Martin Caparrós e Persio Arida têm a mesma semelhança física de um Maradona ao lado de um Pelé. O primeiro é argentino, 54 anos, tem um vasto bigode de artista plástico, com as pontas para cima, sobrancelhas espessas, que lhe dão um ar severo, é praticamente careca e veste-se com apuro. Um homem das artes, que sempre aparece nas fotos com poses de bom conversador e tem a voz grossa dos fumantes convictos. Há muitos anos é jornalista e romancista. Conseguiu escapar da matança em seu país em 1976, quando os militares tomaram o poder. Viveu em Madri e Paris até o retorno da democracia, em 1983.

 

O segundo é economista, 59 anos, descendente de libaneses, cabelos cada vez mais grisalhos e uma certa timidez no semblante. Está invariavelmente de terno e gravata, sem barba ou bigode e parece ser um homem de fala mansa. Foi preso aos 18 anos, em 1970, quando integrava a famosa organização Var-Palmares, do capitão Carlos Lamarca, e levado para a sede da temida Operação Bandeirantes (Oban), na rua Tutoia, em São Paulo. Sobreviveu por um lance de sorte. Antes de ser levado às torturas, ficou sozinho em uma sala e conseguiu olhar seu próprio dossiê.

 

“Para meu espanto, tudo estava lá – nomes, codinomes, atribuições e estrutura organizacional. Aliás, eles sabiam mais do que eu mesmo”. Com essas informações preciosas, Persio (ou Renato) conseguiu falar do que já tinha no prontuário, fingindo que estava “abrindo” e escapou do pior. Muitos não saíram vivos da Oban.

 

Depois da liberdade, foi estudar nos Estados Unidos, acabou se tornando presidente do BNDES e do Banco Central no governo de Fernando Henrique Cardoso, e sua contribuição à literatura brasileira foi a publicação, em co-autoria, do livro Inflação zero: Brasil, Argentina e Israel, pela editora Paz e Terra.

 

Em abril deste ano, Caparrós e Arida deixaram de lado as diferenças físicas e se aproximaram, através da palavra. O primeiro publicou, pela Companhia das Letras, o romance A quem de direito, o que ele denominou de “uma revisão colérica” das opções de sua geração, uma visão intensa e sem filtros sobre a militância de esquerda na Argentina, durante a ditadura. O segundo contrariou a estranha lógica editorial, de que as pessoas “não conseguem mais ler textos longos em revistas e jornais”, e publicou, narevista Piauí, um memorável artigo de 28 páginas, intitulado Rakudianai, parte de seu livro de memórias, que deve ser lançado neste semestre, também pela Companhia das Letras.

 

Caparrós e Arida escrevem sobre tempos atormentados e fascinantes, quando atrasar um encontro com um companheiro poderia selar o destino, quiçá a própria vida. Fazem balanços sinceros e mostram que uma nova geração de romances e testemunhos pode estar surgindo, após o retorno dos militares ao seu lugar de origem – os quartéis.

 

Os companheiros que lutaram armados, o uso da violência, Che Guevara e a ideia do Homem Novo, a noção arraigada do sacrifício revolucionário, a vida clandestina, tortura, engano, o “ponto”, vidas recolhidas em “aparelhos”, prisões, “quedas”, esquecimento, silêncio, vingança, o tempo. Alguns dos temas recorrentes nos relatos e testemunhos sobre as ditaduras que se espalharam pela América do Sul, entre os anos 1960 e 1980, aparecem em um formato bem menos heroico do que estamos acostumados a ver, com pitadas de humor e ironia. O que pensavam aqueles homens e mulheres, no início da vida adulta e já cercados de obrigações e ritos, o que pensam hoje, as lembranças das vidas e mortes. Desta vez, lembranças muito mais intensas dos vivos que uma homenagem aos mortos.

 

Para contar sua história, Caparrós usa o personagem Carlos, ex-militante de um grupo de esquerda que lutou contra a ditadura argentina. Depois de anos tentando ignorar seu passado, já doente e solitário, tem encontros semanais com a jovem prostituta Valeria que geralmente terminam em acaloradas discussões e questionamentos. A esposa, Estela, é desaparecida. Estava grávida quando foi presa, em 1977, e Carlos assume após tantos anos a ideia de vingar sua morte. Um padre, que atuou na prisão onde sua mulher fora detida, torna-se o ícone da vingança, já que é reconhecida a “bênção” que a Igreja Católica na Argentina deu aos militares, em seu ofício de matar.

 

Nas citações iniciais do livro, há uma do Monsenhor Pío Laghi, núncio apostólico de Buenos Aires em 1977, quando o general Jorge Rafael Videla já estava com sua máquina de fazer desaparecidos funcionando na força máxima.

 

“Os valores cristãos estão ameaçados pela agressão de uma ideologia rechaçada pelo povo. O país tem uma ideologia tradicional, e, quando alguém pretende impor um ideário diferente e estranho, a Nação reage como um organismo munido de anticorpos diante dos germes, e assim surge a violência. Nesse caso o direito deverá ser respeitado na medida do possível.”

