capa 141Obra sempre em obras

Um ensaio sobre Ricardo Aleixo, nome incontornável da poesia contemporânea brasileira e dono de uma poesia em mutação. E ainda: a homossexualidade indígena; uma lembrança de Lillian Ross; sobre ler Alejandra Pizarnik; o último escrito de Ricardo Piglia

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O fruto estranho de Ricardo Aleixo

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José Castello

Everardo Norões

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Chico Ludermir e Karina Freitas

Esta reportagem poderia chamar-se “Sobre o romance que adoece o leitor”. Outro nome possível é “Não outra coisa, mas aquele mesmo deserto” ou “É que um mundo todo vivo tem a força de um inferno”, ou ainda “50 anos de A paixão segundo G.H.”. E também “Como matar baratas”. Farei então pelo menos cinco histórias, verdadeiras porque nenhuma delas mente à outra. Embora uma única história, seriam mil e uma, se mil e uma noites dessem.

 

Em outubro de 1964, há 50 anos, o clima era sombrio no Brasil. Surgem novas expressões para dar conta da vida no território nacional: “linha dura” e “linha branda” concorrem aspirando ainda algum equilíbrio, talvez um pouco cínico, pois imprimindo ambas a ideia de seguir uma linha, manter-se dentro das fronteiras de uma ordem. Chove muito no sul do país. O Evangelho segundo São Mateus, de Pasolini, estreia na Itália. Cinquenta pessoas cavam um túnel sob o muro de Berlim. Há sete meses, um golpe havia instaurado uma ditadura militar no país. A caça aos comunistas tornava-se cada vez mais implacável. Exonerados, cassados e presos políticos começam a engordar uma lista que, hoje sabemos, torna-se mais negra e mais longa com o passar dos anos. No dia 6, cerca de três mil funcionários públicos foram demitidos. Em Pernambuco a polícia empreende uma caçada ao lavrador Antônio Joaquim de Medeiros (vulgo Chapéu de Couro), homem de confiança de Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas. Neste mês, “os cinco livros mais vendidos em São Paulo são de autores ‘subversivos’: Os pastores da noite (Jorge Amado), Sexta-feira na 13 (Abelardo Jurema), O ato e o fato (Carlos Heitor Cony), Dialética do desenvolvimento (Celso Furtado) e Tempo de Arraes (Antonio Callado)”, escreve Ana Maria Bahiana, no seu Almanaque de 64, que empresta a essa matéria todas as informações descritas acima. “Esse período” — comenta a jornalista — “de um modo geral é de intensa produção literária, novos autores experimentando com temas e linguagem. Olhando em perspectiva, a violência silenciadora do golpe se torna ainda mais monstruosa quando vista nesse contexto”.

 

Pela Editora do Autor, fundada por Rubem Braga, Walter Acosta e Fernando Sabino nos anos 1960, Clarice lança um livro tão obscuro quanto o ano de 1964: A paixão segundo G.H. A sinopse: uma mulher de classe média do Rio de Janeiro demite sua empregada doméstica. Resolve arrumar a casa, e começa pelo quarto dos fundos, onde vivia Janair. Chegando lá, inicia um processo profundo de desconhecimento e mergulho interno, alcançando o estopim ao espremer uma barata entre as portas de um armário e degustar do seu corpo repugnante. O que há de 1964 em G.H.? “Creio que se a gente pensa não a política na literatura (que quase sempre resulta panfletário, endurecendo em doutrina) e a política da literatura (que tenta desestabilizar o real puxando o tapete dele, a linguagem); aí, acho que Clarice faz isso bem, Mallarmé faz isso bem; sem precisar levantar o punho — mas não é menos contundente balançar, pela suspeição, a ordem das coisas; A paixão segundo G.H. é exemplo disso: alguém que é levado além de si”, comenta Lourival Holanda, pesquisador, crítico literário e professor de Letras da UFPE.

