capa 154Poesia e resistência

A poesia de Solano Trindade, ícone das artes afro-brasileiras, é leitura importante para hoje e 2019. Mais: os memes e a narrativa política em 2018; personagens trans na literatura brasileira; Suely Rolnik fala sobre micropolítica, descolonização do inconsciente e resistência

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Raquel Trindade declama um poema de seu pai, Solano

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José Castello

Everardo Norões

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SidneyRocha nov.18 KarinaFreitas

 

Ao escrever sobre Fernanflor, romance que o cearense Sidney Rocha publicou em 2015 pela editora Iluminuras, o escritor português Gonçalo M. Tavares afirma que na obra de Rocha tudo é linguagem. O mesmo pode ser dito de seu recém-lançado romance A estética da indiferença, publicado pela mesma editora. A busca pela inventividade na linguagem é um dos traços marcantes da obra de Sidney Rocha desde a sua estreia, em 1994, com o romance Sofia (Ateliê Editorial). O autor se dedica à crônica, ao ensaio, ao roteiro, porém as duas expressões literárias mais significativas da sua obra são sem dúvidas o conto e o romance. Rocha conseguiu formular um estilo imediatamente reconhecível que atravessa tanto as suas narrativas longas, quanto as curtas. Mas um estilo – palavra sempre problemática, mas ainda assim necessária – não é formado apenas de um cordão de palavras, e, sim, de uma visão de mundo e de temáticas recorrentes. Dessa forma, é possível identificar no que foi publicado desde a década de 1990 um conjunto de temas recorrentes, bem como uma perspectiva sobre o humano e uma formulação política a fundamentar a sua ficção.

Dependendo de qual gênero literário Sidney Rocha escolha, as estratégias literárias que ele usa a fim de abordar suas obsessões literárias mudam sutilmente. Há uma homogeneidade ideológica e estilística, como um todo, em seu trabalho, sem dúvidas. Sidney não é o tipo de artista que assume heterônimos, ou que pode ser entendido em termos de fases de ruptura consigo próprio. No entanto, nos contos dos livros Matriuska, O destino das metáforas e Guerra de ninguém, há uma maior acentuação de uma dimensão narrativa e irônica na sua linguagem. Com isso, quero dizer que os contos de Sidney Rocha investem no experimentalismo, sem deixar, porém, de desenvolver uma mínima clareza de enredo e de conflitos vividos por seus personagens. Além disso, são contos que lançam mão não do humor de riso solto, mas de um sorriso no canto do rosto. Sidney Rocha é mais Dom Casmurro do que Auto da Compadecida.

Os seus romances, por outro lado, e me refiro a Sofia, Fernanflor e agora a A estética da indiferença, abrem mão quase por completo do desenvolvimento de um enredo a ser contado e de uma abordagem tradicional de psicologia de personagem a ser trabalhada – psicologia essa que tradicionalmente é pensada, na história da formação do romance moderno, em termos de pessoas em posição de conflito com o Outro ou com o Mundo. Os protagonistas dos três romances são menos personagens e mais pontos de articulação de um tsunami linguístico que, em seus melhores momentos, propicia a nós leitores algumas das mais instigantes páginas do romance contemporâneo brasileiro. Neste sentido, a estrutura de A estética da indiferença é semelhante à dos romances anteriores.

A partir de uma situação dada – a vida cotidiana e o matrimônio em crise dos protagonistas Michi, o narrador do livro, e Hana, sua esposa –, acontece uma justaposição de cenas poéticas, organizadas entre si, sem amarração rígida. O livro é divido em cinco partes. Embora a leitura linear seja a mais natural, o leitor poderia sem prejuízo algum escolher ler cada parte na sequência que julgar melhor. Assim, A estética da indiferença bebe na grande tradição dos romances experimentais, que vai do Vida e opiniões de Tristram Shandy, passando por Memórias póstumas de Brás Cubas, Mrs Dalloway, O jogo da amarelinha ou Avalovara. Aos leitores cinéfilos, penso que seria possível considerar A estética da indiferença como um romance aparentado com o cinema de autor da segunda metade do século XX. Me refiro a filmes como Acossado, de Godard, Hiroshima, meu amor, de Resnais, ou Amarcord, de Fellini. Isto posto, minha preferência pessoal de leitura, contudo, pende mais ao equilíbrio dos elementos constituintes dos contos de Sidney Rocha, não obstante o fascínio que um livro como A estética da indiferença me causa. Sou irremediavelmente mais Hitchcock e Billy Wilder do que Godard.

A estética da indiferença aponta algo que reputo ser a primeira característica relevante da obra de Rocha na qual devemos prestarmos atenção: como tive oportunidade de escrever em outras ocasiões, acredito que seus contos e romances sejam escritos programaticamente na contramão de algumas importantes tendências da literatura brasileira contemporânea. Por exemplo, a busca de um entendimento do Brasil em suas tragédias e em sua permanente crise de identidade, tópico fundamental da literatura brasileira como um todo, e que se mantém na contemporaneidade talvez com menos força do que no modernismo, tem peso menor em um livro como A estética da indiferença. Da mesma forma, a ênfase nos conflitos da cidade fraturada socialmente, ou uma reflexão sobre raízes regionais, dois temas recorrentes na nossa prosa de ficção, possuem relevância menor aqui. As várias modalidades das escritas do “eu”, como a autoficção, por exemplo, ou o foco nos conflitos identitários de gênero e raça, não são enfatizados em sua escrita. Michi, o narrador-protagonista de A estética da indiferença, é negro. Embora a crítica ao preconceito e ao racismo se encontre no romance, o foco reside menos nas implicações sociais da sua negritude e muito mais em outras questões, ligadas diretamente ao mundo interior do personagem.