 

Esse “na medida do possível” resultou num pacto da Igreja Católica com os militares que abortou inúmeras conexões com os movimentos de Direitos Humanos. Um Dom Paulo Evaristo Arns fazia muita diferença, naqueles tempos sombrios.

 

“Eram coisas que eu me perguntava com gravidade e que, em algum momento de descuido, cheguei a achar que deveria saber: como um homem decide viver numa vida que não se parece em nada com a vida dos homens?”, diz Carlos, falando sobre a clandestinidade.

 

As contradições atravessam toda a narrativa. “Mas claro, é evidente que nos enganamos. Nos enganamos como uns animais, para valer, sem atenuantes: nossas tentativas foram tão erradas que os que nos venceram aproveitaram para conseguir que a Argentina fosse muito mais injusta e sórdida e estúpida que antes que nos propuséssemos a melhorá-la, e ainda por cima muitos de nós morreram naquele caminho.”

 

Pouco depois, a constatação: “eu teria de aceitar que esses erros me proporcionaram os tempos mais felizes da minha vida”.

 

O que o motivou a escrever o romance, depois de publicar a trilogia La Voluntad, um volumoso material sobre a história da militância revolucionária na Argentina, no final dos anos 1990, foi a utilização, por parte do Kirchnerismo – citando o ex-presidente Nestor Kichner e sua esposa, Cristina -, da história das organizações revolucionárias para dar um “tom épico” a um governo de centro.

 

“Pensei que queria voltar a escrever sobre o assunto: não sobre os anos setenta, mas sobre o uso do relato deste período”, diz.

 

NÃO É FÁCIL
A palavra rakudianai fora ensinada por um japonês do bairro da Liberdade ao pai de Persio. Quer dizer “não é fácil”, e o velho sempre a usava, para citar os momentos de naufrágio da vida.

 

Se Caparrós acerta um soco no queixo de sua geração (que aparece como “a geração mais fracassada dessa longa história de fracassos que é a história argentina”), Persio mostra o sofrimento pessoal e de sua família, de origem libanesa, abalada com a prisão de um rapaz de 18 anos, envolvido com o comunismo. Pior. Um parente do lado paterno, “reacionário feroz”, denunciou dois casais próximos da família a um militar da alta patente. Perguntado sobre a delação, confirmou sem arrependimento. “Meu sobrinho, primeiro neto da família, um Arida, parente do Patriarca do Líbano, comunista por convicção própria? Jamais”.

 

Em um momento tocante do seu relato, fala de sua prisão, em 1970, quando o governo Médici aperfeiçoou a máquina de tortura, que liquidaria toda a guerrilha armada até 1973. Ele acorda no meio da noite, enfurecido consigo mesmo. “Queria esmurrar as paredes, de ódio da minha própria imbecilidade”.

 

A constatação era simples, mas levou muito tempo para ser processada: “Eu sabia que nada daquilo tinha futuro. Cisões, rupturas, prisões, mortes, desistências – não passava um mês sem que a esquerda revolucionária fosse destruída em mais de um de seus grupos e organizações”.

 

Por trás das lutas intestinas pelo poder e mando, avalia Arida, estavam a inveja, a intriga e a maledicência, firmes e fortes. “Che Guevara estava errado: dali não surgiria homem novo algum”.

 

Mas se a batalha estava perdida, por que arriscar a vida no que ele denomina “altar da revolução?” Por que não desistiu? “A resposta crua: covardia. Mais precisamente, falta de coragem para ser covarde”, prossegue. Numa narrativa repleta de confissões incomuns e pouco heróicas, Persio diz que estava “viciado na aura de heroísmo da vida revolucionária”.

 

Se o personagem de Caparrós perde sua mulher nas garras da repressão, Persio deixa que Silvia, “mulher de olhos vivos e coração iluminado, possuída pela chama da loucura”, vá embora de sua vida para o Oriente. Mesmo convidado para acompanhá-la em uma longa aventura distante de São Paulo, resolve ficar. A militância revolucionária era sua salvação, seu “único mundo”. “Não há nada que tenha tanto efeito em uma mulher quanto um beijo de despedida tendo como justificativa os compromissos com a revolução. Ao final, ela se foi, do Oriente jamais retornou, e preferi esconder de mim mesmo a natureza esfarrapada da minha desculpa”.

 

Caparrós, que pontua seu romance com o tema da vingança, uma revisão constante do que foram aqueles anos, revela com certa crueldade o próprio país. “Fomos a grande promessa e agora somos uma galeria para que turistas passeiem desfrutando do que inventamos mesmo sem querer: o tango, o bife, o futebol. O que quisemos mesmo fazer – se é que realmente quisemos fazer – nunca deu certo”.

 

Os dois autores discordam de um certo lugar comum, de que os militantes presos, mortos, foram “jovens bem-intencionados, mártires-coelhos”, meninos e meninas “generosos ingênuos que queriam melhorar o mundo”.

 

“Sim, é verdade, mas queríamos melhorá-lo com um revólver na mão. O que não nos torna piores – nem muito menos -: torna-nos diferentes do que foi relatado”, diz Caparrós.

 

Persio, sem meias palavras (e exagerando), avalia que se os movimentos guerrilheiros tivessem dado certo, “teriam feito do Brasil uma grande Cuba”.

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