 

Levar-se além de si, nos anos de repressão, não pode deixar de ser considerado um ato revolucionário. Recusar-se a si mesmo, destruir-se através da linguagem e retornar modificado, capaz de então destruir as ideias de verdade e real. É a metáfora da vida intensa, como diriam os foucaultianos. G.H. instaura-se novamente, dá a si um novo nascimento, com todas as dores que envolvem nascer. “Alguém que é levado além de si naliteratura”, ressoa uma mistura confusa e reveladora da declaração de Lourival. É a história de uma metamorfose. “Enfim... Clarice, aquela que se deixou incendiar na fogueira da linguagem”, nas palavras de Affonso Romano de Sant’anna. Completo: e puxa consigo seu leitor, que tem algo de devoto, e não questiona nunca a empreitada.

 

“Sempre me intriguei muito com o fato de Clarice ter publicado G.H. exatamente em 1964, de tê-lo escrito e publicado em um momento no qual a realidade, o país, ferviam. Fuga? Não creio que seja tão simples. Clarice nunca foi de fugir das coisas. Talvez um cansaço, isso sim, com a inevitável fragilidade humana, que a política expressa tão bem. No momento em que a feridade dessa fragilidade estava aberta, sangrava, Clarice resolve fazer perguntas mais profundas, que ninguém ousava ou tinha tempo para fazer”, reflete José Castello. E dialoga com a questão de Lourival: “O que é G.H. senão um livro sobre a possibilidade — talvez fosse melhor dizer, a impossibilidade — da linguagem? A linguagem como nosso único, mas também precário, lar? Talvez a agitação política tenha levado Clarice a se perguntar por essas relações de fundamento que, na enxurrada das notícias, costuma se perder. A política é a arte da retórica - mas a literatura nada tem a ver com a retórica, o bem falar, o bem dizer. Ao contrário: a literatura se relaciona com aquilo que não pode ser dito. Talvez Clarice tenha escrito G.H. contra o império da retórica que, boa ou ruim, decente ou indecente, não importa, se alastrava pelo país”.

 

Não outra coisa, mas o mesmo deserto

O primeiro parágrafo desta reportagem não é somente meu. Mais ou menos assim, Clarice Lispector começa seu conto “A quinta história”, do livro Legião estrangeira, também publicado em 1964. Mais ou menos assim, Affonso Romano de Sant’anna começa o seu célebre estudo “O ritual epifânico do texto”. Incorporar Clarice para falar de Clarice é como uma premissa, um marco zero de leitura: “Não é assim que se começa uma análise de texto, mas é assim que se deve começar a análise deste texto de Clarice”, escreve Romano no seu artigo. José Miguel Wisnik, em aula proferida através do Instituto Moreira Salles, diz que para ler Clarice é preciso não massacrar suas entrelinhas, como ela mesma pede nos seus textos. Para falar de Clarice Lispector é preciso, principalmente, que não entendamos demais ou, pelo menos, que não a entendamos por uma via pré-estabelecida. “Porque é como se esse acercamento à coisa tivesse que ser feito de uma maneira que ela tem que ser nomeada e desnomeada continuamente. A gente não pode classificar ou imobilizar a coisa através de palavras que a fixasse. Tem um movimento permanente de uma aproximação, que é uma pergunta pelo nome da coisa sabendo-se que a esse nome nunca se chega propriamente”, explica o pesquisador.

 

“O romance é escrito todo de capítulos cuja primera frase de um capítulo é sempre a última do capítulo anterior como se ele fosse enleado pelo moto-perpétuo que vai a levando inexoravelmente a abocanhar a barata, comer a barata, ou a lamber a barata. É essa a aproximação que, quando se dá, se dá um lapso, ela nem lembra desse momento como se a aproximação a esse real fosse no limite e permanecesse impossível”, completa Wisnik.

