Ilustração por Janio Santos

 

Veja também a segunda matéria de Ficção: Sobre como recriar Camus no Brasil

 

05 de agosto de 1949— Até ontem (dia da chegada nesta nebulosa chamada Brasil), a vontade de não escrever nada, ou de apenas apertar um pouco menos molemente as mãos das pessoas que me dirigem os olhares de uma admiração que talvez busque “sancionar-se” no Outro, como se alguém pudesse ter o real poder de reconhecer ou, mesmo, “dar” a existência (?) a alguém, a um próximo distante...

 

Um cuidado, ao menos: anotar os nomes para evitar o constrangimento, de repente, de esquecer mal educadamente como se chama o adido francês (Paul Silvestre: veio para cá por causa desse nome?) ou o escritor inquieto e de olhos esbugalhados chamado Andrade, Oswaldo*, e seu filho e mais uma mulher que sorri, sorri o tempo todo — e concorda, sempre concorda também. Eu discordei de mim mesmo, num certo momento, e ela também discordou daquilo com que, antes, havia concordado (porque estava sendo dito por mim?)...

 

A luz incomoda. Sobre bananas e peles suadas, entre recortes contrastados em linhas retas e curvas. Os que são europeus apertam os olhos mesmo por trás de lentes escuras (terei me tornado, afinal, um europeu?)...

 

Odores sobem como se as nossas narinas houvessem descido até o fundo de vasos de alguma forma iluminados (como alabastro) pela espécie de clarão que há igualmente nos cheiros adocicados e, de alguma forma, pungentes sem suavidade — assim como um fruto podre pode se anunciar, num cesto enganador, apenas pelo aroma passado, pelo fedor da putrefação começada debaixo das cascas ainda amarelas. É um lugar para o pintor e o sanitarista, o escritor e o naturalista capaz de não apertar o nariz nem desviar a vista.

 

A mulher-que-sorri (Lucia, Luzia, algo assim, o nome pronunciado dentro do sorriso como uma bala mentolada) olha para mim com o seu ar mais “sedutor”. Uma das primeiras coisas que me disse foi que esteve “louca um tempo” — breve período de insanidade que a tornou “mais elegante”, isso ela garantia, com o sorriso de prontidão — acrescentando que se apaixonou pelo médico responsável por seu caso, num hospital muito parecido com este (“cheio de árvores”) da cidade chamada Igapé**, para onde me levaram por causa de uma festa (??) qualquer, e onde agora estamos hospedados, como se ficar hospedado num hospital fosse a coisa mais natural do mundo...

 

Não tive tempo (nem coragem) de dizer que hospitais me deixam mortalmente deprimido: é frequente que eu sonhe com um hospital, sem elevador, no qual cada andar se apresenta deserto e ameaçador, as portas dos quartos, quase todas, fechadas — embora uma delas se abra e apareça uma mulher (que não sorri) a me chamar com familiaridade. Ela sempre tem os cabelos molhados. Isso me atrai e me repugna: por que terá acabado de tomar um banho, a doente pálida do sonho? O que ela esconde?

 

A brasileira sorri, quando eu conto o sonho (e por que resolvi contá-lo?).

 

Ela diz: “É a minha história, meu caro”, num francês quase sem sotaque, mas não, não pode ser a “sua” história, porque o que acontece, quando eu entro no quarto do hospital desse quase pesadelo logo o aposento branco é sinistramente apagado no meu despertar suado, sempre, e quase trêmulo talvez de medo de um algum contágio, porque eu entro naquele quarto e vejo a cama da mulher misteriosa forrada com lençóis manchados assim como a bata da doente, muito folgada sobre o seu corpo nu e, de algum maneira, atraente porque magro e maculado (e ela se posicionou contra a porta, de maneira a barrá-la)...

 

Agora, sou eu que sorrio para a mulher que sorriria com qualquer sonho que eu resolvesse lhe contar. Gostaria de esbofetear (que absurdo) a mulher daqui, a tal que repete que “oohh, é a minha história... meu caro”. E lança uma baforada na minha cara, ela fuma dentro de um hospital de verdade, e ninguém vem lhe dizer que apague o cigarro na piteira que a torna parecida com Mercedes Acosta.

 

Aliás, o segundo nome da “Lucia/Luzia” é Moldávia, não posso esquecer, nunca pensei que houvesse alguém chamado assim (caso não seja um nome falso que todos aceitem como se fosse Moravia, Malfatti, Maldonado).

 

Senhora Moldávia, porque a senhora não se converte, de novo, num protetorado? — vem a vontade de perguntar ao Sorriso Derramado da cara de fachada de edifícios públicos ocupados.

