capa 141Obra sempre em obras

Um ensaio sobre Ricardo Aleixo, nome incontornável da poesia contemporânea brasileira e dono de uma poesia em mutação. E ainda: a homossexualidade indígena; uma lembrança de Lillian Ross; sobre ler Alejandra Pizarnik; o último escrito de Ricardo Piglia

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O fruto estranho de Ricardo Aleixo

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José Castello

Everardo Norões

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Ilustração por Karina Freitas

 

Palavra é fantasma. Perambula feito sombra imprecisa das coisas, mesmo quando se quer plena e cheia de contornos. Nós, bichos tão verbais, vivemos em busca daquela palavra exata que caiba no vão do peito, no transbordar das coisas, no bilhete que rompe, no início do capítulo, na frase curta da caixa-postal. “Luta vã”, já disseram ao travar essa mesma batalha. E quando não grafada, dizê-la parece fantasma ainda mais impalpável, música que vibra de um corpo colado no espaço e no tempo. Mas há quem faça literatura com essa massa sonora e fugidia, moldando versos no ato da fala e guardando tudo em caixas secretas e internas. Severina e Mariano fazem, sagradamente, mal rompe a manhã.

 

No pequeno povoado de Mundo Novo, cravado na divisa entre Pernambuco e Paraíba, o sol entra arredio pelas brechas das casas. Severina olha e não vê através da sua janela aberta. Para ela não sou mais que um vulto, quase não pode mais enxergar. Peço que me deixe entrar para que eu possa explicar as duas batidas que dei na madeira oca da porta da frente. Prende o cabelo grisalho e liso, abotoa a calça jeans sem sucesso. “Não, hoje eu não consigo dizer poesia, não tô boa da cabeça. Deixe pra outro dia”, diz quase inaudível enquanto tenta me decifrar apertando os olhos, impondo a condição da minha entrada antes mesmo de destravar o ferrolho. A casa é pálida, com uma cama de ferro encostada na parede próxima à janela. Um mosquiteiro pende do teto, uma caixa d’água repousa numa das quinas e três gatos sem nome dormem como pequenos reis. Vê-se um quintal ao fundo, sem plantas, cancelado. “Quem nasce pra sofrer traz a vida atrapalhada”, atesta com um verso que não pretendia me dizer, olhando-me olhando à volta. “Da sepultura aberta ainda vejo o retrato /E a morte me dizendo: um dia eu sempre te mato”.

 

Nos anos 1970 Severina Gomes de Souza era jovem. Conhecida na região do sertão do Pajeú como Severina Branca, tinha as unhas pintadas de vermelho, a pela clara (motivo pelo qual “os meninos” lhe deram o apelido) e as maçãs do rosto salientes, prontas para sorrir. Mas dizem que só dava para rir mesmo quando tinha hálito e equilíbrio de cachaça. A vida era um jogo perigoso com pitadas de deleite e drama, onde os cenários eram os cabarés, os forrós, as ruas de São José do Egito, a bodega de Pajé, os açudes pra mergulhar e esquecer. Prostituta famosa na região, era possível encontrá-la perambulando sozinha pelas cidades próximas ou caída dormindo no chão, a qualquer hora do dia ou da noite. “Tanto fazia ser numa calçada próxima a um bar, como na estrada do sitio que a conduzia à sua casa. Em São José do Egito, quem não é nada, é sobrinho de Augusto dos Anjos”, diz Ésio Rafael, pesquisador e poeta de Sertânia. Foi assim até perder a visão, há poucos anos, provavelmente por conta de álcool e diabetes, segundo suspeita seu amigo do outro lado da fronteira, o também poeta Tadeu Cassiano, da cidade de Ouro Velho. “Sentia um calor nos olhos, um calor insuportável”, conta Severina. Hoje precisa que alguém a ampare para que caminhe pelas ruas da cidade pela qual vagueou exaustivamente a vida inteira.

 

Nessa época, conta que criou um mote que virou um clássico da poesia de improviso. Um dia atreveu-se a chegar perto de uma mesa onde dois poetas improvisavam, e ficou observando, encostada na parede. Sempre admirou a poesia. Munidos de violas, eles diziam versos engenhosos, numa batalha ritmada. Em um momento de silêncio, alguém sugere que Severina dê um mote. O mote é um verso, uma espécie de tema metrificado, que vai guiar a criação dos poetas. A literatura vira uma espécie de jogo de armar. De supetão, a então prostituta diz: “O silêncio da noite é quem tem sido/Testemunha das minhas amarguras”. Nunca havia feito poesia antes.

 

Literati e Iliterati

A pergunta que se impõe: como alguém que não escreve produz literatura? A resposta implícita: com o corpo.

