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Um ensaio sobre Ricardo Aleixo, nome incontornável da poesia contemporânea brasileira e dono de uma poesia em mutação. E ainda: a homossexualidade indígena; uma lembrança de Lillian Ross; sobre ler Alejandra Pizarnik; o último escrito de Ricardo Piglia

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O fruto estranho de Ricardo Aleixo

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José Castello

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Foto: acervo fundação gilberto freyre | Design: Janio Santos

Gilberto Freyre (1900-1987)jamais foi um cânone sem reparos. As interpretações de seu pensamento nos conduzem a uma espécie de unanimidade às avessas: seus textos permanecem ambíguos, irresolutos, ainda desafiadores para os fieis e ateus dele mesmo. Casa-grande & senzala, seu maior trabalho, completa 80 anos representando esse esforço admirável, sem comparações no pensamento social brasileiro. Tudo é amplo em Casa-grande, inovador, vário. Como afirma Maria Lúcia Pallares-Burke, uma das suas estudiosas mais influentes, antes de Freyre, jamais a história do patriarcado havia sido atravessada por tantas outras histórias. A história da infância, a história das mulheres, a história do corpo (em especial dos corpos dos escravos e do corpo feminino), a história da cultura material, da comida, dos vestuários, das habitações. Além de tudo, observadas tanto por seu lado funcional quanto simbólico e investigadas em fontes heterodoxas, como papéis de família, ficção, imagens, folclore, entrevistas, questionários, literatura de viagem, anúncios de jornal e, claro, obras científicas.

 

Freyre borrou limites, recriou métodos e enunciou tudo com mais estilo do que qualquer outro pensador brasileiro até hoje conseguiu fazer. O texto a seguir buscou três diferentes formas da paixão por Freyre, a partir da visão de alguns dos seus pesquisadores mais influentes ou, igualmente, controversos.

 

Pallares-Burke é professora aposentada da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e atualmente trabalha como pesquisadora associada do Centre of Latin American Studies, da Universidade de Cambridge. Seus trabalhos Gilberto Freyre — um vitoriano nos trópicos (2005), Gilberto Freyre: social theory in the tropics (2008), (traduzido como Repensando os trópicos: um retrato intelectual de Gilberto Freyre e escrito em parceria com o marido, o historiador inglês Peter Burke) e o recente O triunfo do fracasso — Rüdiger Bilden, o amigo esquecido de Gilberto Freyre (2012) formam um roteiro indispensável para os estudos contemporâneos do pernambucano.

 

“Em nosso Social theory, Peter e eu falamos que Casa-grande & senzala segue o modelo literário da ‘tragicomédia”, (usando a ideia de Hayden White). Tragicomédia porque sua narrativa conta uma história de conflito e sofrimento que produz um resultado relativamente harmonioso. Sim, pois um tema central de Casa Grande & Senzala é a maneira pela qual as ações violentas dos colonizadores e dos senhores do engenho — que incluíam sadismo e masoquismo e tornam plausível que tenha havido estupros de indígenas e africanas — levaram à miscigenação que resultaria, por sua vez, em uma situação de relativa harmonia racial”, defende a pesquisadora em entrevista ao Pernambuco.

 

Pallares-Burke diz que o contato com a obra de Freyre começou tardiamente, muitos anos após ter terminado seus estudos universitários no final dos anos 1960. Àquela época, levados por questões ideológicas, muitos como ela não se interessavam por ler um autor comprometido, segundo se sabia, com a ditadura.

 

“Penso que meu caminho para chegar a Freyre foi pouco convencional. Era o início do anos 1980 e eu fazia o meu doutorado sobre o papel formativo de um jornal cultural inglês do início do século 18, The Spectator. Esse diário publicado em Londres entre 1711 e 1712, de autoria de Richard Steele and Joseph Addison, fora um fenômeno jornalístico. Depois de retornar da Inglaterra, onde fiz a pesquisa para meu doutorado, soube, por uma amigo, da existência da obra de Freyre de 1948, Ingleses no Brasil, livro que me descortinou dimensões insuspeitas sobre a influência da cultura britânica no ethos brasileiro. (Como um parênteses, devo dizer que depois de anos e anos de tentativas frustradas, eu e Peter Burke conseguimos convencer a Embaixada do Brasil em Londres a patrocinar a tradução dessa obra para o inglês. Publicada em 2010, por ocasião da Festa Literária Internacional de Paraty, pode-se dizer que uma grande etapa foi ultrapassada com essa tradução tardia, mas talvez outra etapa igualmente difícil seja conseguir atrair a atenção dos leitores estrangeiros para ela)”, explica Pallares-Burke.

