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“Recife voltou a falar comigo durante a pandemia”, conta a poeta pernambucana Cida Pedrosa sobre o processo de feitura do seu décimo livro de poemas. Elaborado e lançado em plena pandemia (e também por conta dela), Estesia (Edições Claranan) – termo que  significa “capacidade de perceber sensações; sensibilidade” – é produto de um “estado de contemplação” que Cida reestabeleceu com a cidade do Recife por conta do marasmo que a pandemia nos lançou. A relação com a urbe é forte característica em sua obra desde os primeiros poemas, mas agora surge transmutada pelo silêncio das ruas. Recém saída da coordenação da Secretaria da Mulher do Recife, Cida escreveu o livro como forma de respiro em meio à singularidade da pandemia; a leitura de Estesia nos leva a contemplar pequenas belezas urbanas e, com isso, nos remete a uma forma não ansiosa da experiência do tempo.

Nessa entrevista ao Pernambuco, Cida fala sobre a retomada desse estado de contemplação que foi força generativa de Estesia e comenta o ataque de militantes bolsonaristas à live de lançamento da obra no início deste mês.

 

Estesia foi escrito em plena pandemia como tentativa de respiro em meio à estagnação na qual fomos lançados nesse período. Como se deu esse deslocamento, que foi do marasmo do isolamento para um estado de contemplação e espanto do novo?

Eu estiva na Secretaria da Mulher até o dia 3 de abril, que foi quando me afastei. Eu vinha de uma agenda de 12 horas por dia com muitas reuniões – só no mês de março eu tinha marcadas mais de 20 reuniões que tiveram de ser desmarcadas por conta da pandemia. Terminei me afastando da Secretaria sem fazer os rituais de despedida e cheguei em casa no dia 3 de abril, pré-candidata à vereadora (pelo PCdoB,) sem saber como fazer a campanha, com todo esse caos e todas essas mortes. Então, eu fiquei pelo menos uns 15 dias, basicamente, num estado de paralisia. Nas andanças que fazia com meu cachorro Bob Marley, eu comecei (ou voltei) a me permitir a alguns olhares que havia perdido. Recife me engoliu, em algum momento, e eu me perdi de mim e da minha capacidade de contemplação. E aí eu comecei a contemplar o feio e o bonito; e, dessas contemplações, começaram a sair versos, que quis registrar em fotografia. Não era só escrever, era registrar o contemplado o máximo possível. Não foi simples sair do marasmo e deslocar o meu olhar à contemplação e ao estado de espanto. Estesia é isso, a retomada da minha capacidade de espanto. 

Haicaístas, na época de Bashô, costumavam elaborar justificativas para os seus poemas. Pode falar sobre a opção pela linguagem fotográfica para conceber este diálogo? 

É essa coisa da justificativa de Bashô, não é? Esse processo foi muito interessante pois primeiro vinha a contemplação, mas não houve qualquer rigidez com a ordem na criação dos poemas e fotografias. Por exemplo, eu vi uma florzinha que parecia um clitóris (“Clitóris lilás /A alegrar o passeio. /Reage a beleza.”), comecei a escrever o poema e só depois fotografei a flor. Mas houve casos também como o poema sobre um cadeado enferrujado (“Há morte corrente /Na ferrugem que assombra /Pranto a cadeado.”), que eu fotografei primeiro e só quando cheguei em casa eu escrevi o poema. 

Mas, de fato, as fotografias são as justificativas. De certa forma, eu acredito que assim estou dialogando com a modernidade, com novas formas de justificar – ao invés de escrever sobre qual era a situação da contemplação –, eu deixo o leitor vislumbrar a fotografia e elaborar a sua própria contemplação. Dessa forma, o leitor pode, ao ler o meu poema e ao ver a fotografia, realizar contemplações diferentes da minha. Eu acho que assim termino criando uma relação direta com o leitor para novas possibilidades de diálogo.

 

Como foi a experiência de contemplação da cidade do Recife, marca tão forte em sua obra, agora com a cidade quase vazia e o olhar enclausurado em uma máscara?

Bom, os nove primeiros poemas eu fiz de dentro do meu apartamento. O resto, foi elaborado na rua. E o que eu encontrei foi essa cidade silenciosa do ponto de vista dos carros e das pessoas, mas é ainda a cidade que grita do ponto de vista de sua dor e de sua beleza. Eu contemplei esses gritos de beleza e dor. Uma quantidade enorme de moradores de rua, uma fome batendo na canela. Mas também as dores ocultas; você passa por casas completamente rachadas e destruídas, casarões lindos; é uma cidade oculta que se esvai. Você passa por uma rua e se pergunta que dor existe por trás de cada grade, de cada abandono. Eu pude contemplar essas dores que gritam e também essas dores silenciosas. O que significa você se deparar com uma cadeira amarrada em um pé de árvore em frente a um supermercado numa avenida principal, antes movimentada, sobretudo se você sabe que aquela cadeira é onde sentava o vendedor de frutas (“A árvore é parte /Do escritório suspenso. / Labor ambulante.”). Mas onde ele está agora? Com que dinheiro ele está sobrevivendo se, com as ruas vazias, não está vendendo mais as frutas? Então eu passei a observar essa cidade que ninguém vê. Por exemplo, tive a experiencia de passar em plena rua Amélia e ver dois formigueiros na calçada. Isso jamais aconteceria em “tempos normais”, com a quantidade de pessoas que passam o tempo inteiro por aquelas calçadas. Isso teve um impacto enorme para mim. Recife tem uma marca indelével na minha obra desde os primeiros poemas, e esse é o grande impacto que eu senti ao sair de uma cidadela minúscula do Sertão (Bodocó) para uma cidade grande. E que bom que a cidade voltou agora a falar comigo. Recife voltou a falar comigo durante a pandemia.

 

A live de lançamento de Estesia, que aconteceu no começo desse mês, foi alvo de ataques empreendidos por militantes bolsonaristas. Como você relaciona esse lamentável ocorrido com seu trabalho como poeta e com sua militância política pelo PCdoB?

Primeiro, a cultura brasileira está sob ataque desde pelo menos o governo Temer, quando decidiu acabar com o Ministério da Cultura. Todas as vezes que os fascismos sobem ao poder, uma das primeiras classes atacadas é sempre a dos artistas, da cultura. E por que? Porque é de onde nascem muitos gritos potentes de liberdade, múltiplas interpretações do mundo, múltiplas críticas e olhares diversos sobre o mundo. E, como sabemos, o fascismo só convive com uma ideia, porque é autoritário em sua essência. Ele trabalha em uma ideologia de transformação das mentes, para que sejam todos alienados e pensemos todos de uma mesma forma. 

O governo Bolsonaro não está distante disso. Existe um PL do deputado federal Eduardo Bolsonaro que quer proibir e criminalizar a foice e o martelo, símbolos comunistas. São de coisas desse nível que estamos falando. O ataque foi porque sou mulher, porque sou cominista e porque sou artista. E a minha resposta foi a resposta do afeto, porque eles odeiam o afeto. Mas não falo de uma coisa boba como “amor vence o ódio”. Nós vivemos em um momento de tanto obscurantismo, de ódios em suspenso e de ódios postos na mesa, acho que precisamos fazer mais gritos de liberdade e amor. E a arte é um excelente canal para isso. O que eu espero é que todos nós possamos reagir. Em Estesia, tem um poema em que falo sobre uma “beleza que reage”. E é isso o que tenho a dizer para eles, porque eles não suportam quando isso acontece.

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