 

Paul Zumthor, estudioso das poéticas da voz, dedicou bastante energia aos estudos do uso da palavra falada nas produções literárias. O autor pesquisou, dentre outras coisas, as performances dos griots do Burkina-Faso, dos rakugoka do Japão e dos repentistas brasileiros. Ele explica que, na Idade Média, os termos literattie iliteratti não estavam exatamente ligados ao saber ou não escrever. Eram na realidade dois comportamentos diferentes em relação à palavra. Um ligado à autoridade, outro ligado às sensibilidades. Formas distintas de regulação da conduta: uma pelo raciocínio, outra pelo corpo.

 

Em seu O Ser e o tempo da poesia, Alfredo Bosi também aproxima corpo e palavra, utilizando a ideia de Sausurre da linguagem como “pensamento-som”. Escreve: “O dom do signo guarda, na sua aérea e ondulante matéria, o calor e o sabor de uma viagem noturna pelos corredores do corpo”. Assim, essa obra pensada e dita, e só revista quando redita por quem a fez ou por quem, prodigiosamente, a decorou, vai exatamente aonde seu autor e a memória podem ir. Às vezes as vozes dessa “literatura oral” não vão muito longe ou perdem-se no registro frágil da memória.

 

Essa insubordinação da fala em relação à palavra escrita é muito comum por todo o interior do Nordeste, onde perdura o analfabetismo e a tradição da poesia oral. Poetas conhecidos como Patativa do Assaré e João Paraibano, por exemplo, nunca escreveram seus versos. Dizem que no momento da criação, Patativa contorcia violentamente os músculos do rosto, até que dizia, de uma só respiração, um poema inteiro. O artista é seu próprio ateliê, seu corpo também é seu espaço de criação, além de seu espaço de propagação.

 

Rainha do Egito e do Cabaré

Certa vez, por conta de uma briga por dinheiro, Severina Branca levou uma facada. Foi socorrida em estado grave. Sozinha no hospital compôs seu primeiro poema inteiro. “Eu tava deitada na mesa depois da cirurgia, e o único jeito que eu conseguia pensar era em poesia. Pensava que há que se ter paciência com a vida, mas que ela não tem com a gente não”. A poesia veio em versos decassílabos, que é a métrica utilizada por quase todos os poetas sertanejos e improvisadores. Tudo o que Severina conhece de literatura foi composto assim, com as dez sílabas que dão um ritmo característico à poesia produzida no sertão. Mas no lugar do rio Pajeú, da seca e de um olhar ampliado sobre o sertão, os versos da mulher que mal sabe assinar o próprio nome fazem laço forte com a melancolia e com o vazio da vida. Indiscutivelmente autobiográfica, toda vez que dita, a poesia de Severina a faz chorar e resmungar baixo, explicativamente: “Você está entendendo, não é? É porque isso é a minha vida que eu estou contando nos versos. Recordando o passado eu sofro duas vezes”. A Severina ficcionalizada é tão inconsolável quanto a Severina real.

 

A morte da irmã, a prostituição, a miséria, a bebida, o passado, o destino, o sofrimento, a filha deixada sozinha em casa. A poesia de Severina não faz concessões e nem tem bons sentimentos. Ela cria como forma de expurgo e registro de uma vida. “Eu não tenho leitura, eu sou ignorante, mas esses são meus versos”, explica-se. Sua literatura confessional e marginal, para utilizar os termos clichês de um tipo de literatura urbana dos anos 1970 em diante, toma um caminho distinto da poesia sertaneja falada de um modo geral. Seus temas são particulares, por vezes herméticos, e que para além da melancolia apontam para a figura de uma mulher livre e à frente do seu tempo.

 

Sou mulher de sentimento

As duas da madrugada

Levando a chave na mão

Deixando a porta trancada

E uma filha na cama

Sem esperança de nada.

 

Não sentamos durante toda a conversa. Ficamos de pé no meio do primeiro cômodo da casa, até que Severina aponta uma cadeira plástica, dessas de bar. Olha os gatos e diz que não consegue cuidar bem deles (por isso não lhes deu nomes, estão lá porque querem e não porque são seus), e que está perto da hora de uma vizinha trazer seu café. Quando digo que fui à cidade de Verdejante, Severina sorri: “Lugar de nome mais bonito, não é? Pertinho de Salgueiro, já andei muito por ali, tomava banho na barragem”, e arruma de novo o cabelo. Vejo as unhas roxas descascadas, um ar cansado invade a conversa. Trancada em casa, a poesia de Severina não atravessa mais a rua, não vai à bodega, não cai deitada no chão para todo mundo ver. Ouvi-la, e portanto conhecê-la, tornou-se raro.