 

A autora afirma que tomou o livro de Freyre sobre os ingleses com o maior interesse e surpresa. Se entusiasmaria pelo modo como o pernambucano trazia à luz o papel dos “marias-borralheiras” britânicos na história do Brasil e pela forma inovadora como ele tratava o processo de interpenetração de culturas, abrindo espaço para que houvesse muito mais do que a imposição de uma cultura mais rica e poderosa sobre outra mais fraca e subalterna. Àquela altura, também estava descobrindo pensadores alemães e franceses — Gadamer, Jauss e De Certeau — que, desacreditando a ideia de que haveria uma identidade entre o “transmitido” e o “recebido”, reconheciam que a recepção de ideias, valores e tradições não era algo passivo e consumista, mas envolvia produção e criatividade — apropriações ativas e criativas que implicavam adaptações conscientes ou inconscientes a um novo contexto. Freyre apontava o Spectator como um dos agentes da cultura britânica no Brasil do século 19.

 

Quando decidiu escrever sobre Freyre, se deteve com atenção e especial em seus comentadores. Já tinha contato com Ideologia da cultura brasileira, de Carlos Guilherme Mota, e com o jurista Gláucio Veiga, “o mais terrível anti-Gilberto do mundo inteiro”, como o próprio Freyre certa vez observou. Leria Ricardo Benzaquen de Araújo, Evaldo Cabral de Mello, Antonio Candido, Luiz Costa Lima, Alberto da Costa e Silva, Roberto DaMatta, Marcos Chor Maio, Edson Nery da Fonseca, Fátima Quintas, Darcy Ribeiro, Elide Rugai Bastos, Ronald Vainfas e Fernando Henrique Cardoso.

 

Alguns dos trechos que mais a surpreenderam quando leu Casa-Grande pela primeira vez foram os que Freyre tratava do português moderno, ou seja, do português após o século 16 — deixando claro que as tão faladas plasticidade e adaptabilidade desse povo, um tema de Freyre que muitas interpretações enfatizam, já haviam desaparecido há muito tempo, para no seu lugar deixar um povo “com pretensões de grandeza”, vivendo de glórias passadas, fingindo ser o que não é. Freyre chega a falar de Portugal como um país que fica “na ponta dos pés”, querendo se equiparar às nações europeias.

 

“Ou seja, a obra de Freyre oferece ao leitor uma história complexa sobre consequências involuntárias, e não, como muitos o criticaram, a simples história de bons colonizadores criando um país invejável. A tendência à fraternidade que Freyre vê no Brasil não faz com que ele exclua de sua narrativa a existência de conflitos, ‘de choques de cultura’, de ‘explosões de ódio racial’, ou ‘terremotos culturais’, de ‘sadismo’ e outras manifestações de antagonismos não equilibrados. Mas, apesar disso, é também verdade, no entanto, que o elogio da miscigenação chega por vezes perigosamente próximo da afirmação de superioridade racial, o que levou certos críticos a dizer, como disse um deles, que Freyre defendia um ‘novo racismo: o racismo mulato’”, explica a autora.

Seu estudo mais recente, sobre o esquecido e aparentemente fracassado Rüdiger Bilden, amplia o quadro no qual Freyre se insere e pode contribuir para a compreensão de sua trajetória. Pallares-Burke afirma que apontando as ideias de Bilden que Freyre retoma e amplia, não pretende negar sua originalidade, mas tentar definir essa originalidade com maior precisão.

 

“Milhares de Bildens vivem e morrem esquecidos, seus sucessos escondidos atrás de uma aparência de fracasso. Recuperá-los pode revelar não só um elo esquecido na cadeia de descobertas e inovações, mas também os labirintos da vida intelectual e os insights valiosos que eles podem ter tido e que, com eles, se perderam.”

