capa 149A crítica, as críticas

Um especial discute os impasses vividos hoje pela crítica literária acadêmica e qual o lugar dela em meio a tantas formas de acessar os sentidos da literatura. E ainda: afinidades entre Hilda Hilst e Ricardo G. Dicke; relançada obra de Ruth Guimarães; Raimundo Carrero lança tetralogia em único volume

Clique para baixar o pdf

no mês da flip 2018, Hilda Hilst fala sobre "O caderno rosa de Lori Lamby"

banner site

José Castello

Everardo Norões

SFbBox by casino froutakia

Susana.e.os.velhos Noroes jun.18

 

Uma anedota revela o quanto o tema bíblico de Susana no banho, ou Susana e os anciãos, é explorado pelos artistas de todas as épocas, inclusive Picasso. Suzanne Valandon (1967-1938), pintora pós-impressionista e modelo de vários nomes conhecidos, entre eles Renoir e Toulousse-Lautrec, chamava-se Marie-Clémentine. Até o dia em que Toulousse-Lautrec lhe disse, em tom de brincadeira: “Você, que vive posando para os velhos, deveria ser chamada de Susana”.

A história de Susana faz parte do chamado “ciclo de Daniel” e encontra-se apenas na Bíblia católica. Conta que uma certa Susana, mulher casada e tida como virtuosa, vive numa comunidade da Babilônia. Dois velhos juízes apaixonam-se por ela. Certo dia, cada um deles sai de casa pela madrugada, com a intenção de seduzi-la durante o passeio matinal. Encontram-se por coincidência no caminho e, após um bom bate-papo, compartilham suas intenções libidinosas. Combinam o assédio à bela judia e, ao encontrarem Susana, tentam violentá-la. Ela consegue desvencilhar-se e os juízes, frustrados, decidem vingar-se e acusam-na de adultério, então motivo de pena de morte. Então, inventam que ela havia sido flagrada por eles debaixo de uma árvore em companhia de um amante. A comunidade é reunida para julgar o caso e o desfecho promete ser fatal. Entra em ação um jovem, acompanhado de um anjo. É Daniel, o profeta. Usando de sabedoria, ele pede à multidão que afaste os dois homens para interrogá-los separadamente, antes do veredito final ser pronunciado. Ao serem questionados sob qual árvore havia ocorrido o flagrante do suposto adultério, eles oferecem respostas que não coincidem. O jovem desmonta a trama e os dois juízes acabam por ter a mesma sorte que haviam premeditado para a bela Susana: são condenados e lançados de um precipício pela população.

No terceiro tomo da recente tradução que faz da Bíblia, cuja ênfase é dada ao aspecto literário (Lisboa: Quetzal Editores, 2017), Frederico Lourenço tece comentários sobre as duas versões gregas (a dos Septuaginta e a de Teodócion) que nos chegaram dessa história de Susana. A opinião do tradutor é que a versão de Teodócion (segunda metade do século II) é mais complacente em relação ao comportamento dos juízes, provavelmente porque a “Igreja a tenha preferido por dar uma ideia ligeiramente menos imoral dos presbúteroi (‘anciãos’)”. Mas essa versão inclui no episódio uma variante: Susana tomava banho quando é molestada pelos juízes. Curiosamente, este pormenor erótico, ao longo do tempo, é o que mais motiva os artistas nas obras que retratam o acontecimento. Susana é quase sempre exibida desnuda, em atitude lasciva, como quem compactua com os seus perseguidores.

Paolo Veronese (1528-1588), por exemplo, a representa como se ela estivesse conversando amigavelmente com os dois homens. Tintoretto (1518-1594) ainda acrescenta à cena um espelho, dando um quê de vaidade à cena do banho. Na tela de François de Troys (1645-1730), Susana olha-se nas águas de um tanque, numa pose sensual, enquanto os homens debruçam-se sobre ela, numa demonstração de conivência entre os três.

Numa sociedade feudal e católica, mulher não tem vez. Mesmo a Bíblia tendo assegurado que Susana era mulher “finíssima”, ela acaba transformada pelos pintores em objeto de desejo. Uma exceção entre os artistas é Rembrandt (1606-1669), cujo quadro, Susana e os dois velhos, expressa a verdade do texto numa pintura marcada pela postura realista dos personagens, num fundo sombrio, em tons que variam entre o ocre e o vermelho muito escuro. Em contraste com outros artistas, o que chama a atenção na tela do pintor flamengo não é a figura de Susana, mas a perfeição da própria obra. A modelo é retratada sem subterfúgios, criatura carnal que olha fixamente o espectador, como se o interpelasse. É a visão de um pintor de gênio dos Países Baixos, sociedade protestante e rica, na qual já emerge uma burguesia de armadores e comerciantes. Rembrandt não tem mais o olhar que predomina entre os artistas de um mundo feudal, geralmente atrelado a um mecenas, para quem a mulher é ser inferior e submisso.

Entre os retratos de Susana e os anciãos, chama a atenção o de uma jovem artista italiana, Artemisia Gentileschi (1593-1654), filha de um grande pintor, Oracio Gentilescchi, o mais próximo colaborador e discípulo de Caravaggio. Artemisia iniciou-se cedo na pintura. Estuprada por um artista amigo de seu pai, o caso culmina num processo, durante o qual ela é arguida sob tortura. A representação de Susana e os anciãos por Artemisia é uma espécie de registro da situação feminina de seu tempo. O quadro foi pintado quando a artista tinha apenas 17 anos. Nele, a repulsa violenta da mulher ameaçada traduz-se nas mãos que se agitam para barrar o avanço dos juízes ou no ricto facial de quem revela aversão e revolta. Ao contrário de outros pintores, a nudez da modelo, assustada e desfeita, nada tem de sensual. A obra, além do valor artístico da pintura, é alegoria e libelo.

Na recente versão de Frederico Lourenço, traduzido sem o filtro da crença, o texto bíblico sobre o episódio induz a uma leitura subversiva, na qual tudo pode ser invertido. Assediada sexualmente por notáveis, Susana é a mulher que não se submete. Num tempo em que a velhice é entendida como sabedoria, ela é libertada por um jovem, o profeta Daniel. Contrariando a tradição, no imbróglio “jurídico”, ele consegue demolir com argúcia dois velhos juízes experimentados. O texto bíblico até enfatiza que os moços são capazes e são amados por sua simplicidade.

O episódio também revela que a imoralidade e a falta de escrúpulos de magistrados já eram uma preocupação nas comunidades babilônicas séculos antes de Cristo. Não tivesse surgido a figura carismática de um profeta, assessorado por um anjo, Susana teria sido lançada de um despenhadeiro por mais uma calúnia amparada pela “Justiça”, a Bíblia católica teria perdido uma parábola instigante e a pintura um de seus motivos mais recorrentes.