 

A boca diz: um óculos de ver delírio

O sonho é ver as formas invisíveis

da distância imprecisa, e, com sensíveis

movimentos da esperança e da vontade,

buscar na linha fria do horizonte

a árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —

os beijos merecidos da verdade”

[Fernando Pessoa]

 

Apesar do nome, há quatro anos não chove em Verdejante. O chão vai ficando cada vez mais firme, a plantação seca, a pele queima, e a palavra ali: um monolito que já não se reconhece bem. A pequena cidade pernambucana é gradada em tons de laranja, amarelo e cinza, como os filmes de Sergio Leone. E nunca o cinza sério, mas o cinza refletido de sol. E não verdeja, apesar de bonita e viva, com algumas árvores heroicas pelo caminho, cheia de gente na rua. Cadeiras proliferam em frente às casas, ocupando as calçadas com gente falante, ora eufórica, ora preguiçosa. A palavra “verdejante”, que viceja até no ritmo das sílabas, desdiz, teima em fabular o que todo mundo sabe ser sertão. Devagar e com a clara sensação de sempre (o tempo é muito piedoso por aqui), seu Mariano também sabe fabular.

 

A bodega que fica numa das principais ruas de Verdejante é curiosa. Uma geladeira vermelha abre-alas para uma parede inteira de aguardentes Pitú e cajuínas São Geraldo. No chão um tapete de melancias dá as boas-vindas, com algum humor. Atrás do balcão, ou sentado numa cadeira encostada na porta de entrada, seu Mariano José da Silva, o “Mariano do aio”, finca presença de cara amarrada. Entre ano, sai ano, um chapéu preto lhe decora a cabeça dando ainda mais gravidade à sua expressão. A camisa de botões, uma calça de linho, um chinelo. Mas entre cabeças de alho e pedaços de rapadura, um caderno desses de escola, pequenos, com espiral, guarda uma lista. Os títulos de 60 contos constam ali, dividindo lugar com as anotações de fiado e contas compridas somando muitos 50 centavos. Um amigo lhe fez o favor de anotar os títulos para que ficasse mais fácil das pessoas escolherem a história que desejam ouvir. Mariano não aprendeu a escrever, trabalhou pesado desde criança no sítio Oiticica, que fica a 4km dali. Ao anotar tudo, não havia a preocupação de catalogar, organizar, não perder. Mariano não teme por sua memória: “é uma coisa espantosa, não há maneira de eu esquecer essas anedotas que invento. Basta uma palavra pra que venha tudo de uma vez”. A anotação é mais um cardápio, um “sirva-se”. Ao escolher, Mariano respira e inicia a sua performance. Todo dia, às 11h, a bodega está cheia de gente para ouvi-lo e vê-lo dizer sua literatura, que para ele não passa de anedotas feitas para rir.

 

“Na situação de oralidade pura (...) a ‘formação’ se opera pela voz, que carrega a palavra; a primeira ‘transmissão’ é obra de um personagem utilizando em palavra sua voz viva, que é, necessariamente, ligada a um gesto. A ‘recepção’ vai se fazer pela audição acompanhada da vista, uma e outra tendo por objeto o discurso assim performatizado: é, com efeito, próprio da situação oral, que transmissão e recepção aí constituam um ato único de participação, copresença, esta gerando o prazer. Esse ato único é a performance”, escreve Paul Zumthor.

 

Ilustração por Karina Freitas

 

Sobre palavras e palavras que caem

No Japão existe uma modalidade de literatura oral, humorística, que tem como centro a apresentação de um contador de histórias. Sentado em um tatame sobre um palco, munido apenas de um leque de papel, ele faz um monólogo onde narra histórias complexas, geralmente com vários personagens. Essa literatura tradicional, que existe desde o período Edo (1603-1868), chama-se Rakugo, que em uma tradução literal significa “palavras caídas”. Os chamados rakugokas passam por um longo período de preparação, tendo que ser aceitos por um mestre que considere que tenha potencial suficiente para praticar a arte, para receber essas palavras que caem, e transmiti-las.

 

“Ela vem”, diz Severina sobre o processo de criação da sua poesia. Não sabe dizer de que forma a cria, mas tem a impressão de que chega de outro lugar e se manifesta através da sua voz. Para Mariano, a história chega pronta, como uma iluminação que lhe invade. Para ele é um presente divino para ajudar a enfrentar a vida. “Se chega coisa boa na nossa cabeça é Deus que manda. Eu agradeço”. A ideia de palavras que caem, como se à revelia de quem as diz, como que vindas de cima, é uma citação recorrente dos poetas/contadores das tradições orais. Há a crença na inspiração e na arte como atividade sublime, conectada com o divino.

