Torquato nov17 julia

 

O mesmo sol que queima é aquele que ilumina. Torquato Neto trocou muitas vezes de sol. Saiu garoto da luz materna de Teresina e foi para Salvador — onde conheceu seus futuros parceiros baianos. Veio para o Rio de Janeiro, onde terminou o ensino médio, encontrou Ana Maria e logo se casou. Tudo nele era muito intenso — os amigos próximos diziam. Ele era alguém que consumia muito o seu redor. Apesar de viver em cidades de forte luminosidade, Torquato era vidrado em vampiros, não à toa foi um poeta que nunca se absteve da linguagem das penumbras, de ler a noite mesmo durante o dia.

Construiu, ao lado de seus parceiros baianos, o movimento tropicalista. Gilberto Gil dizia que Torquato tinha péssima voz, mas era muito musical, talvez por isso sempre tenha escrito e, assim, contribuído fortemente para a apreensão do conceito geral tropicalista durante a elaboração dos textos poético-manifestos. É entregação — ele diria. Os parceiros cantavam suas letras e Torquato permanecia entre o visto e o não visto.

Na icônica Geleia geral, gravada por Gil em Tropicália ou Panis et circencis (1968), podemos observar toda a questão da brasilidade tropical relida a partir do viés oswaldiano da antropofagia. Por outro lado, em Mamãe, coragem, gravada por Gal Costa no mesmo álbum, vemos a partida e o abandono como temas centrais. O eu-lírico parte e deixa a cidade. Ele quebra a proteção e deixa a mãe. E canta: Mamãe, mamãe, não chore/ A vida é assim mesmo/ Eu fui embora. Por várias vezes diz que não vai voltar, então lista possibilidades de afazeres que ela pode realizar para se distrair (Pegue uns panos pra lavar/ Leia um romance/ Veja as contas do mercado/ Pague as prestações). Aquele que elenca formas de cessar a dor da perda é exatamente aquilo que foi perdido. Bastava não ir, mas a vida é assim mesmo/ eu fui embora. Ainda assim, o filho pede que a mãe Seja feliz/ Seja feliz, espécie de apelo último, de repetição quase infantil. Apelo vão. Alguns de nós somos esse eu que possui, ao mesmo tempo, um beijo preso na garganta e corações fora do peito: vulneráveis para viver o que o outro sente, mas feitos de beijos contidos, que não estalam nem se entregam.

PARA QUE RIMAR "AMOR" E "DOR"?

Está na cara: Vê, não encontrei você (...)/ O amor que agente perde um dia/ Nunca mais na vida de novo se tem. O viés amoroso da poética de Torquato absorve um teor de romantismo implosivo (autodestrutivo), adolescente e wertheriano. Não à toa seus temas de amor passeiam pelo verniz da morte. Assim como a famosa letra de Pra dizer adeus, podemos observar nos versos de Cantiga (Daria minha vida/ Pra não te perder), Quem dera (Este amor que é o meu sonho ter (...)/ Sem ele era só/ morrer) e Consolação (Condena morena com pena/ E um dia depois do outro/ Se eu não morro de amor/ Não vale a pena) exemplos dessa pulsão decerto juvenil de findar o existirmos diante de um amor não ou mal correspondido.

Se fala das idas, Torquato também é poeta das vindas do amor — carregadas de leveza e ternura. O mesmo poeta que elabora eus líricos marinados na dor do desenlace é capaz de criar outras vozes, solares, que discutam suavemente um convite para o cinema (Eu só quero saber do que pode dar certo diz em Go back), que se abrem totalmente ao outro, dizendo Pode entrar, pode dispor/ Faça o rancho do meu coração (Rancho da boa vida). Se a leveza comove menos pela simplicidade da emoção comum — o antigo tema amor — vale lembrar Augusto de Campos em poema/prefácio de Os últimos dias de paupéria: estou pensando no mistério das letras de música/ tão frágeis quando escritas/ tão forte quando cantadas. É na ternura que Torquato explora a beleza do amor menor, desse que sussurra no ouvido da amada: A coisa mais linda que existe é ter você perto de mim.