 

“Minha história — conta ela — é que eu fiquei louca antes da guerra (tudo aconteceu antes da guerra), Monsieur Camus... e, oohh, eu tenho saudade desse tempo de loucura entre écharpes e chás” — foi o que ela disse, em francês bem explicado, olhando para mim com o sorriso em riste nos lábios pintados de vermelho vivo e a mão pousada sobre a manga do meu paletó tão inadequado para este triste país quente (o Brasil não é “alegre”, mas triste — e as tardes são profundamente melancólicas, quando caem como meteoros).

 

Serei obrigado a ouvir uma “história de amor” provavelmente inventada aqui, na hora?

 

Monsieur Camus, eu me apaixonei pelo meu psiquiatra tímido, talvez virgem” (eu corei, ela notou e alargou ainda mais o sorriso fixo que, agora, verdadeiramente me incomoda).

 

“E a senhora por acaso providenciou, generosamente, para”...

 

Ela não ouve o resto, e já concorda com a cabeça e, é claro, sorri (do quê?).

 

Achei insuportável continuar ali sentado. Levantei-me, fingindo interesse em ler todos os avisos pendentes do quadro do absurdo hospital chamado “Feliz Lembrança” (quem poderia ter alguma “feliz lembrança” de um hospital, mon Dieu?), porque os hotéis estariam “lotados”, disseram.

 

Em Igapé?...

 

À noite, durante a tal festa “em louvor do Senhor Bom Jesus de Igapé”, tratarei de ficar o mais longe possível da louca senhora saudosa de estar louca (e que não é feia), mas que parece continuar louca o suficiente para fazer parte da pequena comitiva improvisada para o escritor em visita a um país que, eu suspeito, nunca virei a entender, um lugar do trópico úmido que não tem a limpa secura saariana nem a água totalmente gelada dos invernos europeus de bebidas suportadas porque de fato faz frio e você precisa de algo para se esquentar (não se trata de beber, apenas).

 

06/8/49 — Anotações para um conto que muito provavelmente irá ter o título de La Pierre qui pousse. Tratará de um engenheiro francês de passagem por esta estreita Igapé. Se entendi bem, existe aqui uma imagem barroca que, depois de encontrada numa praia local (em 1600 e tal), foi levada à principal fonte desta pequena cidade, a fim de ser lavada da areia e do sal. No lugar da lavagem, está construída uma pequena capela (chamada de “Gruta do Senhor”) porque os católicos pobres — sempre ardentes, estranhos —, acreditando nos poderes milagrosos da pedra sobre a qual a imagem havia sido colocada para ser limpa, começaram a lhe retirar lascas e mais lascas. Após séculos disso, porém, a pedra continuou com o mesmo tamanho, dando origem à lenda da “pedra que cresce”.

 

O hospital também cresce. E nós passeamos por entre os seus miasmas (eu, a fugir da mulher que sorri de saudade da loucura que não passa), no Brasil que me parece cada vez mais triste, apesar das festas católicas e dos “folguedos” de homens graves fantasiados em Folias e Reisados que, aos meus olhos, não contêm qualquer particularidade especial em matéria de reminiscências quinhentistas de um país colonizado pela cultura mais atrasada da Europa (uma separação profunda entre a América espanhola e esta tão gigantesca porção de terra que não possui formas dialetais; no máximo, apenas sotaques, ou diferenças mínimas de entonação do idioma português. Presenteiam-me com livros e mais livros já me abarrotam a mala: fazem longas dedicatórias nos volumes quase todos frágeis, brochuras impressas em papel barato, nenhum com capa dura e sobrecapa).

 

O conteúdo deles eu não posso avaliar senão muito vagamente: personagens um tanto mecânicos, a atração do “sertao” em alguns, e o meio urbano ralo que, aqui e ali, subitamente termina, às vezes, como se as árvores (gordas) espreitassem como a magra moça atrás da porta do hospital: aquela que me chama e me atrai, nos sonhos recorrentes da febre, como uma doença pode atrair para a morte os estrangeiros no estrangeiro que os suplanta de estranheza até o limite do desconforto. Que alguém se suicide — como fez o fraco Sweig — num país assim, não me espanta nem nunca vai me espantar, quando, na volta, eu recorde o Brasil como uma mancha nas paredes cartesianas do meu crânio pronto para se espatifar talvez num acidente tão longe daqui como da lua brasileira que parece uma moeda de ouro cunhada muito recentemente (entretanto, não é mais uma nação tão jovem quanto eles parecem gostar de pensar que a sua nação ainda seja)...

 

07/8/49 — Hoje, escrevo apenas para registrar que não escreverei nada.

 

* Oswald de Andrade

** Iguapé

 

Ilustração por Janio Santos

 

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