 

Ricardo Benzaquen de Araújo, 61 anos, formado em História na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, é autor de outro estudo de referência sobre Freyre. Guerra e paz: Casa-grande & senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30, cuja primeira edição saiu em 1994 e a segunda, de 2005, encontra-se esgotada. Atuando com professor no departamento onde se graduou, Benzaquen de Araújo afirma que teve duas leituras iniciais de Freyre. A primeira quando estava entrando na universidade, entre 1971 e 1972. Segundo ele, uma leitura por um lado superficial e por outro marcada por preconceitos e pela estranheza causada pelo estilo gilbertiano.

 

“O texto de Gilberto Freyre é muito peculiar, redigido de maneira incomum levando-se em conta a linguagem das Ciências Sociais ou a Historiografia mais praticada na época. A leitura, veja, foi indicada pela disciplina de Brasil I, dada por um amigo que já tinha sido meu colega no ensino clássico, professor Ilmar Rohloff de Mattos — autor de O Tempo Saquarema, sobre a história política do Brasil do Século 19. A imagem que se tinha de Freyre na época em que li Casa-grande & senzala era a de uma espécie de sociólogo oficial, ligado ao governo, à ditadura militar, como se dizia na época, um ‘sociólogo da Arena’”, lembra.

 

Já o segundo contato com Freyre permitiu uma leitura mais diversa. Foi quando fez uma apresentação sobre futebol, no Museu Nacional, e ao mesmo tempo começou a trabalhar numa pesquisa na Fundação Getúlio Vargas. Lá desenvolveu uma investigação sobre Plínio Salgado, junto a um grupo de pesquisa coordenado pela professora Lúcia Lippi de Oliveira. Benzaquen de Araújo publicaria um pequeno livro sobre Plínio Salgado e começaria, nesse contexto, a ler sobre relação entre modernismo e ciências sociais.

 

“Daí me interessei por Gilberto Freyre, assim como por Sérgio Buarque de Holanda. Mas, como conhecia muito mais profundamente Sérgio do que Gilberto, fiquei curioso de voltar a ele depois daquela experiência do começo dos anos 1970. Havia uma série pequenos trabalhos, ou de autores que o louvavam, ou de autores que retomavam a visão crítica muito dura que sempre se teve no contexto da esquerda. Era muito polarizado. Mas não lembro de ter encontrado nenhum grande estudo, monográfico, minucioso, mais acadêmico, sobre ele. A verdade é que no início dos anos 1980 tínhamos muito pouco contato com os estudos produzidos sobre Freyre e publicados pela Massangana, editora da Fundação Joaquim Nabuco”, explica o pesquisador.

 

Gilberto Freyre se definia como antropólogo, sociólogo, historiador. “Na época, em particular, eu tinha muito interesse nessa visão interdisciplinar. Isso era compatível com o que o Gilberto fazia, muito influenciado, aliás, pelo Franz Boas. Interessado em Antropologia, em especial a antropologia cultural norte-americana, assim como pela sociologia e pela História. Com um certo vínculo com os debates em torno do movimento modernista internacional e não necessariamente paulista. Lembro que ele tinha sido um leitor de James Joyce e da vanguarda norte-americana: Amy Lowell, Vachel Lindsay. Então pensei que seria interessante. Tinha uma hipótese que era examinar essa relação entre as ciências sociais e o modernismo. A partir do momento que comecei a lê-lo com mais cuidado, primeiro me dei conta que talvez valesse a pena me concentrar nos anos 1930, nos textos chamados clássicos. Casa-grande & senzala, Sobrados e mucambos, Nordeste”.

 

Atraíra Benzaquen uma definição do conceito de sociedade muito mais plástico, muito mais fragmentário do que se trabalhava habitualmente. O pesquisador conta que leu quatro vezes Casa-grande e quando estava quase desistindo, resolveu insistir em um ponto: havia em Freyre um conceito de sociedade que implicava ambiguidade, hibridismo, algo que diferenciava de certa visão praticada pelo modernismo paulista, em particular da associada a Mário de Andrade. “Este lidava com um nacionalismo muito duro, muito mais bem definido do que em Gilberto Freyre”, avalia Benzaquen.

