ProsaBrasileira

A primeira impressão é a que segue. Se ela fica, tanto melhor, mas para a literatura, os bons começos de livro são aqueles que, já ali quando pela primeira vez se abre a janela, sabem medir a quantidade de luz que deve incindir sobre todo o espaço da narrativa. Decidimos então fazer uma seleção dos melhores começos da prosa contemporânea brasileira, aquelas publicadas pós anos 2000. Em nosso papel de valorizar exatamente essa literatura que está sendo produzida agora, que nos fala desse tempo fragmentado do agora, fazer essa seleção diz respeito a identificar também as vozes que podem abrir as outras janelas.

"Chega um cheiro de cigarro da mesa ao lado. Aspiro. Não fumo, nunca fumei, se me perguntarem, não gosto de cigarro, não perguntam, já sabem. No entanto, gosto. E podia parar por aqui. Porque é nisto que penso. Nessas histórias que parecem uma coisa e são outra. Se forçar a barra, chego no suspense, no será que. Por exemplo. Espero Roger. Já sei. Oi. Oi. E aí. Tudo bom. E, quando afinal ingressarmos no pós‑introito, ele vai falar do Guarujá. De eu ir ao Guarujá. E eu vou dizer que não quero. E, no entanto, quero."

O que deu para fazer em matéria de história de amor, de Elvira Vigna

"Não vejo nenhuma metáfora no que eu digo. É como se tudo estivesse na sombra. Houve um tempo em que eu frequentava um restaurante obscuro, que não existe mais, chamado Seiyoken, numa rua mal-afamada da Liberdade. A comida era boa, o preço honesto e o serviço simpático, para dizer o mínimo, já que nunca nos expulsaram. Quase sempre havia lugar, e não passava pela minha cabeça, nem pela dos meus colegas de faculdade, que a algazarra que costumávamos fazer depois de uns copos de sakê e de cerveja pudesse incomodar os outros clientes. Éramos muito convencidos e cegos para pensar duas vezes antes de levantar a voz e discorrer sobre o que não interessava a ninguém, a começar pelos garçons, que não só ignoravam o tom das nossas discordâncias ou, pior, da nossa autocomplacência, como aproveitavam o fato de estarmos engasgados com o que nós mesmos dizíamos, para saírem da sombra que nos envolvia e aumentava conforme também avançavam as horas e a nossa bebedeira (sem que percebêssemos, iam apagando as luzes) e encherem os copos vazios, sem que se fizessem notar, garantindo assim uma gorjeta maior no final da noite e do nosso porre. Quando dávamos por nós, já estávamos no escuro."

O sol se põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho

"A voz da mulher atraiu tanta gente, que fugi da casa do meu professor e fui para a beira do Amazonas. Uma índia, uma das tapuias da cidade, falava e apontava o rio. Não lembro o desenho da pintura no rosto dela; a cor dos traços, sim: vermelha, sumo de urucum. Na tarde úmida, um arco-íris parecia uma serpente abraçando o céu e a água.
Florita foi atrás de mim e começou a traduzir o que a mulher falava em língua indígena; traduzia umas frases e ficava em silêncio, desconfiada. Duvidava das palavras que traduzia. Ou da voz. Dizia que tinha se afastado do marido porque ele vivia caçando e andando por aí, deixando-a sozinha na Aldeia. Até o dia em que foi atraída por um ser encantado. Agora ia morar com o amante, lá no fundo das águas. Queria viver num mundo melhor, sem tanto sofrimento, desgraça. Falava sem olhar os carregadores da rampa do Mercado, os pescadores e as meninas do colégio do Carmo. Lembro que elas choraram e saíram correndo, e só muito tempo depois eu entendi por quê.
De repente a tapuia parou de falar e entrou na água. Os curiosos ficaram parados, num encantamento. E todos viram como ela nadava com calma, na direção da ilha das Ciganas. O corpo foi sumindo no rio iluminado, aí alguém gritou: A doida vai se afogar. Os barqueiros navegaram até a ilha, mas não encontraram a mulher. Desapareceu. Nunca mais voltou."