 

Há cinco minutos de Mundo Novo, em Pernambuco, fica Ouro Velho, na Paraíba. A linha que divide os estados passa bem ali, entre os dois povoados. Lá, Tadeu Cassiano também acredita que as palavras têm vida própria. “Às vezes ela foge, aí às vezes vem aquela onda doce e você encontra tudo o que queria, todas as palavras que você queria. Aqui a gente acredita que tem poesia até no jeito que o vento sopra”. Tadeu sorri sinceramente ao fazer a comparação, envaidecido com a quase poesia que cria na resposta. É magro e sorridente, de olhar doce por trás dos óculos de grau. O poeta, que ao contrário de Severina e Mariano, domina a escrita, optou deliberadamente durante muito tempo pela palavra falada. “Deixava escrito às vezes só o primeiro verso de um poema, para me ajudar a lembrar. Eram vários papéis espalhados pela casa, com uma linha só escrita”, recorda. Tadeu faz parte de uma parcela grande de poetas sertanejos que falam seus versos, improvisados ou não, por opção.

 

Há muitos anos Tadeu trabalhava de telefonista na extinta Telpe. Sabia todos os códigos da empresa decorados, todas as listas que lhe caíam nas mãos. Poesias dos outros também aos montes, mas tentava trazer à tona um poema seu até o fim, e perdia-se no meio dos versos. Decorava os outros, entre atento e ébrio, mas os seus ficavam engavetados, travados em algum lugar turvo. Nessa época Tadeu bebia durante o dia inteiro. A inspiração já a tinha, mas era como se o corpo não acompanhasse a mente. “Começava a dizer a poesia e me perdia no meio, a língua enrolava, não conseguia completar”, conta. Assim como os rakugosas, era preciso ser capaz de transmitir as palavras caídas.

 

Recentemente Tadeu recebeu uma pessoa interessada em publicá-lo, que o fez reunir os rastros de poesia escondidos pela casa. Depois de gavetas e memória reviradas, Tadeu vai lançar seu primeiro livro este ano.

 

A literatura falada, que segundo Paul Zumthor alia a sonoridade da voz, a performance, os ritmos, dentre outros fatores, quando transportada para o lugar da escrita, que tem também suas idiossincrasias, vira outra literatura. Não pode ser realizado apenas um transporte. Talvez Tadeu seja agora autor de duas obras, feitas com dois tipos de palavras. “Os Ewé, população do sul da Nigéria, que possui antigas e ricas tradições, distinguem, segundo as regiões, cinco, seis, ou nove funções diferentes, em limites bem traçados, daquilo que nós reunimos sob o nome de palavra. Os Dogon estudados por Genevieve Calame-Griaule distinguem 48!”, afirma Zumthor.

 

O fantástico

Assim como Severina Branca, os acontecimentos da vida de Mariano são matéria-prima de muitas das suas criações. “Por onde eu passo, de uma coisa eu gero uma história”, conta. Mas ao contrário do sabor amargo e realista que tem a poesia de Severina, as narrativas do senhor de Verdejante são delirantes. A seca tem um papel central na sua inspiração, pois parece ser das impossibilidades que ela imprime que surge a necessidade da invenção.

 

Uma lagarta adverte que comerá a plantação de milho com uma frase precisa escrita ao longo da sua coluna: “tanto plante como eu como”. Uma vaca usa óculos de lentes verdes para que ao enganar a vista engane também o estômago, e possa devorar os matos secos da roça. Logo acima da bodega de Mariano, um avião parado no meio do céu para trocar um pneu furado sem causar espanto a ninguém. A situação dura horas, o piloto pede ajuda, acha um pedaço de pau no meio das nuvens. Mariano compõe um universo mágico, que nasce da coexistência do universo sertanejo e do delírio. Exatamente nessa interseção, que provoca a hesitação, é que consiste a característica maior da literatura fantástica, segundo Todorov. Mariano desestabiliza a seca e o tédio de Verdejante. “A fantasia e o devaneio são a imaginação movida pelos afetos. Esse movimentos das imagens poderá circular apenas pelos espaços da visão. Mas poderá também aceder ao nível da palavra”, afirma Alfredo Bosi.

 

Os contos estão sempre em primeira pessoa, Mariano é o protagonista absoluto, e o tom da sua voz, que sobe e desce com alguns picos agudos, humorísticos, nos diz, juntamente com o texto que profere, que ali tudo se trata da mais prosaica realidade. “Isso é uma mentira danada! Esse Mariano é muito contador de história!”, dispara um dos senhores sentados na bodega, entre um trago de cigarro e uma bicada na cachaça. “Não é não, aconteceu desse jeito mesmo que estou contando”, defende-se Mariano enquanto serve mais uma dose.