 

Foto: acervo fundação gilberto freyre | Design: Janio Santos

 

“Hibridismo, mestiçagem, muitas condições diferentes convivendo ao mesmo tempo. Daí percebi que ele mesmo tinha consciência disso e recorria a ideia de ‘antagonismos em equilíbrio’. Chamar atenção que não só a sociedade mas a própria língua portuguesa no Brasil se convertia nesse ser, digamos, composto. Formado por distintas influências que não se fundiam dando origem a um ser mais definido. Não se tratava de uma espécie de síntese, mas ao contrário. As marcas de origem se mantinham por mais distintas que ela fossem”, explica.

 

Além dessa polifonia, lembra ainda o pesquisador, existia o fato de que tudo era atravessado por excessos: paixões. Culturas muito diferentes, coexistentes, e afirmadas com muita intensidade. O que tornava a sociedade brasileira ainda mais efervescente.

 

“Outra categoria importante em Gilberto é a de ‘requinte’. Que se refere a alguns personagens do século 19 ou mesmo a membros da elite recifense. Todos marcados por um tipo peculiar de excesso que é justamente o oposto do que havia no período colonial. É o excesso de ordem. Espécie de desbotamento do mundo. Importante lembrar que, não por acaso, ele escreve como quem fala — e é uma fala na qual combinam-se diferentes contribuições. Tanto africanas, como europeias. O que produz um texto muito peculiar, marcado por certa falta de rigor, idas e vindas, um tom de conversa. Espécie de bate-papo, bate-bola, zigue-zague, enfim, o que caracteriza o ensaísmo de Gilberto. A minha sensação é que essa escrita tem a ver com o próprio fato que ele escreve contra esse Brasil ‘sobrados e mucambos’, que ele analisa no título. Não se trata de reacionarismo, de proposta de retornar ao estilo da colônia. Ele não era ingênuo, sabia muito bem que seria um argumento completamente absurdo. Mas com os meios que estão ao seu alcance talvez interessasse a retomada de parte daquela variedade, diferenciação, ambiguidade que ele havia identificado na colônia. Mesmo insistindo no fato que ali se convivia com a escravidão, com a crueldade, longe da escravidão risonha, simpática, uma relação amorosa”, pontua o pesquisador.

 

Ainda segundo Benzaquen, para Freyre, é como se ao longo do século 19 se mantivesse o pior do período colonial — a escravidão, com o afastamento entre os senhores e escravos através do excesso de ordem, através do requinte. Trata-se de outro tipo de escravidão. Freyre se esforçaria, então, em fazer com que certas medidas fossem tomadas para que parte dessa experiência variada e intensa que ele identifica no período colonial pudesse retornar. O tom marcado pela oralidade faria parte desse esforço.

 

Silvia Cortez Silva, 76 anos, talvez seja a autora da pesquisa mais controversa sobre Freyre, realizada no Doutorado em História Social da Universidade de São Paulo, sob orientação de Maria Luiza Tucci Carneiro. Em 2010, quando publicou o texto da tese, Tempos de casa-grande (1930-1940), conta que encontrou grande resistência entre os colegas na Universidade Federal de Pernambuco e demais estudiosos de Freyre do Recife. “O silêncio muitas vezes é pior que uma discussão”, lamenta.

 

Cortez Silvia compara Freyre com Erasmo de Rotterdam, segundo ela, o primeiro escritor “marqueteiro”. “Erasmo promove uma política para ser conhecido. Os Países Baixos na sua época não tinha qualquer expressão, e o que é que ele fazia? Trocava figurinhas com pessoas conhecidas, como Thomas Morus, que estava na Inglaterra. Quando alguma correspondência chegava, ele corria para tentar publicar nos jornais. Erasmo tinha amigos que o louvavam ou criticavam, mas era tudo combinado. Isso dá certinho no perfil de Gilberto Freyre que se autopromoveu o tempo inteiro. Tinha até cuidado para não aparecer mal numa fotografia. Chegou a encrencar com o pessoal da Ensaios universitários, publicada pela editora da UFPE, porque foi publicada uma foto em que não estava bem. Afirmou que a turma estava fazendo aquilo de propósito”, revela a professora.