TN: TORQUATO AINDA ASSINA

Organizada por Ítalo Moriconi (UERJ), a nova antologia de textos de Torquato Neto — que contém poemas, letras, crônicas de jornal, fragmentos de cadernos e cartas — será lançada neste mês, que marca o aniversário e os 45 anos de morte (9 e 10/11) do poeta piauiense, que nunca chegou a publicar livro em vida.

O movimento tropicalista terminou em 1969 com o exílio de Caetano e Gil para a Europa. Torquato saíra em 1968, passando por Londres, NY e Paris. Ao retornar em 1970, manteve-se afastado do antigo entorno de composição musical, escrevendo crônicas (na coluna Geleia geral) sobre cinema, música e literatura. Em texto intitulado Filmes, lemos Torquato dizer que ocupar espaço, num limite de “tradução”, quer dizer tomar o lugar. Mais à frente: Ocupar espaço, criar situações. Ocupa-se um espaço vago como também se ocupa um lugar ocupado: everywhere. E aguentar as pontas, segurar, manter. Tiro um sarro: vampiro. O nome do inimigo é medo.

A ideia de utilizar a arte como forma de ocupação e resistência aproxima Torquato do contemporâneo, da utilização do corpo como bastilha e como ato político — vide alunos secundaristas ocupando suas escolas pelo Brasil em 2016. Roberto Corrêa dos Santos (UERJ) explica: Nas artes contemporâneas retorna diferidamente a vontade do fora, a experiência do entorno; falar-se-á de partilha, de troca, de alargamento, de ocupação, de limites expandidos, de territórios e desterritórios, de arquivo, de memória, desmarcações, horizontalismos, e mais.

O primeiro passo é tomar conta do espaço. Faça do seu o que você puder, depois se vire. — diz Torquato.

O ROSTO RETESADO PELO MEDO

Os pássaros de sempre cantam assim,/ do precipício — diz o eu lírico de Literato cantábile. Cônscio de que o canto pressupõe o risco, esta voz, permeada de negações e palavras definitivas, expõe o corpo tenso e a palavra presa na proibição da mudança de pensamento (não se fala. não é permitido/ mudar de ideia. é proibido.). Toda palavra envolve o precipício — lemos. Escrever era provocar, era a possibilidade da precipitação, da queda em mãos fardadas que sempre dizem não. Escrever era assumir o limite (toda palavra guarda uma cilada), era utilizar belicamente as formas líricas que se possui. Para o pássaro, o precipício é inevitável à sua condição. Então ele arrisca, ele canta, ele voa a despeito de estar vetado qualquer movimento/ do corpo

O limite sempre foi um de seus temas.

Torquato vivia entre o medo e o boleto. No Brasil dos anos 1970, era difícil pagar as contas. Foram várias tentativas de projetos de revistas que não tiveram sequência. Para além da sensação de escassez econômica, Torquato ainda usava cabelo comprido que não facilitava seus dias, tornando-se alvo constante de batidas policiais. Em mais de um texto o poeta relata seu medo de sair, seu corpo retesado, duro. É difícil não cortar o cabelo quando a barra pesa — diz.

Esses movimentos exteriores o pressionavam (as contas e o choque) ainda mais, visto que Torquato sempre foi um homem de enorme conflito interno. Nos tempos limítrofes, nos dias de paupéria, a verve melancólica se aguçava, bem como a sensação de aprisionamento (É o lado de dentro/ Trancado, trancado/ Que tal). Não à toa guerra é uma palavra constante na sua obra. Prisão também.

