Foi em um mesmo mês, em 1996, que travei contato com o trabalho de dois artistas poloneses que viriam a se tornar tão importantes para meu pensamento poético, ensinando-me cedo a intuir a conjunção entre estética e ética, antes mesmo de descobrir tal proposição explícita nos trabalhos de um pensador como Ludwig Wittgenstein. Foi em novembro daquele ano, creio que apenas com uma semana separando os dois acontecimentos, que a TV Cultura exibira o filme Krótki film o miłości, (1988), conhecido no Brasil como Não amarás, de Krzysztof Kieślowski; e um documentário sobre a poeta Wisława Szymborska (1923 – 2012), que acabava de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, transformando-a, da noite para o dia, de discreta poeta do Leste Europeu, com uma obra bastante concisa, em celebridade literária mundial. Eu tinha 19 anos. Os filmes de Kieślowski passariam a ser refeição espiritual frequente dali por diante, mas a poesia de Szymborska, que me fascinara tanto naquele documentário a mostrar uma mulher elegante e sardônica, fumante inveterada, com vocalizações discretas mas firmes de seus poemas, e num momento em que ainda não se podia usar a Internet com a mesma facilidade de hoje, permaneceria escondida e inacessível até o ano 2001, quando a revista carioca Inimigo Rumor publicaria uma tradução coletiva de seu poema Autotomia, trazendo-a de volta à minha mente e iniciando minha busca por traduções de seus poemas em quaisquer línguas em que estivessem disponíveis. Até hoje, Autotomia segue sendo um dos meus poemas favoritos, e tão claro em suas características marcantes dentro da poética de Szymborska: “Diante do perigo, a holotúria se divide em duas: / deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo, / salvando-se com a outra metade. // Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação, / em resgate e promessa, no que foi e no que será (...)”, chegando àqueles iluminados versos “Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida. / Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou”, mas encerrando o poema com aquele ceticismo que tem sido associado à poeta, mencionado com frequência nos elogios e orações funerárias publicadas depois de sua morte, em fevereiro, um ceticismo porém estranhíssimo, que parece conseguir conjugar esperança e desespero numa mesma asserção: “O abismo nos cerca.”

 

Em seu artigo publicado no jornal Il Foglio Quotidiano (ano XVII, n. 29, pag. 2), na sexta-feira posterior à morte da autora, o crítico italiano Alfonso Berardinelli fala em “ceticismo produtivo”, citando a própria poeta, em sua declaração de que “O poeta moderno é cético e desconfiado”, segundo ela, “também – e talvez, sobretudo – nos confrontos consigo mesmo”. Mas se este ceticismo e desconfiança em relação ao poeta e à poesia no mundo contemporâneo levavam-na a uma textualidade de hesitações diante do que anteriormente, entre os poetas românticos, por exemplo, seria visto como a busca de verdades ou o que mais se aproximasse destas, Wisława Szymborska nunca temeu buscar no mundo e suas ocorrências e catástrofes uma espécie de parâmetro ou balança moral e ética que, ao mesmo tempo, parece ligá-la justamente àqueles poetas românticos que viam na natureza uma manifestação do divino. Cética, sim, mas nascida em um país tão marcado pela cultura judaico-cristã como o é a Polônia, a estes parâmetros e verdade intuídos no que chamaríamos de leis (tão pouco misericordiosas) da natureza, e aí reside talvez sua diferença em relação aos poetas românticos que a precederam, como Blake ou Keats, a busca por conhecimento na poesia da polonesa parece operar-se entre o que se aprende com a natureza e o que se desaprende com a História. Em seu trabalho, conhecimento e sabedoria não parecem ser operações de adição ou acumulativas. Pelo contrário, a poeta parece dizer que é por subtração de certezas que chegamos a algumas verdades talvez ligeiramente menos instáveis. Seu poema sobre a estratégia da holotúria diante de seus predadores parece-me bastante emblemático neste aspecto. Se cedo ou tarde a existência há-de devorar-nos, Szymborska sugere que colaboremos com o que tanto tememos justamente para postergá-lo. Parece-me um pensamento de grande coragem, de uma tenacidade ética gigantesca. Em seu discurso On courage and resistance, quando recebeu o Prêmio Oscar Romero, a escritora norte-americana Susan Sontag (1933 – 2004) — outra escritora tão apaixonada pela fortitude ética — escreveu: “Nós somos carne. Nós podemos ser perfurados por uma baioneta, feitos em pedaços por um homem-bomba. Podemos ser esmagados por uma escavadeira, fuzilados dentro de uma catedral.”