 

A própria Clarice, em G.H., escreve, na página 72: “e nesse mundo que eu estava conhecendo, há vários modos que significam ver: um olhar o outro sem vê-lo, em possuir o outro, um comer o outro, um apenas estar num canto e o outro estar ali também: tudo isso também significa ver”. Castello leu G.H. pela primeira vez aos 18 anos. Caiu doente, de cama, vítima de alguma misteriosa doença: não era possível saber se tratava-se de uma virose ou uma depressão. A família chamou um médico. “Depois de me examinar, ele se virou para minha avó e disse: ‘A senhora não se preocupe. É apenas uma paixonite’. Foi a crítica literária mais precisa que já ouvi. Lendo-me, o médico leu A paixão segundo G.H.e seus efeitos em mim”.

 

Em julho de 1991, o mesmo Castello e Otto Lara Rezende tomam um uísque em um bar do Leblon. Ao ouvir Castello pronunciar o nome de Clarice, Lara Rezende respira fundo: “você deve tomar cuidado com Clarice. Não se trata de literatura, mas de bruxaria”. Não fica claro se é uma piada, uma frase de efeito ou a mais pura verdade. Castello estremece, se enche de cautela.

 

Para Hélène Cixous, pesquisadora francesa da obra de Clarice, a escritora brasileira não escreve em português, mas em Lispector. A hiperconsciência de Clarice em relação à lingua e seu desterro geográfico é o que, segundo Cixous, eleva sua obra a um lugar único. José Castello diz que só uma pessoa que não se adapta à língua, que a revira, que dela desconfia, pode escrever uma obra como a de Clarice. “Quando um leitor se apaixona por um escritor, o leitor se torna o escritor”. Para ler Clarice, parece ser impossível não incorporá-la, não comê-la assim como G.H. come a massa branca da barata. Envolve disposição, e sobretudo paixão, contaminação. “O escritor argentino Ricardo Piglia disse certa vez que toda a literatura pode ser reduzida a dois gêneros fundamentais: as narrativas de amor e as narrativas de mistério. Em G.H., essas duas claves básicas da ficção se entrelaçam. Pois é justamente a mistura letal de amor e mistério que chamamos de paixão”, resume Castello. A leitura de G.H. detona paixões e leituras excessivamente pessoais, como se o leitor assumisse o hermetismo da personagem e imprimisse a camada do seu próprio hermetismo, que só a ele diz respeito, por cima da camada do texto. Dizem que Caio Fernando Abreu tinha medo de olhar no espelho e eventualmente ver Clarice. Precisou libertar-se dela para achar sua escrita.

 


Chico Ludermir e Karina Freitas

 

É que um mundo todo vivo

tem a força de um inferno

O português perfeito ornado por um sotaque desconcertante de fundo, enquanto fala sobre literatura, me remete imediatamente a Clarice, como se ouvisse falar um fantasma. “A lógica é uma parte mínima da vida, uma ferramenta de entendimento. Há muito ainda além disso”, diz Claire Varin, no seu português lispectoriano.

 

Claire é canadense, doutora em Letras pela Universidade de Montreal. Na mesma conversa citada há pouco, Otto Lara havia alertado José Castello sobre uma tal pesquisadora que andava pelo Brasil: não se tratava de “uma atração intelectual, mas de uma possessão. Claire está possuída por Clarice”. Claire não aceita a ideia de possessão revelada na conversa entre os dois escritores, mas defende o que chama de “método telepático” para ler Clarice. Quando peço que explique, ela me censura: “Querer entender não serve... Ou então entender não com a inteligência racional mas com a inteligência sensível (já que segundo o que aprendi num curso de psicologia na universidade — aliás um curso chato — tem 120 formas de inteligência!). E ela mesma não disse que o mundo é extremamente recíproco? Então. E disse também para alguém: como é que você se sente ao ler meu livro? Então é assim que me sentia ao escrever...”. O método telepático continuou envolto em mistério, mas talvez seja o recurso de todos os leitores mais devotados de Clarice: misturar-se, adoecer de Clarice.

 

Claire fala com agilidade, alguma ansiedade, detendo-se raramente em algumas palavras que lhe escapam. “Ela era uma mística, mas não uma mística ligada à religião, entende? Era mística no sentido de uma extra-sensibilidade. Ela poderia, por exemplo, ser uma monge zen budista! (risos). Mas Clarice orientou toda essa sensibilidade para a produção literária. E o que vemos é uma verdadeira via-crucis (a paixão), como no caso G.H. Uma desconstrução constante, uma longa meditação sobre a vida”.

