capa 149A crítica, as críticas

Um especial discute os impasses vividos hoje pela crítica literária acadêmica e qual o lugar dela em meio a tantas formas de acessar os sentidos da literatura. E ainda: afinidades entre Hilda Hilst e Ricardo G. Dicke; relançada obra de Ruth Guimarães; Raimundo Carrero lança tetralogia em único volume

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no mês da flip 2018, Hilda Hilst fala sobre "O caderno rosa de Lori Lamby"

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José Castello

Everardo Norões

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Bastidores jun.18 Maria Julia Moreira

Abaixo, um texto sobre os bastidores que permitiram a criação do romance O peso do pássaro morto, de Aline Bei, lançado recentemente pela editora Nós. 

 

***

a Descoberta:

tenho dois começos na palavra escrita. o primeiro aconteceu quando eu era criança e via

minha mãe chorando pela casa, meu pai chegava tarde. eles conversavam já na cama, a parede fina. tinha alguma coisa errada

com o dinheiro, a aline vai ter que mudar de escola

não pelo amor de deus.

eu amava minha escola, a gente ia ter que mudar de cidade também eu não quero ir pra ribeirão preto até que um dia eu tive uma ideia: abri meu caderno do pernalonga e comecei a escrever um livro

pelo título

o ABC da Poesia

(não me orgulho)

fiz uma espécie de sumário com os nomes dos poemas de A a Z. depois fui criando os textos, lembro que o da letra B era sobre o Brasil. quando terminei tive certeza que a crise financeira do meu pai também terminaria, eu pensava que era assim instantâneo, o nascimento da poesia e o fim

de um problema.

já meu segundo começo foi na faculdade de Letras. nós criamos uma revista para o curso chamada Transa, uma homenagem ao disco do Caetano, comecei a escrever para esse projeto e nunca mais parei.

no meio desses dois momentos,

 

eu li muito.

 

e teve também o Teatro, minha primeira profissão. até o início da fase adulta eu imaginava que seria atriz pra sempre e o Palco, essa vivência do texto dentro de um corpo, mudou tudo na hora que comecei a escrever. lembro até hoje de quando li Nelson Rodrigues pela primeira vez e depois assisti uma peça, 17x Nelson, dirigida por Nelson Baskerville no porão do antigo Fábrica: mal dormi naquela noite. eu tinha 16 anos e não fazia ideia que no mundo existiam coisas daquele tamanho.

fui me afastando aos poucos do teatro profissional, mas a minha atriz

nunca morreu em mim. aliás

é ela quem escreve

ela

e a menina que fui.

o Peso do Pássaro morto:

para contar sobre o Pássaro e seus processos, tenho que falar um pouco sobre a menina que fui. eu era uma criança muito silenciosa, nunca dizendo como eu me sentia

ara os adultos e suas

pernas.

durante a minha infância tínhamos pássaro em casa e um dia, era sábado, minha mãe percebeu que o nosso canário estava com a unha comprida. me pediu pra segurar o bichinho enquanto ela pegava o cortador na cozinha. fiquei segurando, apreensiva, ele me olhou virando a cabeça, e nesses segundos de espera e troca
o passarinho morreu na minha mão.

foi Brutal,

a sensação nunca mais me abandonou. ainda assim não contei isso pra ninguém

e meu livro nasceu dessa imagem, anos depois. de novo o título foi o primeiro a brotar e enquanto eu me debruçava no teclado buscando a história fui lembrando do pássaro morto cabendo/não cabendo na palma, também de um livro (aos 7 e aos 40 - do Carrascoza) que dividia a narrativa pelas idades do protagonista. vou tentar fazer assim, pensei, e devagar fui percebendo que queria contar uma história sobre Perdas, basicamente, igual naquele poema da Bishop.

na parte prática, eu consegui publicar o livro através do prêmio Toca, promovido pelo escritor Marcelino Freire. foi assim que eu conheci a Simone Paulino, ela deu casa pro meu Pássaro, um lugar sem grade bexiga no céu chamado editora Nós.

 

* Aline Bei é atriz e poeta. O peso do pássaro morto é o seu primeiro romance.