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Enrique Vila-Matas, tradução e apresentação: Priscilla Campos

No contemporâneo, pensar sobre tipos de narrativas da violência é, antes de tudo, um questionamento de recepção e leitura. De que maneira nos comportamos diante de imagens, relatos, sequências de extrema brutalidade e horror? Por que a nossa apatia seletiva ou, além, por que a nossa simples falta de percepção quando somos confrontados com um terror nu, lancinante? Quinzenalmente, Enrique Vila-Matas publica no jornal espanhol El País (num espaço intitulado Café Perec) textos que pretendem traçar certa rota de colisão entre a literatura, a escrita, e o mundo – seu presente histórico, social, cultural. Neste Café, publicado na última segunda-feira (28 de março), o escritor discute, a partir dos atentados em Bruxelas, a ideia da imagem como um campo de luta. Vila-Matas afirma: "é urgente que, enfim, enxerguemos além do instantâneo. Um recorte visual não se trata apenas de objeto contemplativo; é, sobretudo, estopim político e precisa ser entendido como tal, como ele nos explana a seguir:

"O cartaz oficial do Festival de Cannes, que acontece em maio deste ano, é um fotograma de O desprezo, de Jean-Luc Godard (imagem acima). 'Tudo está aí. A escada, o mar, o horizonte: a ascensão de um homem rumo ao seu sonho...', indicaram os organizadores do festival.

Tudo está aí? Talvez, mas para por aí, não vai mais além, é justamente um estereótipo, uma imagem óbvia. Aos organizadores só faltou adicionar a frase das frases: uma imagem vale mais do que mil palavras. Essa crença na autossuficiência das imagens tem um lado estúpido porque, quando falam por si mesmas, caem precisamente no estereótipo mais óbvio. As imagens são uma besteira, diria um parafraseador de Eduardo Mendoza. E são porque, entre outras coisas, na indústria midiática existe uma censura ativa das imagens.

Tomemos um exemplo mais recente, os atentados em Bruxelas. Não sei quantas vezes já ouvimos que o ícone dos eventos belgas é Nidhi Chaphekar, a aeromoça indiana da companhia aérea Jet Airways, a qual vimos mil vezes sentada um banco do aeroporto de Zaventem, ensanguentada e com o uniforme de trabalho rasgado. Mas cabe perguntar-se para que queremos esse ícone. Para propagar mil vezes o nosso terror mudo, que é justo o que esperam os assassinos? O problema principal desse ícone reside no fato de acreditarmos que ele vale mais do que mil palavras quando, em realidade, nessas alturas do horror, contemplamos tantas vezes a aeromoça que já não vemos nada. Ainda que fosse só pela superexposição a que a submeteram, esse instantâneo da aeromoça indiana não faz mais do que nos recordar que uma imagem exige “ser vista”, não só contemplada uma e outra vez. Sua eficácia a nível político é zero. Descartável ícone. Me lembra o que vem dizendo Georges Didi-Huberman faz tempo: “Existe uma superexposição de imagens que nos impede de ver e que, além disso, oculta a superexposição da censura”.

Muito barulho (de imagens que falam por si sós) por nada. Na imagem da aeromoça de Zaventem vemos uma mulher ferida e, após nos compadecermos dela, não encontramos nada para acrescentar: é terrorismo, desgraça, vítima. Essa é justamente a definição de estereótipo: uma imagem óbvia. Didi-Huberman propõe que deixemos de olhar através desses instantâneos óbvios e o façamos de mais longe, estudemos a história, tratemos de encontrar uma ordem crítica com respeito àquilo que vemos. Do mesmo modo que o mundo das palavras tenta sempre devolver a estas o seu sentido, no mundo das imagens deveria ocorrer o mesmo com maior frequência, porque também são um espaço de luta. Aí Didi-Huberman coincide com Godard: é preciso usar as imagens como arma, com um sentido político.

Por outro lado, no rastro de Guy Debord, encontramos os estagnados, os que repetem o clichê de que as imagens são um reflexo da sociedade do espetáculo. Mas como isso já foi dito em seu momento, faz cinco décadas, a cada ano que passa a ideia soa mais gasta e supérflua, como se já tivesse rasgado seu uniforme de trabalho."

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