 

É esta mesma consciência da fragilidade de nossa existência física que parece comandar a atenção de Szymborska, exigindo e implicando talvez menos ceticismo que uma modéstia tenaz, uma modéstia que é ao mesmo tempo bravura. Em seu poema Torturas, ela escreve: “O gesto das mãos protegendo o rosto, / esse permanece o mesmo. / O corpo se enrosca, se debate, se contorce / cai se lhe falta o chão, encolhe as pernas, / fica roxo, incha, baba e sangra. // Nada mudou. / Apenas o curso dos rios, / do contorno das costas, matas, desertos e geleiras. / Entre essas paisagens a pequena alma passeia, / some, volta, chega perto, voa longe, / estranha a si própria, inatingível, / ora certa, ora incerta da sua existência, / enquanto o corpo é, é, é / e não tem para onde ir”, em tradução de Regina Przybycien na bela antologia publicada no ano passado pela editora Companhia das Letras. Nosso corpo degradável e nossa dor como bens comunitários. Parece-me uma percepção de um discernimento espiritual aterrador, lembrando-me o aviso de Orides Fontela, de que “a lucidez / alucina”. E foi dialogando várias vezes com esta poeta polonesa, de quem pude conhecer o trabalho apenas em tradução, em busca desta lucidez e clareza assustadoras, consciência de tudo aquilo que sangra e incha e baba, o único que parece seguir invariável em meio às catástrofes acumulativas sob os pés do Anjo de Walter Benjamin, que eu próprio escrevi num poema que “minha reação / à temperatura é a única / invariável em minha equação / pessoal para a História”, e “se a garganta se engarrafa / e os lábios racham, não há sistema de defesa / contra os herdeiros / de Eros ou Herodes, / ilustríssimos predadores”, identificando-me, no entanto, mais com as mixinas que com as holotúrias da polonesa.

 

Se Szymborska mantinha sua atenção sobre as coisas concretas deste mundo devastado e devastador, instintivamente parecia manter-se consciente do que Ludwig Wittgenstein formulou com as palavras: “O mundo é a totalidade dos fatos, não das coisas”, sabendo que tais fatos são apenas coleções de palavras, e, como o austríaco, parecia acreditar também que “mesmo depois de serem respondidas todas as questões científicas possíveis, os problemas da vida permanecem completamente intactos”. E estes problemas talvez tenham solução nenhuma. Se Szymborska parece confiar em certas lições que podem ser intuídas entre a Natureza e a História, ela não se entrega jamais a qualquer determinismo ou mera relação de causalidade, pois parece, mais uma vez recorrendo a Wittgenstein, saber que “algo pode ser o caso ou não ser o caso e tudo o mais permanecer o mesmo”. Em seu poema Por um acaso, Szymborska escreve: “Poderia ter acontecido. / Teve que acontecer. / Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe. / Aconteceu, mas não com você. / Você foi salvo pois foi o primeiro. / Você foi salvo pois foi o último. / Porque estava sozinho. Com outros. Na direita. Na esquerda. / Porque chovia. Por causa da sombra. / Por causa do sol. / Você teve sorte, havia uma floresta. / Você teve sorte, não havia árvores. / Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio, / um batente, uma curva, um milímetro, um instante. / Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha. / Em consequência, porque, no entanto, porém. / O que teria acontecido se uma mão, um pé, / a um passo, por um fio / de uma coincidência. / Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso? / Um só buraco na rede e você escapou? / Fiquei mudo de surpresa. / Escuta, / como seu coração dispara em mim.”

 

Neste exato momento, há torturas, guerras, catástrofes ocorrendo. Holotúrias seguem sendo devoradas. Para estes fatos, a morte de Wisława Szymborska a 1° de fevereiro de 2012 não faz a menor diferença. Mas se ela estivesse viva, certamente haveria maior alegria no mundo para tantos de nós que a lemos com admiração e o prazer daquelas três palavras que ela celebrou: “Não morrer demais”.

 

 

Ricardo Domeneck é poeta brasileiro residente em Berlim. Autor, entre outros, do livro Cigarros na cama (Berinjela/Modo de Usar & Co.)

 

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