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“Fico muito grato de poder ajudar. Quando algum estudante ou pesquisador pedia algo a meu pai ele sempre lhes dedicava tempo e oferecia sua generosidade desinteressada, a fundação herda esse espírito”. Essa foi a resposta que Ezequiel Martínez, um dos filhos de Tomás Eloy Martínez e presidente da fundação que administra o legado do escritor, me deu no ano passado quando entrei em contato pedindo informações para uma pesquisa. Fiz minha tese de mestrado sobre o escritor argentino e graças a amabilidade de seu filho tive a honra de ser o primeiro investigador a consultar os arquivos de Tomás Eloy, quando eles ainda nem estavam totalmente catalogados e disponíveis para consulta. A meu pedido de entrevista para falar sobre esses documentos e o legado deixado pelo pai, Ezequiel respondeu novamente com rapidez e desinteressada generosidade.

 

A fundação foi concebida quando Tomás Eloy ainda era vivo. Como ele a imaginava?

Durante os últimos anos de sua vida, quando ainda lutava contra a enfermidade, meu pai começou a comentar comigo a ideia de fazer uma fundação e até deixou em seu testamento dinheiro destinado para coloca-la em funcionamento. Uma das razões era seu desejo de que todos seus livros, filmes, coleções de música e de arte, fotos, além de seu arquivo pessoal de documentos e manuscritos não se perdessem por destinos incertos e permanecessem em seu país e reunidos para que outros pudessem aproveitá-lo. Com tantas mudanças e exílios, ele foi perdendo muitos livros e papéis valiosos que jamais conseguiu recuperar, e suponho que cada uma dessas perdas era como se tivessem lhe arrancado um pedaço de pele. Além disso, sua intenção era que a fundação não fosse tanto um lugar para recordar sua obra, senão uma instituição que servisse para promover, apoiar e estimular jovens talentos do jornalismo e da literatura, suas duas áreas. Fosse através da docência ou do simples diálogo com todos os jovens que se aproximavam em busca de um conselho ou uma recomendação, ele se sentia muito gratificado em poder ajudar. Era consciente de quanto custava aos jovens ter a possibilidade de serem lidos ou de formar-se com mestres que lhes servisse de guia. Uma das coisas com as quais sonhava através da fundação era que se pudesse entregar um prêmio ou bolsa anual a projetos avançados de ficção, para que seu autor ou autora pudesse se dedicar a terminá-lo sem as distrações de ter que trabalhar em outra coisa para sustentar-se economicamente. É algo ainda pendente, já que passamos por tempos de crise global e fica muito difícil encontrar instituições que queiram acompanhar e apoiar economicamente iniciativas culturais desse tipo, mas estamos trabalhando nisso.

 

Qual a importância desses arquivos? Que pode acrescentar para os leitores e os pesquisadores?

O arquivo conserva um valioso material documental tanto na parte jornalística como quanto a sua obra literária. São décadas de trabalho que refletem não só um método de trabalho, senão uma maneira rigorosa de fazer jornalismo. Para seus romances, mais ainda. Meu pai necessitava ter um conhecimento absoluto de um determinado assunto mesmo que fosse só para escrever uma linha. Por exemplo, se queria colocar a posição de uma estrela no céu em determinado dia de tal ano e em tal latitude, devorava livros e artigos sobre constelações até quase ser um especialista no assunto; ou entrevistava especialistas que lhe dessem rigor e verossimilhança aos caprichos de sua imaginação.

 

Os documentos, em rigor, não são públicos, mas estão acessíveis para investigadores, jornalistas, acadêmicos ou qualquer que manifeste um interesse real por trabalhar com eles, como acontece com os arquivos de escritores que se conservam em universidades ou instituições do mundo todo.

 

Não fosse a fundação, o que teria acontecido com esse material?

Em geral, os escritores prudentes deixam seus documentos em custodia de alguma universidade. A de Princeton, por exemplo, tem o maior arquivo de manuscritos de autores latino-americanos. Lá estão correspondências, originais e material incalculável de Borges, Vargas Llosa e Ricardo Piglia (esses dois últimos venderam, em vida, seus arquivos à universidade). O arquivo completo de Manuel Puig está na Universidade de La Plata, cedido pelo irmão; outros se conservam em fundações. Talvez o particular do arquivo de Tomás Eloy é que tenha sido catalogado e organizado em colaboração estreita com seus filhos. Muitos dados ou informações podem escapar a um investigador ou acadêmico que não conheça muito aspectos pessoais da vida de um escritor. Essa proximidade, no nosso caso, faz com que alguns documentos ou cartas possam ser revisados ou interpretados em toda sua dimensão.

 

De tudo o que há, qual é o documento que lhe parece mais importante?

É difícil saber o que é mais valioso ou o que chama mais atenção. As correspondências com alguns dos escritores do boomlatino-americano? Sua documentação sobre o peronismo ou as gravações de áudio com Perón? Todas as crônicas que escreveu no exílio e que só existem hoje em papel? As diferentes versões do mesmo romance? As dedicatórias de alguns dos autores que podem ser encontradas em alguns volumes de sua biblioteca? Por exemplo, agora me lembro de um livro que Gabriel García Márquez dedicou a ele, e que vai assinado assim: “daquele que não escreveu Santa Evita”. Cada documento ou arquivo resulta valioso segundo o interesse particular de quem o estuda. Em todos os casos, suponho, sempre alguém se encontrará com algo desconhecido ou surpreendente. Pessoalmente, por exemplo, me emocionou muito descobrir a carta onde o jornal La Gaceta de Tucumán, sua província natal, o nomeava aos 19 ou 20 anos como “aspirante” de redação, com um salário de 700 pesos mensais daquela época. Nem sequer sabia que essa carta existia, até que começamos a organizar o arquivo.

 

Houve algum documento que vocês ficam em dúvida se publicam ou não?

Ele fazia até três, quatro, cinco versões de um romance até ficar com a definitiva. Mas conservava todas, segundo dizia, “como testemunhos dos meus fracassos”. Não me atreveria a publicar um romance como Mujer de la vida, que ele deixou inédito, porque o considerava ruim. Mas também não o destruiu. Penso que mais que ventilar a intimidade de um escritor, o que fazem esses documentos são abrir as portas a um processo de escritor, às estruturas da criação, à engenharia detrás de cada obra. Sempre é melhor descobrir tudo isso de primeira mão, que deixar a imaginação aberta às especulações ou teorias equivocadas. É minha opinião.

 

 

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