Capa mar20 Entrevista 4 Arte sobre divulgacao

 

 

Uma das maiores especialistas na obra de Gilberto Freyre, a socióloga Elide Rugai Bastos (foto) fala ao Pernambuco sobre pontos publicamente conhecidos da obra do autor. Ao reconhecer contribuições que o intelectual deu ao pensamento social brasileiro, Bastos – que é professora titular na Unicamp – não nega que ele tenha criado para si uma posição político-cultural ambígua (e, por isso, humana) objetivamente indefensável. Apresenta ao leitor alguns pontos importantes da obra de Freyre, como as “múltiplas modernidades”, o problema expresso pela ideia de “democracia racial” e relata um encontro que teve com o pernambucano por ocasião de sua pesquisa de doutorado, orientada na USP por Octavio Ianni.

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O ano de 2020 marca os 120 anos de nascimento de Gilberto Freyre. Vivemos um momento turbulento da política brasileira, em que as disputas entre esquerda e (extrema) direita acabam tomando a pauta. Essas disputas, como bem sabemos, atravessam as universidades. Como a senhora vê hoje o lugar de Gilberto Freyre na universidade, tendo em vista suas várias posições públicas reacionárias?

Gilberto Freyre declarava-se publicamente conservador, e insistia que nas bases dessa adesão figuravam sua defesa do tradicionalismo e do regionalismo. Deve-se assinalar, no entanto, que os conceitos orgânicos de seu pensamento são os fundamentos dessa visão política conservadora: a família patriarcal, a comunidade local, a região e, decorrente desses princípios, a aceitação de uma centralização de poder em torno de um modelo de colonização marcado pela ordenação social. Esta tese é central em Casa-grande & senzala e em Sobrados e mucambos, embora os períodos analisados sejam diferentes e as situações sociais sejam diversas. Isso significa afastar da argumentação os direitos individuais, esquecidos pelo privilégio justificado ao poder discricionário do patriarca. Justifica que a atuação deste ultrapassa a ação do Estado e da Igreja. Nessa direção, afirma terem a família e o Estado a mesma natureza, havendo continuidade entre uma e outro; assim, privado e público se confundem. Um dos fundamentos dessa aceitação é a suposição de ser a sociedade autorregulável sem a necessidade de uma estrutura institucional que respeite direitos e deveres. Repousa na formulação de um modelo único de família, na imposição de uma fórmula cultural pré-definida ou, ainda, em uma diretiva visão religiosa – e quando o comportamento da população fere essas regras, vigora o estabelecimento da autocracia.

Vocês lembram que vivemos um momento turbulento da política brasileira. É lamentável que esse desarranjo tenha permitido a regressão de tantos avanços democráticos alcançados em diversas áreas — na educação, na cultura, nas políticas públicas, enfim, na sociedade em geral. O desprezo com que no Brasil os direitos humanos, as reivindicações sociais, os artistas, os intelectuais, o ensino, a imprensa, as ideias progressistas, os livros, os coletivos feministas, raciais e culturais são tratados é deplorável. Parece que os princípios de liberdade, igualdade, solidariedade não têm mais valor na constituição da sociedade e como base das relações sociais. Realmente, Gilberto Freyre assumiu algumas posições nitidamente reacionárias, como o apoio que deu ao golpe de 1964 e suas decorrências. Não sou vidente e não posso saber quais seriam suas posições em relação a um futuro que não presenciou. Porém, creio que ele não compactuaria com a desqualificação da cultura e o ataque a artistas e intelectuais nos termos em que ocorrem hoje. Ainda, sua educação aprimorada não aceitaria o uso de palavras chulas, ofensivas, obscenas como fazem gurus do regime, ao referirem-se a personalidades dos quadros culturais do país. Na academia, as ciências sociais têm-se dedicado a retomar os estudos sobre o pensamento social no Brasil, revisitando autores do passado e analisando o papel que estes representam na configuração da sociedade e da política atuais.

Gilberto Freyre é um dos intelectuais muito estudados e os trabalhos [já publicados] apontam o alcance e os limites de sua interpretação do país. Podemos verificar a amplitude dessas pesquisas através dos dados fornecidos pela Biblioteca Virtual do Pensamento Social em seu blog.