Uma hora a conta de viver imerso em um sistema bélico externo e interno chega. Torquato era um homem da palavra, a palavra era o seu instrumento. Regresso da Europa e afastado de seus antigos parceiros de Tropicália, sua palavra perde a voz. Os movimentos vão cessando aos poucos e a palavra escrita — no jornal ou na revista — vale pouco. Não sustenta.

A MATÉRIA VIDA ERA TÃO FINA

Todo dia é dia dela, dia da viagem de volta. O eu lírico de Todo dia é dia D inicia o poema indicando não apenas o contraste entre o sair e o voltar, mas se apresentando como alguém marcado: Desde que saí de casa/ Trouxe a viagem de volta/ Gravada na minha mão. Este movimento lado de dentro x lado de fora reflete novamente uma discussão entre o interior e o exterior na obra de Torquato, investigando agora a subjetividade do corpo angustiado. Com as imagens do urubu (Há urubus no telhado) e da carne salgada (E a carne seca é servida) observamos a morte mais do que à espera: à espreita. Perto. Não à toa a carne não é fresca e os urubus estão no telhado, não no fio elétrico nem voando no céu. Perto.

Os versos seguintes trazem a imagem do escorpião que se encrava na própria ferida, imagem do autoflagelo realizado pelo bicho (ferroando-se no dorso com o próprio aguilhão) quando em situação sem escape, conduzindo-se em direção à morte.

O limite entre vida e morte sugerido pela constante expressão dia D é ratificado pela mudança de voz quando o eu lírico, em devir-escorpião, alterna da terceira para a primeira pessoa do discurso ao dizer só escapa/ só escapo pela porta da saída. É tudo muito próximo, os dias são sempre cheios de portas e janelas e suas ambíguas possibilidades de interpretação. Todo dia é luta interna, de tentar fazer a morte morrer.

Augusto de Campos diz: seria fácil glosar tuas próprias letras/ cheias de tantas dicas de adeus. Pelo fato de Torquato Neto ter cometido suicídio em 1972, certos versos adquirem intensa dimensão dramático-biográfica. É comum encontrarmos análises que tomem o poeta por suas vozes poéticas, lendo nos textos um fim antes do tempo. É comum encontrarmos análises que rejeitem brutalmente qualquer semelhança entre o homem e seus eus líricos, denominando hagiográfica toda leitura que busque encontrar os tais “sinais”.

A morte era importante tema para Torquato. Quando nos debruçamos sobre os temas que chamamos nossos, é normal que direcionemos o sol de nossa atenção para eles — isso acontece do leitor comum ao professor universitário. Analisar a pulsão de fim em uma obra que sugere esta leitura é uma possibilidade que pode e deve ser realizada sem que necessariamente derrapemos em santificações redutoras — ainda que sugeridas pela própria obra (que diz: Glória glória aleluia/ Glória ao homem que deve morrer).

Torquato Neto veio desafiar o coro dos contentes com suas construções desconcertantes. Veio falar de tristeza e morte com simplicidade e sem fazer concessão. Como o suicídio de um jovem poeta choca ao passo que o mitifica, é recorrente a busca por “explicações”, pelos “motivos” de tudo ter acontecido. Durante debate no encontro da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic) deste ano de 2017 na UERJ, a professora Ana Chiara, também da UERJ, explicou que ninguém se finda por um motivo específico, que a pulsão de morte do suicida precisa apenas de um gatilho, uma estratégia fatal. Não precisa necessariamente de uma causa.

O suicídio mitifica, mas a verdade é que não tem por quê. Por mais que estatísticas da época sejam de difícil análise (visto que o número de suicidados nos porões do regime militar é incontável), dados de 2014 da OMS mostram que suicídio é a segunda maior causa de morte entre homens de 15 a 29 anos. A despeito do tabu social, tirar a própria vida, portanto, é uma forma comum de deixar o mundo. Torquato morreu aos 28 anos como “um cidadão comum”: ignorando a placa de PERIGO, afundando no caos, saltando de uma vez, transpondo o paredão.

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