capa 187A escrita é a vida

O impossível como ponto de partida da escrita de Marguerite Duras, autora francesa que será republicada no Brasil; como Tati Quebra Barraco construiu uma poética que subverte relações de dominação; o sociólogo Richard Miskolci discute a relação entre redes sociais e levantes conservadores no Brasil; uma discussão sobre Machado de Assis e sua formação em país pós-colonial.

Marguerite Duras em conversa no "Apostrophes", em 1984 (legendas em francês)

card ebook mensal SETEMBRO.21

José Castello

Everardo Norões

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derrida

 

Para todo leitor que não se exclui da aventura intelectual e humana que representa o abrir de um livro, a nova edição de Glossário de Derrida (Papéis Selvagens) significa adentrar um pensamento que ajudou a parir muitos dos olhares que hoje lançamos para nossa cultura, e que participa, de certa maneira, da nossa formação política. O ataque que o filósofo Jacques Derrida (1930-2004; foto) faz à metafísica ocidental, por exemplo, ecoa junto a propostas de contestação ao eurocentrismo, interpelando noções pré-concebidas e afirmando (entre outras coisas e em linhas gerais) a não existência de um centro e sujeito fixos ou imóveis — e, desde este momento primeiro, propondo que outras escritas sejam feitas como um revide às escritas mais difundidas, “emparedantes”.

Por esses motivos, creio ser possível dizer que, como suplemento, o Glossário de Derrida integra uma formação crítica ou política, hoje. Escrito por alunos da PUC-Rio nos anos 1970 durante uma disciplina ministrada por Silviano Santiago — que supervisionou o projeto —, o livro surgiu a partir de dificuldades na leitura do filósofo. Derrida expõe um conceito em determinada obra e, no livro seguinte, o retoma sem contextualização. “Frente, portanto, a um léxico de significado flutuante, a uma sintaxe de fatura barroca e a um pensamento iconoclasta”, como caracteriza Silviano, houve necessidade de um material que ajudasse o leitor a adentrar uma obra que, na década citada, se inseria nas disputas entre estruturalistas e pós-estruturalistas que tomava espaço nas Ciências Humanas.

O volume ora republicado vem com ótimos prefácio, de Raul Rodríguez Freire (PUC-Valparaíso, Chile), e posfácio, este assinado por Ana Skinner (UFRJ). Os termos (complemento, tradução, arquiescritura etc) surgem como ponto de apoio para leitura, oferecem estabilidade; mas, como ponto de apoio para a obra de Derrida, a estabilidade neles é descentrada — isto explica que os conceitos sempre se remetam uns aos outros, de maneira que na página nunca esteja uma formulação precisa e autossuficiente, mas sempre esclarecedora. Também a construção do livro revela o critério exposto: nela, os conceitos surgiram a partir da elaboração dos próprios alunos, de forma anônima. Talvez se possa dizer que esse conjunto de elementos resulta na atualidade do trabalho, que mantém seu vigor mesmo que tenha sido escrito há décadas e a partir das seis primeiras obras do filósofo (e de uma sétima que Derrida assina com outros autores).

O Brasil abrigou desde cedo traduções das obras do filósofo. A editora Perspectiva publicou A escritura e a diferença em 1971, apenas quatro anos depois do lançamento da obra em francês. Vieram em seguida Gramatologia (1973) e o citado Glossário (1976). Além disso, Haroldo de Campos (com A formação do Barroco) e o próprio Silviano Santiago (O entrelugar no discurso latino-americano, por exemplo) são alguns dos nomes que partiram do filósofo para produzir momentos ímpares na produção intelectual latino-americana, com vários desdobramentos em autores posteriores.

Na obra de Derrida há pensamento político porque, com ele, aprende-se a pensar de forma antidogmática. O Glossário, então, suplementa esta aprendizagem.