Fellini Fernando Monteiro inedito ago17 menor

 

 

No inédito deste sábado, um excerto do longo poema inédito Os sete pilares da apostasia, do poeta e cineasta Fernando Monteiro. O autor inicia este mês uma série de debates com poetas na Biblioteca Pública Estadual de Pernambuco.

 

***

 

II

Podia voltar os olhos para as folhas queimadas da vida – essa frase solene; podia
aceitar solenidade e apertos de mão demorados para sinalizar que era “muito bom” conhecer alguém numa recepção de taças quebradas pelos sons das bocas que diziam nadas sorridentes entre mesuras e piadas das quais seria de bom tom rir


Mais do que de bom tom, o futuro de qualquer um poderia depender
do risco de um sorriso adequado no momento certo sob as lianas de flores de mau gosto do quiosque das bebidas de cores indefinidas


O olhar de alguém o confirmaria, havia um código como vigoravam etiquetas não escritas e que, uma vez quebradas, significariam o expurgo, a discriminação, o fim


Então, desaparecia – voluntariamente desaparecia (e isso não é poesia) –, o que as pessoas não compreendiam, franzindo o cenho, fazendo um pequeno gesto com as comissuras dos lábios que não terminavam de pronunciar as frases


Qualquer frase alusiva... educadamente (isso deve ser reconhecido), oh, sim, porque a
maldição era ser educado e disputar futuros com baixos golpes próprios do modo
avião na perseguição das alturas afundadas a prosseguir educado e mau quando era preciso (“muito mau”) por sobre a paisagem lá embaixo: as salas vazias do palácio arruinado longe da Torre do Relógio próximo da qual quis morrer (tentou seriamente) e apenas pegou um resfriado da lama do rio que era realmente nojento


Você não esquece, quando quer morrer


Você não morre, quando quer esquecer


Um dia cheio de frases, versos, sabedorias difíceis e fáceis,
um dia de velocidade bom para desaparecer na curva da idade, de maneira que, então, tudo estivesse consumado, evaporado como a fumaça das folhas queimadas


O circo que saiu da cidade. Sua roda na poeira de entulhos por momentos iluminada.


Os cães – alguns – que acompanharam os carroções pintados na estrada de névoa que cortava para uma das sete colinas cuja visão havia sido borrada pela noite da longa corrida em busca de nada.


Fiel à juventude, não havia arredado pé das visagens incertas, das indecisas luzes
sugadas pelos anos que são – ou preferem ser – vulgaridade. O sol, de fato, só era
jovem uma vez, uma única e gloriosa vez não necessariamente sob algum arco de triunfo deteriorado, para a passagem silenciosa do herói na queda capaz
de torná-lo de novo humano entre seus pares, à roda da fogueira
diante da qual os seus joelhos estão desguarnecidos como os da infantaria sem nome perdida no escuro, no sacrifício sem-razão
em troca de nada, o bolso furado sem a moeda com a efígie do
príncipe dos lírios – e o toque do dedo que encontra apenas a carne
quando procura o soldo igualmente pago aos covardes e aos heróis
de barro que não voltam para casa.


Tudo se tornava derrisão, com o tempo e o azinhavre, o rio que cada um perde para sobreviventes mares sem identidade

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