Órfãos do Eldorado, de Milton Hatoum

"Essa história começa um tempo atrás. Tempo suficiente para três vidas enfileiradas de mãozinhas dadas, vidas em fila indiana prontas para o bote do tigre. Naquela época eu ainda não conhecia Herman Melville, Franz Kafka, Thomas Bernhard, Raymond Carver, Ricardo Piglia, César Aira ou Vladimir Nabokov. Eu era uma criança obcecada por dinossauros e animais ferozes: leões, tigres, ursos. Viajávamos de carro: meu pai, minha mãe, meu irmão e eu.
No começo todo conto é ridículo, dizia, Kafka. É um corpo mutilado tentando ganhar forma.

Um corpo estranho, de Bernardo Brayner

Quando em plena Conde da Boa Vista, em meio à visão purgatorial que constituía, emparedada por edifícios antiquados e soturnos, aquele homem sem nada de extraordinário começou a passar mal, as pessoas não se interessaram. Um dia de mormaço numa cidade tropical e litorânea, mas situada em grande parte abaixo do nível do mar, quase toda construída sobre pauis e mangues arretados, volta e meia tem esse efeito sobre alguém num ajuntamento de gente como era sempre o caso ali. O ar não era livre, mas um fluido estagnado envolvendo os corpos numa película pegajosa que selava os poros e sedimentando-se como lama nas fossas nasais, enterrando os transeuntes por dentro."

A boa ação, de João Paulo Parísio em Legião anônima

"A praia era outra - areia áspera, ondas frias -, o litoral, o mesmo. Apenas muito abaixo na imensa costa amparada pelo mar. Tempos atrás parecida: imersa até as narinas na água morna, filho pequeno, e o marido lá com os amigos sobre os grãos macios, textura de pó de arroz. Olhando o grupo de longe, descolou no intervalo de um relance daquela sina atrelada ao casamento recente:
- O que eu estava fazendo aqui? - as palavras sopradas de fora para dentro, ela meio submersa e o aperto na boca do estômago. Dias depois fez as malas pegou o menino e foi-se embora para perto das irmãs, do pai, da mãe e da única cidade onde sabia viver: a sua. Não houve apelo nem promessas que adiantassem. Não queria e estava acabado. Tudo acabado."

Anel de vidro, de Ana Luisa Escorel

"Uma vez que cabe a mim, teu narrador, a obrigação de narrar, e a ti, meu leitor, a de ler - se assim te apraz -, faz-se mister, por questões de cortesia, que nos apresentamos. Porém, não sendo possível que eu te conheça, não há sentido que conheças a mim, posto que cá eu ficaria em posição de desvantagem contigo. Permita-me, então, que aqui apresente somente minha intenção, e esta é a de narrar. E, ao fazer tal afirmação, estabeleço o compromisso que te narrarei somente aquilo que vi; e o que não vi, ouvi; e o que não vi nem ouvi, li. Já aquilo que não vi, ouvi ou li, inventei, pois, se as passagens mais cheias de assombros e maravilhas são todas verídicas, coube às mais banais e cotidianas o fardo de serem todas fictícias, do contrário, como se sabe, a narrativa não anda, e é preciso dar verossimelhança aos fatos.
Os fatos! Pois vamos a eles.

Os quatro soldados, de Samir Machado de Machado

É dia, alguém leva outra pessoa para juntos não chegarem.
Alguém leva toda a culpa para outro inocentar.
Alguém descobre que tudo que tem é nada.
É dia, alguém atravessa uma linha tênue.
Estou sozinho agora, em algum lugar minha pequena dorme, e finalmente estou sozinho agora.
Meu nome não é o mesmo, e nem foi antes, mas eu tenho alguns motivos para não querer ser chamado.
Cruza a sala, ao banheiro ele chega.
Mais atenção às coisas que geralmente já viraram rotina.
Barbear.
Em algum lugar uma letra de amor é escrita, e uma poesia é rasgada.
Em alguma casa, um pequeno espelho reflete um nariz que podia ser mudado.
A descarga foi dada; a porta, fechada; o zíper, puxado; o chinelo, recolocado; o botão, abotoado; a descarga, terminada; o ralo, lotado; o rosto, parado; o calor, acumulado no assoalho; a vida, passada; o futuro, usado.
Saiu."