 

Em 1979, durante uma palestra da pesquisadora francesa Helene Cixous, sobre Clarice Lispetor e Rainer Maria Rilke, Claire Varin tinha por volta dos 27 anos. Enquanto falava de Clarice, em um auditório da Universidade de Montreal, Cixous, segundo Varin, falava da lição da lentidão, do mito da morte de Clarice, e outros assuntos que encantaram a futura pesquisadora. “Era possível sentir na palestra que a Helene Cixous foi arrebentada, tomada a tal ponto! Dizia que Clarice era a maior escritora do século 20”, diz Varin. Imediatamente foi em busca de A paixão segundo G.H., primeiro livro de Clarice com o qual teve contato. “Entrei de uma vez só no livro, uma vertigem. Nunca havia lido algo parecido. Eu podia enfim me identificar com um escritor, com uma mulher, integralmente”.

 

Claire decidiu largar tudo e mudar-se para o Brasil, aprender português, mergulhar na vida e na obra da escritora brasileira. Era natal, 40°C no Rio de Janeiro, cinco anos depois da morte de Clarice. Claire pode sentir o bafo quente do clima assim que as portas do avião se abriram. Saía de um inverno canadense rigoroso e de repente caminhava pelo Leme, tendo a mesma vista do mar que Clarice tinha. “A paixão segundo G.H. foi a descoberta da minha vida”, diz a pesquisadora.

 

Sobre o romance que adoece o leitor

No livro Com Clarice, publicado no ano passado em parceria com Marina Colasanti, Alfredo Romano de Sant’anna conta que quando dirgia a Biblioteca Nacional, foi fundada a “Sociedade das Amigas de Clarice”. Diz: “Leitores de Clarice vivem noutra dimensão. Já disse que reconheço uma leitora de Clarice a 500 metros de distância, pois leitor (a) anda a dois centímetros do chão”.

 

Era um fim de semana ensolarado no clube Campestre de Porto Alegre. À beira da piscina social o burburinho do clube passava longe dos ouvidos de Cíntia Moscovich, então na casa dos 20 anos. “Foram dias de ficar surpresa e muito, muito encantada. Parecia que tinha descoberto a diferença entre o que era e o que não era importante”, diz Cíntia sobre a sua leitura de G.H. Anos antes, havia lido Laços de família por indicação de um professor, seu primeiro contato com Clarice, e diz ter entendido tudo o que não havia entendido até então. Para a escritora, G.H. é um dos livros mais emblemáticos da Clarice. “É um livro de ação interna efervescente, no qual aparentemente nada acontece em termos de movimento — e sabemos que é a ação que funda o romance. Para entrar nesse mundo da Clarice e da Paixão, deve-se estar nessa batida de ampliação ou alteração de consciência, os sentidos apurados, aquela luz absurda batendo nos olhos. Uma vez que se ingresse nesse mundo de luz e de inação, de nojo e de sedução, as leituras são infinitas”, acredita a escritora.

 

Entrevejo o rosto de José António Barreiros numa foto pequena ao lado do e-mail que me envia com suas respostas. Um olhar austero por trás dos óculos de grau, os cabelos branquíssimos e um ar levemente desatento me lembrou Manoel de Barros. Parece-me já de cara uma impressão errada. José é português, advogado e editor da Labirinto de Letras, tem 65 anos e vários blogs, que cuida e atualiza com o esmero que se espera de um editor. Um deles é dedicado a Clarice e sua irmã, Elisa (também escritora, de sucesso infinitamente menor que o da irmã). A escrita em português corretíssimo, deixa entrever em algumas postagens um desdém pelo sucesso que a autora alcançou em Portugal e as leituras superficiais: “para muitos é apenas o superficial da frase solta”. Comecei a ler Clarice, com afinco, em 2006, quando a sua obra era escassamente conhecida em Portugal”, afirma. A paixão segundo G.H. foi uma de suas leituras mais tardias, através de uma edição portuguesa da Relógio de Água. “A ininterrupta narrativa de A paixão(gosto de chamar assim ao livro aniversariante, como se de um Requiem se tratasse) não considero que a tenha lido. Nunca se pode dizer que se leu um livro de Clarice”, escreve José. “Nela a extensão é a profundidade, o efeito labiríntico de espelho, o infinitamente pequeno conter o indizível infinito. Neste, cada capítulo é o retorno ao final do antecedente, a narrativa surge traçada porque oriunda de um mundo já em curso e segue, traçada também, para a bruma do além”, explica o editor, com o ar de devoção que tem ao falar da obra.

