P 20170509 112328 A

 

 

O crescente interesse do público sobre literatura indígena reflete na produção editorial do país, mas ainda de forma pontual. Dois exemplos são a coleção Tembetá (Azougue Editorial) e a Mundo Indígena (Hedra). Fora isso, a Companhia das Letras lançou A queda do céu, livro coescrito pelo líder Davi Kopenawa. É uma cultura periférica em instâncias complexas, em boa medida pelo fato de a maior parte das comunidades não estarem em centros urbanos – o que as tornam mais invisíveis à maioria dos leitores.

O trabalho do pesquisador Devair Fiorotti (UERR) segue por uma via diferente das publicações mais acessíveis. Há cerca de 10 anos, ele dialoga com comunidades indígenas em Roraima para coletar suas narrativas e entender como eles vem reconfigurando as histórias recebidas de seus ancestrais. Muitas vezes, mesclam essa herança com o repertório cultural da sociedade branca – o que nos permite desmistificar ideias pré-concebidas e vislumbrar parte da complexidade dessas populações.

Com base nessa convivência, Fiorotti preparou quatro volumes sobre a produção dos povos Macuxi e Taurepangue (RR) – três livros de entrevistas com esses artistas, e o quarto, que deve sair em breve, registra cantos em língua original e português, com partituras.

Nesta entrevista que concedeu ao Pernambuco, o pesquisador responde a questões elementares da representação dos indígenas na literatura, fala sobre os desafios de lidar com essa produção e população singulares, citando exemplos surgidos ao longo de suas pesquisas, e também sobre como sua vivência com eles abriu espaço para a quebra de estereótipos.

 

Em abril, o então presidente da Funai, Antônio Costa, manifestou seu desejo de que os povos indígenas não fiquem “parados no tempo” e sejam inseridos na cadeia produtiva nacional. A produção cultural indígena nos permite desmistificar essa ideia?

A primeira coisa a ser pensada é esse “parados no tempo”. O que está implícito numa fala como essa do presidente da Funai é algo muito difundido, presente na doxa comum, de que indígenas sejam atrasados e nós somos o modelo a ser seguido, os desenvolvidos. Para começar, eles possuiriam a própria cadeia produtiva, do jeito deles, no ritmo das necessidades deles. Isso incomoda. Outro erro é imaginar que os indígenas não estejam inseridos na cadeia produtiva nacional. Ainda da forma deles, em geral, salvo as comunidades isoladas, os indígenas já pertencem a uma cadeia mais ampla, principalmente como pequenos produtores, pelo menos em Roraima isso é bem evidente. Basta ir às feiras livres desse estado.

Quanto à produção cultural, há mais problemas a serem levantados. O que entendemos de produção cultural indígena? Hoje, encontramos desde indígenas produzindo literatura, no sentido ocidental da palavra, até estruturas tradicionais oriundas da oralidade, de cuja complexidade muitas vezes não nos damos conta. Essas produções não são paradas no tempo, pelo contrário: elas são dinâmicas ou de forma endógena (quando criadas e recriadas dentro de uma organização mais fechada, com base oral forte) ou mesmo quando em contato conosco. Como exemplos, registrei uma narrativa contada por uma indígena que misturava a realidade indígena com Maria Borralheira, Cinderela e a Madrasta numa única história; registrei um canto que misturava inglês com macuxi; também conversei com um cantor tradicional que me explicava as mudanças que ele fazia na música, para ela ficar melhor.

Você estuda a literatura de matriz indígena há cerca de 10 anos. Quais foram seus primeiros aprendizados?

A primeira torção e mais significativa foi entender que eles estão vivos culturalmente e o que significa isso. Quando fui para a comunidade pela primeira vez, fiquei esperando homens nus, cocares, gente grande como aparecem, em geral, nos livros didáticos, por mais que já tivesse lido a respeito deles. Reconhecer o índio no índio atual, principalmente nas comunidades em que dialogo, que já possuem contato centenário com brancos, foi meu grande desafio. Olhar para eles e, a partir deles, tentar entender o que são, é o grande desafio. Pensei em desistir no começo, pois meus horizontes de expectativas tiveram que ser ressignificados. O problema não está, em geral, no indígena, mas na gente, em nossa dificuldade em lidar com o ameríndio, esse outro constituinte da nação brasileira.

É possível entender a produção indígena como literatura brasileira contemporânea?

Se não entendermos a produção literária deles como contemporânea, entenderíamos então como o quê? Seres anacrônicos, apesar de possuírem estruturas culturais complexas e dinâmicas? O que encontro em minhas interlocuções com as comunidades que visito são pessoas produzindo artes verbais hoje, dentro de parâmetros culturais que desconhecemos. Penso que o grande desafio da academia é inserir essas artes verbais nos estudos literários: contemporâneos, sim, produzidos hoje por complexas organizações culturais e brasileiras. Ou vamos excluir a produção indígena como brasileira? Ou, por muitas vezes ela ser oral, vamos excluí-la por não se enquadrar nos parâmetros ocidentais tradicionais, livrescos? A questão é querermos ouvir as vozes desse outro enquanto culturas dinâmicas e pertencentes à nossa brasilidade.

Muito já se perdeu das narrativas indígenas, mas sua pesquisa mostra que ainda há diversidade de poéticas orais. Qual a função dessas poéticas para essas comunidades?