Deus foi almoçar, de Ferréz

"Hoje o primeiro velhinho morreu. E eu começo a envelhecer. Não eram coisas boas para se pensar. Mas não havia escape. Seu Odair morrera. Uma pneumonia sem cura, sem velório. Meu voo para Madri e o enterro do lado de cá do Atlântico. Ninguém sai ileso. Malas arrastadas no corredor, um cartão de pêsames escrito às pressas e, depois, depois a fuga.
Não, nada a ver com seu Odair. Nem com o edifício Richard Wagner, nem com o quinto andar. Tirava férias; sim, estaria livre de olhares vigilantes, de ser espreitada e escarafunchada a cada percurso de elevador. Livre da opressão de ter vizinhos e família. Livre de perguntarem, essa aí, que passa o dia na escrivaninha e não se interessa pelos preços da feira, essa aí que divide o apartamento com a outra tal, essa aí, essa mesma, do que vive? No entanto, buscava me desvencilhar da memória, do horror de dizer ao médico: eu bancarei a morte de meu pai. Viajar é uma forma de sonhar. Também um modo de fugir. Um velho truque para ser outro. Ou na verdade, para ser você mesmo.
Quando foi a última vez que fui eu mesma? Nesse estado de espírito, em fuga das obrigações morais, das lembranças acerca das mortes que me rodeiam, descobri Hemingway. A bordo do avião, comecei a ler Paris é uma festa. Mas não seguia para a França. Dessa vez não."

Um dia toparei comigo, de Paula Fábrio

"Perco meu biógrafo. Ninguém me conheceu melhor que ele. Nascemos um para o outro aos dezesseis anos de idade, em Belo Horizonte, nos idos de 1952. Ele me distinguiu então com a transparência que fiz também minha e continuei a fazer minha em 2010, quando o vi pela ltima vez em vida. Estava deitado no leito do Hospital São Vicente, no Rio de Janeiro. Deitado de costas e com os olhos fechados."

Mil rosas roubadas, de Silviano Santiago

"A voz é rouca, arranhada, cava, como se saída de uma vitrola de antigamente, igual às que, em sua infância, tocavam boleros, tangos, sambas-canção melodramáticos. Anuncia, porém, a voz não a tragédia, e sim uma boa-nova, a sua libertação, da barriga, das tripas, da flatulência, da depressão, o fim da merda, enfim, mas que antes atingirá o seu paroxismo na putrefação, e pode-se dizer que nela a terra já viceja e anuncia que você será parte do ar fresco, da chuva, das borboletas, das flores, você será perfume.
A princípio você estará teso, a carne rígida, o sangue coagulado, mas tão logo o apodrecimento siga, os músculos se soltarão e, quanto mais se decomponham, mais você se aproximará do desejo que teve em vida, de ser tão ágil quanto um dançarino, capaz de sorrir no clímax de um salto sobre um salto, como se verdadeiramente voasse, o sonho de leveza de todo ser humano."

A Voz, de Sérgio Sant"Anna, em Voo noturno

"Cometi um erro emocional, Beatriz se imaginou contando à amiga dois dias depois --foi o que ele disse assim que abri a porta, o tom de voz neutro, alguém que parecia falar de uma avaliação da Bolsa, avançando sem me olhar como se já conhecesse o apartamento, dando dois, três, quatro passos até a pequena mesa adiante em que esbarrou por acaso, depositando ali o vinho com a mão direita e a pasta de textos com a esquerda (e ela se viu desarmada no meio de três sinais contraditórios, o erro, o vinho, o texto, mais a espécie de invasão de alguém que está à vontade-- o que ela havia sonhado, Beatriz teria de confessar à amiga, e ambas achariam graça da ideia -- à vontade, mas não do modo correto) e Beatriz fechou a porta devagar com um sorriso de quem se vê imersa na ironia, e isso é bom; e se virou para escutar o resto, agora vendo-o com as mãos livres, a silhueta contra a luz, os braços brevemente desamparados daquele homem magro:
- Eu me apaixonei por você."

