vargas llosa

Mário Vargas Llosa, que chega hoje aos oitenta anos, é talvez o mais revolucionário escritor contemporâneo, em crescente desafio ao mercado editorial, que privilegia os romances bonitinhos, arrumadinhos, sem perturbar o leitor, capitaneado pelos Estados Unidos, responsáveis pela decadência da narrativa ocidental. Criador, com Gabriel García Márquez, do “boom” da literatura latino-americana, é autor de um grande número de romances ao lado de ensaios densos e reveladores. Desses romances, três deles são eternos e imperdíveis (todos foram publicados no Brasil pela Alfaguara):

llosa guerra1 - A guerra do fim do mundo - Recria através de técnicas renovadores a história de Antônio Conselheiro, o personagem imortal da Euclides da Cunha e símbolo do povo brasileiro.

Trecho:

"O homem era alto e tão magro que parecia estar sempre de perfil. Sua pele era escura, seus ossos, proeminentes, e seus olhos flamejavam com um fogo perpétuo. Usava sandálias de pastor e a túnica roxa que lhe caía sobre o corpo lembrava o hábito daqueles missionários que, vez por outra, visitavam as vilas do sertão batizando multidões de crianças e casando os pares amancebados. Era impossível saber sua idade, sua procedência, sua história, mas havia algo na sua expressão tranqüila, nos seus costumes frugais, na sua imperturbável seriedade que, antes mesmo de começar a dar conselhos, atraía as pessoas."



llosa pantaleao

2 - Pantaleão e as visitadoras - Um romance de incrível habilidade técnica, que começa com narrativa cômica, passa pelo dramático e termina com o patético. Conta a história de um grupo de prostitutas que é enviado aos quartéis peruanos na selva para satisfazer os instintos sexuais dos militares.

Trecho:

"— Você vai me explicar o que isso significa, Panta — se aproxima da cama, solta faíscas pelos olhos Pochita.
— Já disse, amor, é coisa de trabalho — protesta entre os travesseiros Pantita. — Você sabe muito bem que eu não bebo, que não gosto da madrugada. Fazer essas coisas é um suplício para mim, chola.
— Quer dizer que vai continuar fazendo? — gesticula, faz biquinho Pochita. — Vir dormir de manhã, ficar bêbado?
Isso é que não, Panta, juro, isso é que não.
— Vamos, não briguem — cuida do equilíbrio do copo, da jarra, da bandeja a senhora Leonor. — Agora, filhinho, bote estes panos frios na testa e tome este Alka-Seltzer. Rápido, com as bolhinhas.
— É o meu trabalho, é a missão que me deram — se desespera, emagrece, perde a voz Pantita. — Eu odeio isso, você tem que acreditar em mim. Não posso dizer nada, não me faça falar, seria gravíssimo para a minha carreira. Tenha confiança em mim, Pocha.
— Você esteve com mulheres — explode em soluços Pochita.
— Os homens não bebem até o amanhecer sem mulheres.
Tenho certeza que esteve, Panta.
— Pocha, Pochita, minha cabeça está explodindo, as costas doendo — aperta um pano em cima da testa, procura embaixo da cama, puxa um penico, cospe saliva e bile Pantita.
— Não chore, você me faz sentir um criminoso, e eu não sou, juro que não sou.
— Feche os olhinhos, abra a boquinha — avança uma xícara fumegante, franze a boca a senhora Leonor. — E agora este cafezinho quentinho, filhinho."

llosa conversa

3 - Conversa no Catedral - Numa técnica de diálogo, que refaz a montagem da Educação sentimental, de Flaubert, Llosa reconta a história política do Peru, emblemática para a América Latina.

Trecho: 

"Da porta do La Crónica Santiago observa a avenida Tacna, sem amor: carros, edifícios desiguais e desbotados, esqueletos de anúncios luminosos flutuando na neblina, o meio-dia cinzento. Em que momento o Peru tinha se fodido? Os jornaleiros circulam entre os veículos parados no sinal da avenida Wilson anunciando os jornais da tarde e ele começa a andar, lentamente, para a Colmena. De mãos nos bolsos, cabisbaixo, vai escoltado por pedestres que também avançam rumo à Praça San Martín. Ele era como o Peru, Zavalita, tinha se fodido em algum momento. Pensa: em qual? Em frente ao Hotel Crillón um cachorro vem lamber seus pés: vai ver está com raiva, fora daqui. O Peru fodido, pensa, Carlitos fodido, todos fodidos. Pensa: não há solução. Vê uma longa fila no ponto de ônibus para Miraflores, atravessa a praça e ali está Norwin, oi irmão, numa mesa do Bar Zela, sente-se Zavalita, bebendo um chilcano enquanto um rapaz engraxava os seus sapatos, e convidava para beber alguma coisa. Ainda não parece estar bêbado e Santiago se senta, manda o engraxate lustrar os seus sapatos também. Pronto chefe, agorinha chefe, iam ficar feito espelhos, chefe."

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