capa 141Obra sempre em obras

Um ensaio sobre Ricardo Aleixo, nome incontornável da poesia contemporânea brasileira e dono de uma poesia em mutação. E ainda: a homossexualidade indígena; uma lembrança de Lillian Ross; sobre ler Alejandra Pizarnik; o último escrito de Ricardo Piglia

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O fruto estranho de Ricardo Aleixo

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José Castello

Everardo Norões

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A maior qualidade deste livro magnífico de Milton Hatoum está na linguagem trabalhada com elegância e leveza, capaz de conduzir o leitor pela sedução da frase e pelo desenvolvimento das cenas, com cenários que, embora sutis, levam os personagens a situações delicadas e elaboradas, mesmo quando são fortes ou muito fortes. Não sem razão, a crítica — sobretudo a crítica francesa — viu nele uma sofisticação próxima de Proust, sem no entanto tornar-se uma influência forçada e definitiva, mas um tipo muito correto de parentesco, de pulsação narrativa e de montagem do enredo, sem que se trate, nunca, do enredo convencional.

 

Além disso, há em todo o livro uma espécie de meta-romance, quando o narrador procura revelar as suas preocupações com a montagem do texto, sobretudo nas últimas páginas, quando debate as dificuldades para a ordenação dos episódios, uma das questões mais sérias e mais complexas da obra de arte de ficção, porque Milton não escreve apenas um romance, mas investe, sinceramente, numa obra de arte de altíssima qualidade.

 

Ao lado disso, Milton trabalha, com grande habilidade, a procura da personagem de forma a conduzir o leitor com uma incrível habilidade. Nada é muito claro, mas nada também é obscuro. Emilie, aquela que seria o segredo do texto, está logo ali nas primeiras páginas, mas não perde o seu mistério, a sua graça. Mesmo revelada, e também revelado o destino da família, tudo se realiza como se o texto fosse uma espécie de biombo, como se o que deve ser dito ainda está escondido, sobretudo com estas mulheres que não perdem o mistério e o segredo, de forma a criar novos abismos de curiosidade.

 

Emilie e a narradora são extraordinárias, sobretudo quando se deixam desenvolver pela habilidade das palavras. Neste livro, Hatoum se mostra por inteiro, com toda a sua perícia técnica, de forma a se revelar como um dos autores mais notáveis da literatura brasileira contemporânea, numa carreira sedimentada por obras posteriores, mesmo considerando-se que Relato de um certo orientepermanece vivo na estante e na alma do crítico e do leitor. Na verdade, um livro a desafiar a construção da nossa arquitetura literária.

 

Por tudo isso, pode-se destacar em Milton Hatoum não apenas o autor de Relato de um certo oriente — por si só, uma consagração —, mas de uma obra que se desdobra em outros romances, sobretudo Dois irmãose Cinzas do Norte— capazes de representar o verdadeiro desenvolvimento de uma literatura inteira. As personagens, tornadas possíveis num texto exemplar, parecem figuras feitas da matéria de um sonho — sem que percam a qualidade em qualquer momento, sempre plenas e vivas, sem cair no lugar comum, conviventes de cena a cena, sobretudo porque o autor não perde tempo com caracterizações inúteis, com retratos mal elaborados. São, absolutamente, criaturas literárias, criaturas artísticas, que revelam, com certeza, o compromisso do autor com a estética e nunca com a ciência do dia a dia da vida. Por tudo isso, pode-se dizer quer o romance mantém o folego desde a primeira até a última página. Sempre estive convencido disto.