 

Mas como se aproximou de Freyre? Conta que sob a orientação de Maria Luiza Tucci Carneiro passou a estudar os teóricos do antissemitismo e do racismo. Apresentou trabalhos, passou por uma longa bibliografia. A orientadora, então, sugeriu que investigasse o antissemitismo que está em Casa-grande & senzala.

 

“Eu estava com os óculos da teoria e comecei a reler Freyre, tanto observando seu próprio discurso como suas citações. Por exemplo, ele cita o maior antissemita português, João Lúcio de Azevedo, a quem se refere como ‘adorável velhinho’. Uma figura cultuada”, explica Cortez Silva.

 

Segundo a pesquisadora, Freyre é protegido por um séquito que repudia críticas e silencia visões pouco entusiastas do pernambucano. “Elias Canetti é que dá uma definição espetacular sobre o ‘coro’: ‘o famoso adora o coro. Aqueles que falam seu nome em vida e incessantemente depois de morto’. No caso, é o que eu chamo de coro gilbertiano, cujo corifeu, o chefe, é o professor Edson Nery da Fonseca, ‘o maior gilbertólogo vivo’”.

 

Cortez Silva conta que não esperava nenhum tipo de repercussão da pesquisa. “Só que, quando fui realizar a defesa, foi ao hotel onde eu estava hospedada um repórter da Folha de São Paulo e fez uma entrevista sobre meu trabalho. Na sala da defesa, estavam minha família e um rapaz bem jovem. Era o tal repórter. Mauricio Stycer. Quando foi no dia 19 de novembro um colega me ligou e disse ‘se prepare que a Ilustrada está circulando com você lá: ‘Pesquisadora pernambucana descobre lado obscuro da obra de Gilberto Freyre’. Dentro havia matérias enormes, de Ricardo Benzaquen de Araújo e de outro pesquisador. Mas nenhum deles teve acesso ao meu texto e falavam coisas gerais. Minha mãe era viva e se apavorou: ‘minha filha eu dizia tanto a você, não escreva nada contra esse homem. Mas você é parecida com seu pai, gosta de se meter em confusão’. Aí meu filho dizia: ‘vovó, a única coisa que você pode fazer é rezar pra não jogarem mamãe no Açude de Apipucos”, lembra a pesquisadora.

 

“Mas não queira saber como foi a reação na UFPE”, conta ainda. “Colegas faziam que não me conheciam. Trataram-me como leprosa. Além dos amigos mais íntimos, a única manifestação de apoio que recebi foi de alunos de DCE que colaram um recorte da matéria no mural e foram até a minha sala conversar comigo. O que doeu mais foi o silêncio”.

 

Silvia Cortez Silva lembra que Maria Lúcia Pallares-Burke escreve que Freyre era simpatizante da Klu Klux Klan. “Quando voltou dos Estados Unidos ele pensou que seria útil uma KKK por aqui em Pernambuco. Bem, se você acha que não tem nenhum envolvimento com a história, você não precisa fazer exame de DNA para provar que você tem sangue judeu. O neto de Freyre fez. Provou que era. Mas o fato de se provar que era judeu de forma alguma libera você do fato de ser antissemita”.

 

Ainda sobre a recepção de seu livro, Silvia Cortez afirma que Edson Nery escreveu dois artigos. Num deles, ele a chama de “a professorinha pernambucana”. Depois, o professor César Leal, falecido recentemente, escreveu um artigo dizendo que os professores iam fazer doutorado na USP para ganhar uns trocados e afirmando que a banca havia sido conivente com sua tese. “Então tentei ter resposta no Diario de Pernambuco e nunca consegui”, revela.

 

A pesquisadora permanece firme na visão negativa que encontrou de Freyre: “Quando ele não é o autor ele é o arauto de pessoas ligadas ao antissemitismo e ao racismo. Nestes temas, ele nunca é muito enfático. Usa termos como ‘talvez’, ‘quem sabe’. Mas ele claramente escolhe o negro mais eugênico. Diz que o negro eugênico gerará filhos eugênicos”.

 

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