Um erro emocional, de Cristovão Tezza

"Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado. Se digo assim, se pronuncio essa frase que por muito" tempo cuidei de silenciar, reduzo meu irmão a uma condição categórica, a uma atribuição essencial: meu irmão é algo, e esse algo é o que tantos tentam enxergar nele, esse algo são as marcas que insistimos em procurar, con‑ tra a vontade, em seus traços, em seus gestos, em seus atos. Meu irmão é adotado, mas não quero reforçar o estigma que a palavra evoca, o estigma que é a própria palavra convertida em cará‑ ter. Não quero aprofundar sua cicatriz e, se não quero, não posso dizer cicatriz."

A resistência, de Julián Fuks

"- Camila, vá jogar o lixo fora.
Ela escutava ainda os passos no corredor quando, saindo do quarto, caminhava em direção à sala, no momento, agora, em que chega aqui, parada, de pé, tamborilando de leve os dedos na mesa escura, larga, sem toalha e ensebada, poucas cadeiras,na sala de paredes ásperas, em ruínas, num teto sem forro.
Ali estavam três rostos de expectativa: uma boca quase sem dentes querendo sorrir, um nariz carcomido e um queixo caído, tocando no peito. Cumpria-se o rito. Uma disciplina alimentar nem rígida nem permanente: às vezes sem café, às vezes sem pão, às vezes sem carne, às vezes sem nada. Por disciplina. E por hábito."

Minha alma é irmã de Deus, de Raimundo Carrero

"Foi enterrado a 28 de maio com aquele casaco que eu lhe dera em 87, que um dos amantes havia me dado ou roubado ou não sei, era um casaco sal e pimenta vagamente inglês, imagine, ele, logo o velho, logo Álvaro que só se vestia no Minelli desde que eu tinha seis anos e minha irmã quatro, mas de todo modo foi enterrado com um casaco de bom corte, sal e pimenta, meio inglês, que roubei ou ganhei ou não sei que amante remoto eu poderia ter arranjado nos confins do naufrágio de 87 (aqui refiro-me ao meu drama pessoal que agora não vem ao caso) porque o dele (o do velho, o de Álvaro) o arrastou muito antes, vinte anos antes, mais ou menos no início de 70 quando eu o enterrei, nós (eu e minha irmã) o enterramos pela primeira vez, o velho louco, desabiondo y suicida, que aprendera filosofia, dados, timba e a poesia cruel de não pensar mais em si (como naquele tango de Mariano Mores). Por isso aceitou e usou o tal casaco dois números maior, dado ou roubado de alguém que já não precisaria de nenhum (um amante talvez morto ou preso ou exilado) sequer de mim que também já começava a naufragar naquele ano de 87 e meu pai – que só se vestia no Minelli desde 1947 – o aceitou com irônica resignação, o velho pilantra antecipadamente morto, como se soubesse ou adivinhasse ou antecipasse que o enterrariam nele pois que doravante repousa precariamente em paz (mas num excelente casaco de tweed inglês sal e pimenta) no columbário número 80 do cemitério de Vila Mariana, ala B."

Memorial de Álvaro Gardel, de Márcia Denser em Toda prosa

"Nossa mãe tinha avisado: 'Façam de conta que Lelo ainda está vivo, conversem com dona Irene, fiquem como se ele fosse chegar e que vocês foram lá só pra brincar com ele'."

A muralha da China, de Antonio Carlos Viana em Jeito de matar lagartas

"Paulo tentou endireitar as costas para não entrar muito curvado no banco logo na segunda-feira, mas a dor tinha se deslocado para o lado esquerdo da coluna, bem acima do rim, e ele não conseguia, de jeito nenhum, andar com a espinha dorsal completamente reta. Para não causar má impressão, trocou a pasta de lado. Quem o olhasse, com certeza acharia que o peso dos documentos e dos livros que um homem como ele tem que carregar o deixava torto."

O livro dos mandarins, de Ricardo Lísias

 

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