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Um jovem aspirante a escritor escreve um romance. Junta ao romance uma carta e envia-os ao crítico. Na carta justifica suas escolhas, e, mais do que isso, os possíveis erros que seriam frutos da sua incapacidade em julgar de algum modo as qualidades do seu trabalho, afirmando não ter a “autocrítica” necessária para isso. Este é o mote para um dos artigos que Aderbal Jurema escreveu para suas colaborações nos jornais pernambucanos.

 

O artigo, intitulado Conversa sobre um romance e publicado no Jornal do Commercio, exprimia a sua preocupação em divulgar as obras da província no âmbito nacional de nossa literatura, desde que elas apresentassem o “caráter de absoluta generalidade”.

 

Nesse universo da crítica feita nos jornais e no calor da hora, um diálogo como esse — entre crítico e escritor — não só era possível, como também interessava ao público. A crítica universitária de hoje, que tenta aos poucos cavar um canal de comunicação com um público leitor situado além dos muros da academia, diante desse tipo de evento nos parece monológica e solipsista. Aderbal Jurema transforma a curiosa coragem do escritor sem talento na oportunidade de dar orientações aos jovens aspirantes, situando o valor de uma possível literatura de província.

 

Logo no início de seu artigo ele procura distinguir com lucidez a diferença entre as obras verdadeiramente literárias e essas iniciativas que “outro mérito não têm senão aquele da sua origem tipográfica regional”: “Na maioria das vezes são livros publicados com a comovedora economia do pé-de-meia, o que, na verdade, é um duro preço que pagam pelo falso conceito que se está generalizando do que é literatura provinciana”, o que deve provocar, segundo ele ainda, tanto no crítico quanto nos leitores uma admiração mais de ordem sentimental que “literária” propriamente dita.

 

Aderbal de Araújo Jurema nasceu em João Pessoa (PB), em 1912. Veio para o Recife cursar direito, formando-se em 1935. Foi professor de língua francesa e história do Brasil em vários colégios tradicionais da capital. Suas atividades jornalísticas se iniciaram em 1933, no Diário da Tarde, antes mesmo de concluir seu curso na Faculdade de Direito do Recife; e aqui, no Recife, desenvolveu a maior parte de suas atividades de crítico literário, não só no Jornal do Commercio, mas também como colaborador do Diario de Pernambuco, Correio Braziliense e Diário de Notícias. Como crítico de rodapé, embora valorizasse a literatura local, escrevendo sempre sobre ela, não se esquivou da leitura de obras de fôlego que surgiam ao longo dos anos 1940 e 1950 na literatura brasileira — de nomes como Lêdo Ivo, Jorge de Lima e Clarice Lispector.

 

Em Aderbal Jurema, que foi um crítico de grandes intuições, o que lhe faltava de conhecimento mais sólido — presente em Joel Pontes e Moacir de Albuquerque — sobrava-lhe em estilo. Sua escrita é certeira, medida em metáforas precisas e límpidas capazes de numa frase enfatizar um traço, uma característica da obra que analisava.

 

Num artigo voltado ainda para a questão da literatura na província — Poetas nem sempre poetas, Aderbal Jurema dispara, não sem elegância e ironia: “Os livros e cadernos de poesia amontoam-se na banca do comentador literário com a mesma facilidade com que brotam as ervas rasteiras após as primeiras chuvas de janeiro. (...) Todos eles denotam um esforço, um sacrifício que nos comove porque representam, sempre, esgotantes dispêndios pecuniários num país em que poesia não se vende, isto é, os livros de poesia não têm público de livraria. Mesmo assim, contrariando a lei da oferta e da procura, nós continuamos inflacionistas em matéria de livros de poesia. Por isso não me resta outro recurso que não o de os reunir num só artigo em que passe em revista alguns deles que, aliás, pela repetição das palavras, pelo modismo do verso, poderiam se resumir num só, tão igual ou parecidos se apresentam”. Em vários de seus artigos pode ser sentida essa preocupação quase pedagógica, como se pudesse incitar a reflexão e fomentar a crítica no escritor iniciante, poeta ou prosador.

 

Essa mesma ironia, o estilo bem-humorado e ao mesmo tempo preciso está presente num famoso artigo seu, geralmente citado na maior parte das biografias sobre o crítico: Niponização da poesia, de 1953. Ao passar os olhos no título o leitor tem a impressão de que vai ler um texto sobre possíveis relações da poesia brasileira com a literatura japonesa e encontra algo completamente diverso. O artigo trata de Coroa de Sonetos, do então jovem Geir Campos, prefaciado por Augusto Meyer, denominado por Jurema como “um admirável mestre da literatura brasileira”. À medida em que o artigo se desdobra a ironia do título se revela: “Não são propriamente sonetos e sim epitáfios de uma geração que, ao invés de sentir o drama do homem nas fronteiras da técnica, se estiola nas velhas maneiras acadêmicas, com a disposição de quem quer praticar o harakiri em seus sentimentos mais puros e mais humanos”. Pois, segundo Jurema, isso seria tendência entre muitos jovens autores, a de praticar “uma forma de eutanásia nos grandes temas”, engolfando-se “niponicamente, numa poesia de artesanato suicida”.

