capa 141Obra sempre em obras

Um ensaio sobre Ricardo Aleixo, nome incontornável da poesia contemporânea brasileira e dono de uma poesia em mutação. E ainda: a homossexualidade indígena; uma lembrança de Lillian Ross; sobre ler Alejandra Pizarnik; o último escrito de Ricardo Piglia

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O fruto estranho de Ricardo Aleixo

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José Castello

Everardo Norões

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Castello out.17 hallina

 

O leitor S. M. me escreve para reclamar da tristeza que expresso em minha coluna deste Pernambuco no mês passado. “A vida já está difícil. O senhor escreve para me afundar ainda mais?”, ele se queixa. Tratei de reler o que escrevi. Não posso negar: em A prostração de Kafka, despejo boa parte do desalento que a leitura dos diários do escritor checo provoca em mim. Tampouco pretendo esconder a imensa desilusão que sinto com os rumos nefastos tomados pelo país desde a derrubada da presidente Dilma Rousseff. Não nego nada disso, mas não posso aceitar tudo o que o atento S. M. me diz. Por exemplo: “O senhor parece não acreditar mais em nada. Se não acredita mais em nada, por que ainda escreve?” – ele me pergunta, sem disfarçar o rancor.

Não é isso, não é bem assim. Constato a imensa tristeza de Kafka, mas nem por isso, ou melhor, por isso mesmo, ele nos legou uma obra ímpar. Também não é porque estou desanimado com a realidade atual que perdi a esperança. Mas, como fazer meu leitor entender? Como levá-lo a ver que, se expressamos um desânimo, isso não quer dizer que desistimos da vida? Talvez seja bem o contrário: para acreditar é preciso delimitar. Para vislumbrar um futuro, é preciso, primeiro, não escamotear os amargores do presente. Fiquei pensando numa maneira de explicar isso a S. M. até que decidi reler Harmada, um dos grandes livros de João Gilberto Noll, de 1993. Ao abri-lo, encontrei uma anotação antiga, que fiz durante a primeira leitura, ainda nos anos 1990. Digo assim: “Um livro sobre a fragilidade dos fatos. Mas também sobre como essa fragilidade abre uma chance para a esperança”. Eis aí, talvez, o que preciso dizer a meu leitor.

O protagonista de Harmada vive em um mundo destroçado. Desde as primeiras páginas do romance, ele se pergunta se habita mesmo uma realidade construída por fatos, ou se tudo não passa “de um breve colapso entre a aparência e o íntimo das coisas”. Vagueia pela vida, em estado de tontura. Em seu caminho, cruza ora com velhos conhecidos, ora com estranhos, mas não importa: “Eu não precisaria mais do que um pálido convite para segui-los como um pobre cão”. Sem ter para onde ir, pede abrigo em um asilo para mendigos. Lá passará vários anos de sua vida, tentando recuperar os restos do passado de ator, representando como pode para os tristes hóspedes que o acompanham.

Em meio ao desalento, aos poucos, um ideal se forma em sua mente: chegar a Harmada, a capital. Não consegue imaginar muito bem o que faria ao chegar a seu destino, mas é isso: precisa de um destino, um norte, para seguir em frente e suportar o presente. Harmada é esse norte. Não se trata, portanto, de uma utopia, do sonho de um estado ideal, ou uma chegada ao Paraíso. Não idealiza Harmada, não a vê como uma salvação, só quer mirá-la. Sabe que tudo o que tem é o presente. “Eu já não poderia viver sem o apoio daqueles velhos, pelo menos sem aquilo que me vinha deles, aquilo que estava a vir agora, ali, aquilo que eu não saberia que nome dar.”

Longe de se oferecer como uma solução, ou uma promessa de felicidade, o ideal tem uma função anterior e mais importante: ele ajuda a sustentar o presente que, no fim das contas, é onde sempre estamos. Mais jovem hóspede do asilo, o protagonista de Noll ajuda a salvar seus companheiros no presente também: contando e interpretando histórias que preenchem o seu vazio. Eles se deixam levar, “envolvidos com aqueles mesmos interesses que as minhas histórias pareciam escavar, germinando-os uns aos outros, e retirando-os assim das rondas pelas ruas, como solitários, avulsos, mendigos”. As histórias que conta ainda não são Harmada; o asilo ainda não é Harmada; mas, potencializados pelo ideal, eles conferem um sentido ao real.

Para isso – e aqui volto às reclamações de meu leitor S. M. – é preciso partir do muito pouco e, sobretudo, dos dias miseráveis em que vivemos. É preciso não negar esse presente. Foi só porque escavou fundo a própria tristeza, só porque não abdicou dela e até a aprofundou, que Kafka nos deixou seus extraordinários relatos. É só porque se atém à própria miséria, só porque se asila e, assim, aceita seus limites deploráveis, que o personagem de Noll chega a sustentar a miragem de Harmada. Como já sabem os leitores do romance, depois há uma fuga, e por fim a chegada à capital onde ele se torna, até mesmo, um diretor teatral de sucesso. Nada disso resolve: novos ideais precisam ser tramados para que, mesmo em Harmada, o presente se torne suportável. De repente, ele se vê sozinho de novo. “E não havia mais ninguém por perto, eu acabara só, no meio da intempérie”. Posso dizer de outra forma: acaba sozinho em meio a seu sonho.

Ao amigo Bruce, que o segue pelas ruas de Harmada – que o persegue na busca de seu ideal -, ele diz: “Você resolveu me seguir para ver aonde é que eu ia, e acabou descobrindo que eu não ia a lugar nenhum”. Será esse o fracasso da esperança? Ou apenas a constatação de que, de esperança em esperança, é preciso tramar sempre um destino? Não é que o presente mude magicamente – e é talvez aqui que meu leitor S. M. se equivoque. Não é que mude: não muda, e é isso que o personagem de Noll descobre em sua viagem. Isso não quer dizer que ele não precise do ideal para se mexer, para sobreviver, para saber onde está. Para sustentar seu papel de homem e representar a si mesmo. Aos poucos, de fato, ele se sente em um palco de teatro. A vida não passa de uma “armação”, mas ela só se sustenta se conseguimos olhar para frente.

No apartamento que resolve alugar – que dá para a horta de um convento de freiras –, de repente, acha que vê um menino. Um garoto mudo. “Quem é esse menino? (...) O que farei com ele?” O menino talvez seja o futuro, que, no entanto, só existe no presente também. “Não havia mais o canto na capela. Não havia mais a horta. Nem a noite. Não havia quase nada.” Enfim, já na penúltima página do livro, ele se dá um nome: Pedro Harmada. Ainda detido em seu tempo, sem negar o vazio que o cerca, ele agora incorpora a esperança. Talvez tenha sido isso o que S. M., meu leitor, não compreendeu: que ao falar da tristeza e da ruína, ao suportar (imitando Kafka) o presente intolerável, é um lugar para o futuro e para esperança que tento traçar. Tudo muito precário, tudo insuficiente, mas ainda assim vivo.