Impossível calcular o que já tenha sido perdido em relação às poéticas orais indígenas. A princípio, cada etnia possuiria uma organização própria dessas poéticas, vinculadas a ações diversas dentro da comunidade. Por exemplo, os indígenas pemons (dialogo com os povos Macuxi e Taurepangue) possuem forte organização verbal, não coloquial, em torno da palavra: elas estão presentes em torno de três conceitos mínimos: taren, eren e panton, respectivamente: palavras mágicas de cura (não adoto a palavra reza), cantos e narrativas – que podem ser oníricas, míticas, fabulares. Essa literatura está inserida na organização social desses povos. Elas são consumidas, se assim quisermos chamar, por eles, independentemente de nossa existência: dona Regina, da comunidade Aleluia, ainda canta nas madrugadas ao acordar; a comunidade do Maturuca, neste ano, dançará o parixara (dança que envolve música, letra, coreografia e ornamentação corporal) para comemorar os 40 anos do Basta, da resistência à presença da cultura do branco; pais e avós ainda narram histórias de seus antepassados e criam outras, atualmente mais relacionadas à resistência à presença do branco.

Nesse contexto, essas poéticas possuem funções específicas de diversão e cura, relacionadas à própria identidade desses povos, ao mesmo tempo em que eles, a priori, não pensam isso, mas vivem isso. Penso que a grande reivindicação dos indígenas atuais é de se mostrarem vivos e possuidores de uma cultura atuante, na maioria das vezes, distinta da dominante. Essa diferença é a grande contribuição a ser ofertada, coisa que não estamos, em geral, preparados pra receber. Talvez seja beleza demais, para lembrar uma fala de Darcy Ribeiro.

A representação dos indígenas em obras canônicas limita nossa compreensão da cultura desses povos?

Posso entender que limita e, ao mesmo tempo, amplia. A questão é que, do ponto de vista literário, a canônica foi praticamente a única representação que existiu como referência. Macunaíma, de Mário de Andrade, não é uma narrativa de Macunaima (herói de várias narrativas indígenas), de Clemente Flores, índio taurepangue, da comunidade Sorocaima I, ou de Terêncio Luis Silva, da comunidade Ubaru. Se tivéssemos sempre mais pontos de vista como de fato existem, a de Mário seria um acréscimo não limitante. Contudo, do ponto de vista literário, qual é a nossa referência do índio? A de Mário e a romântica de José de Alencar, leitura obrigatória nas escolas. O livro Uma poética do genocídio, de Antônio Paulo Graça, mapeia de forma competente como o cânone literário nacional concebeu de forma limitadora e genocida a presença do indígena na literatura nacional.

A existência indígena no Brasil ainda parece viver sob o signo da “preservação” (como se o esforço fosse apenas o de manter viva, ajudar a sobreviver), ao invés do signo da “valorização” (trabalhar de forma ativa pela sua existência e difundir sua cultura). Pode comentar essa ideia?

De modo geral, temos dificuldade em entender questões básicas dos estudos antropológicos, principalmente sobre o dinamismo das culturas e suas organizações particulares. O senso comum está eivado de preconceitos, justamente por não entenderem e aceitarem essas diferenças. A dinâmica, o próprio tempo nas comunidades é distinto daquele que vivemos. As organizações sociais, nem se fala. Temos de pensar que as quase 200 línguas indígenas ainda existentes no Brasil são base de organizações culturais distintas, com muitos pontos de encontro e desencontro. É muita diferença que está sendo achatada por nossa cultura dominante, cuja perda, a meu ver, é imensurável do ponto de vista cultural. O processo de valorização dessas culturas tem de passar por uma mudança mais ampla que, parece-me, não queremos fazer. Falo aqui daquela torção já mencionada.

A previsão é de que você lance em breve um livro com cantos indígenas transcritos. Como foi o processo de edição?

Como resultado desses quase 10 anos de envolvimento com os indígenas de Roraima, possuo 4 volumes prontos, intitulados Panton Pia’ (“junto”, “ao lado da história”): são três livros com entrevistas na íntegra, totalizando umas 1500 páginas. Neles, há perguntas diversas, desde a origem da comunidade, forma de vida, até narrativas literárias. Esse material já está editado, mas ainda inédito, aguardando recursos. O 4º volume foi aceito para publicação pelo Museu do Índio (RJ) e deve sair em breve. Nele, estão 79 cantos em língua original e traduzidos, além das partituras e os CDs com as músicas originais. Lidar com esse material é um trabalho homérico e não é feito por mim somente. Possuo uma equipe de alunos de graduação e mestrado que trabalham no processo, apesar de a edição final ser minha. As dificuldades principais estão relacionadas ao estabelecimento do texto e à tradução. Optei, por exemplo, nas narrativas, em preservar ao máximo a voz do narrador, sua linguagem informal, quando dita, está ali preservada. Nos cantos, optei por fazer um trabalho criativo, visual, numa perspectiva meio concretista, buscando dar movimento à letra no papel. A tradução se preocupou mais em criar imagens poéticas. Por trás, há uma tentativa de valorização do literário nesses cantos, destacando algo fundamental: a contemporaneidade da produção estética indígena.

SFbBox by casino froutakia