As discussões étnico-raciais no Brasil têm experimentado, nos últimos anos, um expressivo aumento no seu alcance. Apesar de Gilberto ter deslocado a mestiçagem de uma chave negativa para uma positiva, vemos em sua obra, por exemplo, a difusão da ideia de “democracia racial”, que Florestan Fernandes acertadamente chamou de “mito”. Segundo Fernando Henrique Cardoso, as ideias dele funcionam “como um ponto de fuga que, se não retrata a realidade, faz parte dela”. Como ler o autor em um país tão marcado pelos genocídios de indígenas e de pessoas negras?

Sem dúvida Casa-grande & senzala representou uma ruptura na reflexão sobre a sociedade brasileira. Rejeitar a visão sobre a inferioridade racial da população não branca e transferir a discussão para o campo cultural representa um avanço. Mais ainda, a revisão das teses do determinismo geográfico mostrando as regiões tropicais como lócus de uma sociedade consolidada é uma argumentação fundamental e repõe, em um momento de centralização política, a importância do Nordeste no âmbito nacional, visão que não poder ser esquecida no atual momento da política brasileira.

No entanto, o elogio da mestiçagem carrega um sentido ambíguo, conforme tem sido apontado por vários autores, pois tem como pano de fundo o projeto de branqueamento da população. A difusão da ideia de democracia racial é bastante criticada por vários autores que mostram os limites do exercício da cidadania no Brasil. A frase de Fernando Henrique Cardoso a respeito desse tema é muito acertada, pois aponta que uma ideia quando muito repetida alcança “poder” de verdade e é configurada como elemento constitutivo da sociedade. Assim, grande parte da população brasileira afirma não ter preconceito racial, mas continua calmamente exercendo comportamento discriminatório em relação aos negros. Aliás, o mesmo ocorre em relação às mulheres, às populações LGBT, aos pobres, pontificando-se
que cada um “reconheça seu lugar”.

Ainda a propósito da expressão “democracia racial”, vários leitores da obra de Gilberto Freyre afirmam que ele não usa em sua obra esses termos. Na verdade, as expressões “democracia racial” e “democracia étnica” são empregadas [por ele] nos livros Interpretação do Brasil (1945) e Novo Mundo nos trópicos (1959), na mesma direção em que Cassiano Ricardo acentua que “as Bandeiras, mais do que qualquer outra instituição, é que promoveram a democracia social e étnica tão características do Brasil”. Essa atribuição é contestada pelos coletivos negros em vários momentos. Na pesquisa realizada por Roger Bastide e Florestan Fernandes [sobre relações raciais na cidade de São Paulo, nos anos 1950], encomendada pela Unesco, tal expressão é questionada pelos depoentes desses grupos, denunciando a existência incontestável de discriminação racial. Diante desse dado e constatando em sua investigação a desigualdade de condições de competição entre negros e brancos nas diversas relações sociais, o sociólogo paulista atribui a denominação “mito” à ideia de democracia racial.

A criminalização da discriminação racial e algumas políticas públicas no sentido de diminuir a desigualdade de condições de competição têm procurado corrigir essa assimetria deplorável na sociedade brasileira. Os dados sobre genocídios de indígenas e negros mostram que ainda estamos fazendo muito pouco, estamos muito longe
da definição de uma sociedade democrática.

Freyre pensava o Brasil, também, pela ideia de “múltiplas modernidades”: grosso modo, não coincidiríamos com o modelo de modernidade europeu, teríamos nossos próprios processos. Pode comentar a relevância dessa ideia hoje?

A expressão “modernidades múltiplas” refere-se, nas ciências sociais, a temas que não só envolvem a diversidade de culturas que se articulam no mundo contemporâneo, mas se constitui em explicação a tensões e conflitos do mundo atual. No centro dessa reflexão coloca-se uma tese importantíssima: a recusa de considerar-se a modernidade como projeto apenas ocidental, ou seja, os padrões ocidentais da modernidade não se constituem nos únicos autênticos.