Por dar menos peso à busca do nacional e do regional, explica-se porque existe em livros como Guerra de ninguém, Fernanflor e A estética da indiferença uma pluralidade de tempos históricos e espaços sociais. Os principais personagens de A estética da indiferença vivem em um condomínio fechado chamado Amaravati, localizado em algum país turístico, ou em uma região turística de algum país que pode tanto ser europeu, quanto sul-americano. Há pouca “cor local” no romance e seus principais espaços são o típico lugar-nenhum onde vive parte das elites do mundo globalizado – uma vivência “nostálgico-shopping center”; espacialidade construída por um Romero Brito em crise depressiva. Há um mapa-múndi na obra de Sidney Rocha, fazendo com que a circunstância do “eu sou brasileiro” se posicione nos bastidores da sua ficção. Sidney, nesse sentido, também escreve na contramão do Realismo, usando às vezes o fantástico, o insólito, o nonsense e a paródia como estratégias de desnaturalização da sua linguagem.

Qual é então o grande tema que penso atravessar a obra de Sidney Rocha como um todo? A perspectiva pessimista, desencantada, de que as relações sociais e em especial a política são fundamentadas na violência. Há pouca militância ou idealismo político na ficção de Sidney Rocha, porque as narrativas utópicas, as ilusões, o projeto de fazer o bem comum, embora existam em seus personagens e não sejam negados de maneira cínica, esbarram na realidade prática do confronto e da aspereza das relações entre indivíduos e instituições. Aos poucos, a fim de explorar esse seu tema, Sidney Rocha foi desviando a lupa das classes mais humildes e das classes médias, foco dos contos de Matriuska, a fim de pensar a violência jogando a lupa nas classes mais favorecidas. É o caso de A estética da indiferença: Michi e Hana, assim como os personagens secundários, vivem uma rotina entediada de visitas, passeios e programas culturais; sentimos que a tensão social existe, no entanto ela está nas franjas da vida dessas pessoas. A tensão da violência possível é, na verdade, uma das origens da infelicidade e do tédio vividos pelos personagens do livro.

No entanto, volta e meia o horror explode e mostra sua cara. Ninguém representa melhor as forças sublimadas da destruição como Tomás, personagem de inclinações fascistas que é viciado em matar porcos, personagem que diz coisas como isso: “a carne de um animal que mato com as minhas próprias mãos é duas vezes mais saborosa. Esta é a melhor maneira de alguém conectar-se com a natureza, e, sem dúvida, a mais divertida; por isto tantas pessoas gostam de caçar”. A máscara pode cair, em A estética da indiferença, pelas portas do delírio. Um dos melhores momentos do livro consiste em uma alucinação na qual Michi enxerga um atentado terrorista na cidade de Cromane, próxima ao condomínio fechado onde se refugia: “Sentei-me ou caí enfim, e não poderia ser que tudo para mim terminasse, não pare por nada, senhor, levante-se daí e corra, mas para onde, policial, para qualquer lado, Michi, mas não pare, corra para fora desse pesadelo, o senhor está falando das torres caindo, da lanchonete e a bomba e os terroristas, não, o senhor me chamou pelo nome, policial, sim, chamei, Michi, de onde nos conhecemos, ele simplesmente disse, fuja desse inferno antes que, Michi”.

Diante desse pessimismo, o amor é buscado pelos personagens de Sidney Rocha como válvula de escape, e isso se apresenta de maneira muito acentuada tanto em Sofia quanto em A estética da indiferença. A idealização da figura feminina feita pelos narradores masculinos de Rocha, idealização que sempre compõe um retrato lírico e melancólico de mulheres ausentes, distantes, fugidias, é o antídoto procurado por esses homens à sua própria tomada de consciência a respeito da crueza do mundo social. O ponto de fuga é o amor, o sexo e a obsessão por “mulheres-pergunta”: sempre desconhecidas, mesmo quando próximas, como é o caso de Hana. A estética da indiferença não desmonta totalmente a idealização do feminino; pelo contrário, a utiliza enquanto plataforma lírica: “Noutro tempo-lugar, eu abraçava Hana à beira-rio, enquanto a água se esguichava diante da fonte do teatro. Tudo era muito nítido e vivo. Eu contava a ela de um sonho que tivera, e éramos ao mesmo tempo os espectadores e os personagens no palco que diziam, em sua conversa: – A nossa vida é de segunda mão”; ou “Olho para Hana e Hana é sempre Hana. Hana entregue à sua música, Hana e sua flama inocente mas nunca tola”.

É justamente na autonomia e concentração poética das cenas narrativas, cenas funcionando como miniaturas, que encontramos os melhores momentos de A estética da indiferença.

 

>> Cristhiano Aguiar, escritor e crítico literário, é autor de Na outra margem, o Leviatã