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Escrito dez anos depois da prisão do autor, que aconteceu em 3 de março de 1936, o livro Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos, descreve episódios ocorridos desde o momento em que o escritor foi levado de casa, em Maceió, trazido para o Recife e, finalmente, transferido para o Rio de Janeiro. Foram dez meses de cárcere, no presídio da Ilha Grande, sob a suspeita (ele nunca foi formalmente acusado) de participação no malsucedido levante comunista de novembro de 1935, mais conhecido como a “Intentona Comunista”.

Na breve passagem por Recife, Graciliano, ex-prefeito de Palmeiras dos Índios e ex-diretor da Instrução Pública do Governo de Alagoas, dividiu uma cela improvisada no quartel de Cinco Pontas com o capitão Mata, oficial da polícia de Alagoas, preso como rebelde. O relato de sua transferência num vagão de trem da Great Western Company para a capital pernambucana até o embarque de navio para o Rio ocupa 33 páginas de Memórias do cárcere, sétimo livro de Graciliano, lançado em 1953 por Heloísa Ramos, sua segunda esposa, meses depois da morte do autor.

Graciliano, ainda preso no quartel do Recife, já às vésperas da transferência para o Rio de Janeiro, tem contato com um certo capitão Lobo, que lhe faz uma proposta perturbadora. “O escritor não só revelou o gesto, como citaria, muito depois, aquele militar entre seus melhores amigos”, lembra o historiador Jacob Gorender (1923-2013) em depoimento sobre a obra do escritor.

“Ora, sucede que eu também conheci o capitão Lobo, já em 1942. Ele estava, na época, em Salvador, e pertencia ao Estado Maior da Região Militar. Dizia-se que integrava o departamento de Inteligência do Exército, o qual hostilizava os movimentos antifascistas, então em crescimento. Havia a informação sobre sua conexão com os órgãos policiais do governo estadual e que inspirava medidas repressivas contra os estudantes e outros setores participantes da campanha antifascista. Para nós, estudantes, era lobo não só no nome”, revela Gorender, para, em seguida, concluir: “É precisamente a ausência de maniqueísmo que confere poder de impacto ao relato de Graciliano sobre o sistema repressivo, no qual, de súbito, se viu introduzido. Justamente pela sobriedade das adjetivações, pela secura do estilo, exatamente por tudo isso adquire peso esmagador a acusação contida no quadro simplesmente realista desenhado nas Memórias”.

Sob o impacto da proposta de Lobo, Graciliano não se convenceu de que o rapaz falara sério: “a mesquinha ideia do logro continuava a perseguir-­me”, escreveu em suas memórias. Oitenta anos se passaram desde aquele encontro com o capitão e a absurda oferta, “largada ali de chofre, da mesa para a janela, da janela para a mesa, sem aviso, sem preparação”, segundo o escritor.

Sobre Lobo, Graciliano procura explicações: “ele condenava as minhas ideias, sem conhecê-­las direito, por que me trazia aquele apoio incoerente? Insolência e brutalidade com certeza me atiçariam ódio, mas seriam compreensíveis, e nada pior que nos encontrarmos diante de uma situação inexplicável. Admitimos certo número de princípios, julgamo-los firmes, notamos de repente uma falha neles – e as coisas não se passam como havíamos previsto: passam-se de modo contrário. A exceção nos atrapalha, temos de reformar julgamentos. Qual seria a razão daquilo?”

Para registrar a passagem de Graciliano Ramos pelo Recife, em 1936, na condição de preso, as três páginas seguintes, ilustradas em formato de HQ, reproduzem trechos do livro que descrevem como foi o inusitado encontro com o capitão Lobo. Os textos foram selecionados pelo professor Lourival Holanda, autor desse pequeno roteiro.
Memórias do cárcere (Editora Record) virou filme homônimo, com direção de Nélson Pereira dos Santos e estrelado por Carlos Vereza no magistral papel de Graciliano. Algumas cenas do filme, lançado em 1984, me ajudaram na composição dos desenhos a seguir.

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