 Embora seja explorada pelas teorias sociais nas últimas décadas do século XX e no início do século XXI, principalmente a partir das obras de Shmuel Noah Eisenstadt (1923-2010), que popularizou o emprego da expressão, o tema já foi anteriormente abordado a partir de outros termos. Vocês têm razão ao dizerem que Gilberto Freyre afirmava que, pela nossa tradição ibérica e pela influência africana, não coincidiríamos com o modelo de modernidade europeu, pois tivemos outro processo de formação. Ele considerava que a diversidade cultural e étnica definia esse perfil, constituindo-se no fundamento da especificidade da sociedade brasileira. Alcançar a ordem social pela manutenção dos antagonismos em equilíbrio seria resultado desse modelo.

Embora acentuasse a riqueza da diversidade, concordava com, e até elogiava, o colonialismo português. Não só no Brasil, mas também na África contemporânea. É uma das ambiguidades presentes em seu pensamento, uma vez que os setores subalternos constituintes da sociedade colonial permaneciam nas margens do sistema. Predominou a contribuição portuguesa – língua, religião, poder político, organização social patriarcal, discriminação racial – embora absorvendo alguns elementos culturais das nações indígenas e africanas. Em outros termos, venceu o processo de imposição econômica, social, política e cultural da metrópole. Hoje, diferentemente das visões anteriores, a questão das modernidades múltiplas incorpora a discussão sobre o reconhecimento da alteridade, garantindo para o “outro” espaço vital fundado em iguais condições de existência social. Nessa direção estão os livros de Edward Said – Orientalismo, Cultura e imperialismo, Cultura e política, entre outros – que se constituem em forte crítica às diversas formas de colonialismo.

Pode nos contar como foi seu encontro com Gilberto Freyre, que era conhecido por ter uma personalidade singular? Algum detalhe exposto por ele no encontro fez a senhora pensar de outra forma a obra dele ou algum aspecto específico dela?

Embora já tivesse visto e ouvido Gilberto Freyre em algumas conferências, só tive contato pessoal em 1985, quando preparava minha tese de doutorado. Concedeu-me, então, uma entrevista que se desenrolou por três dias consecutivos. Recebeu-me muito afável e simpaticamente. Colocou-me à vontade, exigiu que o tratasse familiarmente por “você” e dispôs-se a responder às minhas perguntas. Criou um clima agradável, mostrou-se espirituoso nas respostas. Centrei as questões sobre sua obra, pois no cerne de minha pesquisa colocava-se a indagação sobre os efeitos sociais e políticos de seu pensamento. Manifestou satisfação ao ver que }eu conhecia as várias edições, revisões e prefácios de seus livros, embora isso fosse natural, pois esses dados eram condição óbvia para o alcance dos objetivos de meu trabalho. Seus comentários deixavam transparecer sua enorme erudição e delicioso domínio da língua, o que era evidente na leitura de seus textos.

Desde o início de nosso encontro deixei claro que fazia um trabalho acadêmico, estudava sua obra pela importância representada na interpretação do Brasil, considerava que a posição expressa em Casa-grande & senzala avançava muito em relação às visões anteriores, mas tinha várias críticas a fazer à sua explicação. Respondeu-me ser isso natural e necessário ao progresso do conhecimento. Não acreditei muito. Um dos momentos de nossa conversa explicitou essa dúvida. Perguntei-lhe como explicava que Casa-grande & senzala tivesse tido tantas edições, e não Sobrados e mucambos, onde sua tese central sobre o patriarcalismo e a articulação público / privado estava plenamente desenvolvida. Maliciosamente devolveu-me a pergunta: “É mesmo, porque será?”. Confesso que respondi de modo um tanto impertinente: “No primeiro livro não fica tão clara sua posição antiliberal quanto no segundo.” Rápido e vivaz retrucou: “Não precisa dizer antiliberal, pode dizer conservador. Sou mesmo conservador. Só não quero que me chamem reacionário.” Veja, ele assume claramente sua visão política conservadora, mas se mostra irritado se lhe são lembradas as consequências reacionárias dessa posição. Reconheço que é uma ambiguidade muito humana, mas objetivamente indefensável.

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