecimento da história da literatura e da teoria literária, facilmente comprovável com a leitura de seus vários textos de cunho metacrítico, normalmente se faz acompanhar por um interesse pedagógico, o que a leva a utilizar uma linguagem simultaneamente requintada e de fácil legibilidade. Esse aspecto é muito provavelmente o responsável pelo sucesso de seus livros entre os jovens estudantes de todo o Brasil. Afinal, quem deseja seguir a história da crítica brasileira produzida a partir da década de 1970 e compreender, sem maiores dificuldades, os pressupostos teóricos que conformam seus movimentos encontra farto material em sua obra, especialmente em Traço crítico (1993), Tempo de pós-crítica (1994), Crítica cult (2002), Janelas indiscretas (2011) e Narrativas impuras (2021). A preocupação com a forma, grande conquista dos áureos anos das correntes teóricas imanentistas, que constituem a base da formação de Eneida, certamente contribuem para que a maior parte de seus ensaios se estruture de forma imagética, aproximando-se da proposta monadológica de vertente benjaminiana. A criatividade na atribuição dos títulos de seus livros e artigos, assim como o uso de imagens a partir das quais vai desenvolvendo o raciocínio, são também elementos responsáveis pela leveza e pela fluidez conferidas aos textos, garantindo-nos um grande prazer durante o ato de leitura.

A linguagem expressiva e até mesmo poética não impede, contudo, que ela seja, em vários momentos, bastante contundente em suas críticas a posicionamentos considerados elitistas e antidemocráticos, especialmente no que diz respeito à defesa exclusiva do cânone e a uma visão que busca limitar o raio de ação da Literatura Comparada. Avessa a posturas nostálgicas ou apocalípticas, a opção pelo não lugar da literatura e pelo caráter indisciplinar dos estudos comparatistas é corajosamente assumida por Eneida no calor dos debates sobre a (má) influência dos Estudos Culturais que tiveram como palco a Abralic, associação que ajudou a fundar e da qual foi presidente. Nesse sentido, o livro Crítica cult, talvez o seu maior sucesso junto ao público, seja o que melhor nos permite acompanhar o desenvolvimento dessas polêmicas no Brasil e o caráter plural dos interesses que movem uma reflexão crítica que sempre se mostrou aberta ao influxo da cultura popular e de massas. Também nessa obra explicita-se, de forma mais clara, o lugar por ela ocupado nas discussões acerca da dependência cultural e que, como vimos, já se podia notar, em forma ainda germinal, em sua tese sobre Macunaíma. Contrapondo-se à matriz interpretativa de base sociológica que associava subdesenvolvimento econômico a dependência cultural no cenário intelectual brasileiro, Eneida prefere romper com o pensamento dicotômico que embasa a lógica disfórica incorporada nessa proposta, valorizando os artistas e críticos que veem de forma positiva o trânsito entre centro e periferia e as diversas esferas de produção cultural. Aposta, assim, na antropofagia, no trabalho das vanguardas e no entrelugar como antídotos para a superação desse mal-estar.

Sua leitura, contudo, não deixa de lado as contradições inerentes aos papéis cumpridos pelo intelectual que atua no contexto de modernização na periferia do capitalismo, especialmente quando lida com a obra dos artistas modernistas, nos muitos ensaios a eles dedicados e publicados em livros, dentre os quais destaco os mais recentes: Modernidade toda prosa (2014), publicado em coautoria com Marília Rothier Cardoso, e a coletânea Narrativas impuras, agora lançada pela Cepe. Sua postura crítica distancia-se, pois, do elogio vazio de sentido e também do risco da execração da obra de autores importantes da nossa história literária que tem sido levada a cabo em tempos de revisionismo da Semana de Arte Moderna por leituras que me parecem bastante prescritivas e descontextualizadas.

Para concluir, resta dizer que o leitor de Narrativas impuras certamente reconhecerá a importância que o conceito de sobrevivência, recuperado da obra de Aby Warburg por Georges Didi-Huberman, assume nas interpretações que a autora do livro vem construindo. Acredito que isso se deva ao fato de que o termo vem traduzir a lógica suplementar sobre a qual procurou estruturar sua produção crítica, que nunca despreza o passado, mas o ressignifica a partir de novos mélanges teóricos, resultantes do constante processo de atualização em que ela se empenha. Mas, como se pode perceber no texto que encerra a coletânea, a sobrevivência certamente também alude à capacidade que Eneida sempre teve de ler o seu tempo com otimismo, e sua confiança no que há de vir pode contribuir para nos lembrar, mais uma vez, que é possível a abertura de uma fresta que nos permita enxergar a importância da literatura e do nosso trabalho enquanto críticos, mesmo em tempos difíceis como os de agora. Esse talvez seja o melhor exemplo que ela nos oferece.