 

Sob o mesmo sol de Lisboa, a jovem poeta portuguesa Patrícia Lino nasceu em 1990, e responde assim quando peço que descreva seus sintomas na leitura de G.H.: “1, 2, 3. Inspira, expira. 1, 2, 3”. Continua, depois do respiro: “A paixão é um romance que me assusta bastante e claro está que, à primeira, não prestei atenção ao perigo para que Clarice nos alerta à entrada”. Patrícia refere-se ao “aviso” de Clarice no início do livro. Ela diz que o livro é como um livro qualquer, mas que “ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aqueles que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente — atravessando inclusive o oposto daquilo de que se vai aproximar”. A verdade é que ninguém sabe que vai perder a terceira perna até perder efetivamente a terceira perna. Todos, ao encarar a frase do início devem se perguntar: eu tenho uma alma formada? “E não, continuo a não fazer a mais pequena ideia de como é ter a alma formada. Ter uma alma formada, guardar A paixão na biblioteca pessoal, temê-la como se teme um sismo e, ainda assim, aconselhá-la aos outros com regularidade é um eterno paradoxo. Se há coisa que a Paixão faz é desformar.”

 


Chico Ludermir e Karina Freitas

 

Patrícia é idealizadora do Projeto Clarice, que desde 2008 divulga a obra de Clarice ao redor do mundo. O grupo tem uma página com mais de 400 pessoas. Durante as sessões de leitura que o projeto promove, ela diz ser normal que lhe perguntem o livro preferido de Clarice. “A Paixão segundo G.H., respondo. E é legítimo que, logo depois, me peçam um resumo da obra (como se isso pudesse justificar de imediato o meu gosto e, ipso facto, a minha escolha). Ora resumir A paixão como poderia resumir, por exemplo, Coração, cabeça e estômago ou qualquer outro romance de Camilo, caso mo pedissem, não é possível. De edição para edição e arredondando os números, é possível descrever, através de um fio narrativo pobre em detalhes, as primeiras 40 páginas. A partir da página 40, estamos muito longe daquilo que generalizadamente entendemos por concretude. E de que nos poderia servir a concretude? De nada, rigorosamente de nada. Não há conforto que nos valha”, atesta.

 

A mãe da produtora Jam Pawlak, que também participa do Projeto Clarice era ucraniana, como Clarice. Alexandra Mikita tinha orgulho de haver nascido no mesmo país da escritora. Lia e relia Laços de família, com insistência, durante os anos 1960, repetindo sempre a frase “não esqueci de nada?”. Jam, por influência da mãe, tornou-se fã da escritora. “Lembro da minha primeira leitura de G.H.com um pouco de aflição e nostalgia, foi simplesmente extraordinária! Eu me perguntava, que palavras eram aquelas? ‘Sou cada pedaço infernal de mim’... psicologicamente em farrapos, atormentada por emoções contraditórias, alimentando sonhos, fugindo da realidade com pesar. Clarice me deixou com febre de viver, de correr riscos, de encontrar a minha paixão, paixão sufocada pelo tempo, esquecida do outro lado do oceano. Sim, Clarice me afetou com o néctar das palavras que me sufocavam e ao mesmo tempo me libertavam do obscuro medo de tentar mais uma vez, somente uma única vez! Era coragem brotando de cada página...”.