 

Aspecto importante a ser destacado nos escritos de Aderbal Jurema é essa exigência ao poeta e ao prosador de cantarem e de tratarem do tempo presente. Para ele, nesse tempo em que vivemos, a poesia é a última das barricadas. Essa conexão com o seu tempo, a adesão ao que é urgente em ser sentido e experienciado pela imaginação do autor é o que Jurema elogia em Joaquim Cardozo no artigo Poetas do nosso tempo, pois o poeta da Visão do último trem subindo ao céu teria conseguido “num tom particular falar de um modo geral, o que todos nós entendemos, sejamos poetas ou não”. Tal ética do compromisso não pode ser confundida com a subserviência da literatura a alguma ideologia. Não é nisso que o crítico pensa quando julga negativamente uma parte da poesia do seu tempo, momento em que floresceu a geração de 40, mas na possibilidade de uma nova geração que, sendo capaz de evitar o puramente livresco, consegue fundir “as altas qualidades da pureza essencial” da poesia com a “transparência verbal dos sentimentos”. Como exemplo, tome-se a leitura que ele faz de Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, então recém-lançado. É nessa obra do autor alagoano que Aderbal Jurema vai exaltar e tentar demonstrar como a poesia pode comprometer-se com o seu tempo sem se reduzir às forças sociais que o comprimem: “A rapsódia, nesse estranho e lúcido Robinson, não aparece como pedaço de canções arrebanhadas a esmo, nem tampouco se configura na simples repetição dramática da gesta de um povo. Na Invenção de Orfeu ela adquire a tonalidade de um cântico moderno capaz de expressar, através do verso, o sentimento do poeta em face do mundo em trepidação constante”.

 

Uma marca importante — como tivemos oportunidade de afirmar sobre essa linhagem de críticos nos artigos publicados nessa série — é sua inclinação à autonomia, à liberdade de pensar e assim concordar e/ou discordar dos seus confrades e mentores. Já se disse que Gilberto Freyre foi uma espécie de guia intelectual da geração a qual pertence Aderbal Jurema (assim como de muitas outras), mas Álvaro Lins é quem de fato foi um modelo a ser seguido no âmbito restrito da prática crítica. Ele o cita em vários de seus artigos e isso, entretanto, não o impede de discordar do “Snr. Álvaro Lins”. Ao escrever sobre o livro Fonte invisível, de Augusto Frederico Schmidt, Aderbal Jurema não deixa de trazer o entusiasmado julgamento de Lins, para quem Schmidt é um poeta do passado, do futuro e também do presente; e opor-se logo depois a tal juízo com sua certeira e habitual contundência: “Mesmo que precisemos de mensagens neo-românticas, não serão as do Snr. Augusto Frederico Schmidt capazes de repercutir no homem de nossos dias”.

 

Certeiro também ele é ao apontar aquilo que acredita ser problemático no abundante lirismo desse poeta: “Da leitura de Fonte invisível, tendo-se em conta os livros anteriores, pode-se concluir que o Snr. Augusto Frederico Schmidt é um poeta que precisa urgentemente de condensação”. Para Jurema, Schmidt incorria no grande erro de toda uma geração nova de poetas que se deixava capturar pela arapuca da eloquência, permitindo que seus versos fluíssem copiosamente, mesmo que carecessem de convincente voltagem poética. No artigo intitulado Um neo-romântico da poesia, ele ainda sugere que toda a produção de Schmidt poderia ser reduzida a um volume do porte de Fonte invisível e, contido aí então o seu essencial, o resto deveria ser esquecido. Para Jurema, a “abundância de sua produção é uma conspiração permanente contra a sua força poética (...)”.

 

Como outros companheiros de rodapé, Aderbal Jurema, guiado por suas intuições, acerta e erra. O julgamento que faz do terceiro romance de Clarice Lispector é curioso. Começa seu artigo Uma romancista sitiada pela poesia situando a técnica literária da autora entre o que há de mais moderno e experimental na literatura de ficção daquele momento – em consonância com Lins: James Joyce e Virgínia Woolf. Após resumir rapidamente o romance A cidade sitiada, suas personagens, e seu enredo; ele fecha o artigo afirmando que “estamos diante de uma romancista que não ficará ignorada na moderna história da nossa literatura de ficção”.

 

Não há crítico que não tenha cometido erros, que se inscrevem nos limites do seu pensamento, nas fronteiras do seu método. Em seu artigo Literatura e psicanálise, Aderbal Jurema faz colocações muito justas sobre as implicações do escritor ao transformar a abordagem psicanalítica em matéria-prima do romance ou do drama. Mas é infeliz nos exemplos que cita, entre eles Nelson Rodrigues, que para o crítico é um escritor com “absoluta falta de tato psicológico e de respeito ao espectador”. Aqui se evidencia o caráter conservador do cidadão que, nesses momentos, submete o crítico, e que muitas vezes não percebeu a autonomia do literário diante da moral do seu tempo. Tenta explicar que essa literatura, em fuga para “as regiões mais podres da vida” é fruto do estado político de coisas em que se encontra o mundo ocidental, da técnica espúria de governar os povos ao suprimir o indivíduo, fosse o regime fascista ou marxista. A trajetória política de Aderbal Jurema, porém, confirmou na dimensão política o seu viés conservador: foi deputado federal por Pernambuco no Partido Social Democrático (PSD) e, logo depois, com o bipartidarismo a partir de 1965, ingressou na Arena, o partido da “situação”.

 

O que nos interessa em Aderbal Jurema são as lições possíveis para uma crítica do nosso tempo: o diálogo, a autonomia de pensamento, a preocupação com a formação do escritor, a atenção ao universo cultural local, o estilo despojado e de leitura prazerosa. Seu conservadorismo político mantemos a distância. Para conhecer sua crítica há duas coletâneas – de difícil acesso: os dois volumes das Provincianas: Poetas e romancistas do nosso tempo, o primeiro de 1949 e o segundo de 1953. Neles o curioso ou o interessado encontrará muito do que foi a crítica de rodapé de qualidade publicada nos jornais pernambucanos.

 

 

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