 

Para Gonzalo Aguilar, professor de Literatura Brasileira da Universidade de Buenos Aires, e um dos maiores especialistas do país na obra de Clarice Lispector, se lida a partir da literatura brasileira, a partir do feminismo, a partir de uma chave social ou política, enfim, a partir de qualquer chave adotada, A paixão segundo G.H. agrega palavras supreendentes. “Mas o que fica cada vez mais claro é que o romance excede a todas e através de um conflito mínimo coloca o problema central de como incorporar o outro”. Para ele, esse outro pode estar em qualquer chave interpretativa, em qualquer sintoma pessoal. “Para mim, pessoalmente, G.H. é um livro de viagens, um esforço corporal da escritura como se vê nos roteiros que iniciam no périplo do protagonista para modular novos sujeitos em seu próprio corpo, percepção em linguagem”.

 

Para Vilma Arêas, escritora e pesquisadora da obra de Clarice, “a figura da mulher, sua esterilidade, seu diletantismo (não consegue se comprometer com a arte) e o julgamento que ela recebe das classes populares, representadas pela Janair, que aliás é pintada com as cores da barata” é uma das chaves de leitura do livro. “Para mim existe um imenso sentimento de culpa no romance”, diz a escritora. No mesmo curso de Vilma Arêas, a pesquisadora Solange Ribeiro de Oliveira tem um livro chamado A barata e a crisálida. Nele, a professora fundamenta um conflito de classes. Para ela G.H. habita uma superestruta social e o quarto da empregada seria o bas-fond.

 

As interpretações místicas de G.H.também são constantes. Segundo Vilma Arêas, “comer a barata pode ser lido como uma comunhão às avessas”. Para Fernando de Mendonça, escritor e doutor em Letras pela UFPE, a chave para desvendar G.H. é uma leitura Teopoética, teoria que une teologia e literatura para interpretar obras que tocam em conceitos de ordem sagrada/religiosa. “Não tenho dúvida de que é uma chave essencial para o texto de Clarice que, desde o título, evoca o imaginário bíblico, no símbolo da paixão de Cristo. Minha pesquisa, ou seja, minha visão sobre o livro, focou a noção de Desamparo sofrido pela protagonista, que repete constantemente este sentimento à luz do desamparo cristão (lama sabactani)”. Mas afirma que é impossível limitar o livro a uma visão. “A grandeza da obra está, justamente, em mediar todos os seus anseios no cerne da linguagem, nos problemas do texto, da palavra. Isto é literatura, isto é o inesgotável”, explica o pesquisador.

 

------------------ Estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender

Milena Paixão é escritora, estudante de literatura na Universidade do Chile. Revira as memórias de dez anos atrás para reencontrar com o romance. Pensa: “não vou revisitar o livro, revirar somente minhas memórias”. Lembra-se: a luz que batia no espaço daquele quarto onde entrou a mulher. Tenta achar a sensação da leitura, aquela esfarelada pelo tempo. À vacuidão das lembranças físicas, vem a nitidez de como se sentiu: o assombro, a solidão compartilhada, um certo nojo, ternura. “Não tenho pudor em dizer que minha relação com Clarice é assim: entendo-a de um modo muito sensorial. Não decoro frases, elas entram pelos olhos e se acomodam onde querem, ficam ali pousadas, vivendo. A roupa de palavras se vai, fica o cerne, algo encasulado, não sei. Tenho a impressão de que às vezes essas frases despertam em mim anos depois, outras continuam aqui, enoveladas”, conta.

 

A coisa é que ao final, morta de curiosidade, Milena pega A paixãona estante. Na folha de rosto, um rabisco confirmava: 2004. Nas folhas, seus sintomas grafados, na ânsia de não esquecer as frases todas. Ladeando as páginas, comentário a lápis: “me sinto assim às vezes”. “Mostrar àquela pessoa”, “refúgio”. “De nada disso eu lembrava, e abracei o tomo com força, como se eu mesma me contasse um segredo. Como se eu abraçasse um diário de dez anos atrás, de ontem.”