ficcao cronica virtude

1. A história textual do Ocidente é infestada de manuais de boas maneiras, guias de estilo e panfletos com dicas de elegância. O século 19, sobretudo, foi fértil nesse gênero de doutrina. Alguns, como Beauty, vigor and elegance (Seth Conly Publ., 1874) e Bashfulness cured: ease and elegance of manners (Hurst e Co., 1872), entendem a elegância como resultado de boa saúde: dieta, higiene e exercícios físicos. Outros, como o Novo manual de civilidade português (1883), a compreendem como pura educação exterior e dão dicas mais diretas: como se dirigir a uma viúva, como se portar diante de uma mesa com frutas raras ou o que fazer com as luvas ao entrar numa igreja. Os manuais que conhecemos hoje são herdeiros deste segundo tipo. Para nós, a elegância é uma carapaça bem lustrada.
Foi também no século 19 que Charles Baudelaire escreveu famosamente sobre o dândi, aquele que “não tem outra profissão que não a elegância” e cujo ícone maior foi George Bryan, o Beau Brummell (1778-1840). Brummell foi biografado por Barbey d’Aurevilly e aparece também no Traité de la vie élégante, de Balzac. Esses autores são a tríade fashionable do oitocentos, que — cada um a seu modo — deu ares de filosofia à elegância. Em seu longo tratado, Balzac estabeleceu inclusive algumas leis gerais, como “A vida elegante é a arte de animar o ócio” (III) e a conhecida “O efeito mais essencial da elegância consiste em ocultar os meios” (XXIII). Foi ele, também, o primeiro a se afastar do dandismo, condenando-o como “heresia da vida elegante”. Onde há ostentação e submissão à moda, segundo Balzac, não pode haver pensamento.
No entanto, ninguém chegou a realmente pensar a elegância para além dos enunciados de autoridade e do endinheirado monopólio de Paris. Ninguém de fato se libertou do monstruoso e perfumado abraço do dândi no século 19. Arrisco dizer que nem no 20, quando a voz polida da elegância subsumiu nos gemidos de horror.
Seria necessário esperar o século 21, e o livro de Horace Aliananga.

2. Horace Aliananga nasceu em Eldoret, no Quênia, em 1954. Filho mestiço de um soldado inglês, cresceu no tempo em que a cidade era dividida entre o norte africâner e o sul britânico, fato que o tornou, como escreveu em suas memórias, “um homem sem norte nem sul”.
No final dos anos 1960, por meio de peripécias que não conhecemos, já se encontrava instalado em Londres, “confortavelmente obscuro na névoa dos restaurantes de fish-and-chips do subúrbio”. Formou-se dentista, profissão que exerceria até a morte, em 2003. Seu consultório ficava próximo à estação Thornton Heath. Morreu atropelado na rua em que trabalhava. Deixou viúva e três filhos.
Aliananga não fazia parte dos círculos escreventes da capital inglesa, não conhecia a comunidade de artistas expatriados, não publicou uma frase sequer em vida — a própria família mal sabia de suas inclinações literárias até se deparar com os dois manuscritos, modestamente encadernados, que ele guardava no consultório.
Em 2010, os filhos publicaram suas memórias, Son of where, e, dois anos depois, Elegance as intellectual virtue, ambos pela Displace Press, editora especializada em autores das diásporas. O mais provável, no entanto, é que o próprio Aliananga desaprovasse a publicação desses livros.

3. Son of where (ao que tudo indica, o primeiro a ser escrito) é menos uma autobiografia do que uma coleção de pequenos textos: parágrafos semifilosóficos, anotações de seu entorno (o borough de Croydon), comentários ligeiros sobre o cotidiano, livros, filmes, visitas a museus, alguns desenhos e aquarelas. Nada sobre o preço da carne nem sobre seus familiares diretos, e bem pouco sobre a condição de exilado. A própria figura de Horace é esmaecida: o livro fornece informações esparsas sobre seu autor, ou melhor, diz — elegantemente — apenas o necessário.
A voz narrativa de Son of where é inteligente (embora adoravelmente trivial) e tem plena confiança na inteligência de seu interlocutor. O sangue quase coagulado do país natal, os pânicos do exílio, os brutos perdigotos da política — tudo isso é sugerido, mas jamais abordado frontalmente.

4. A elegância como virtude intelectual, por sua vez, é um livro bem menos fleumático. Trata-se de uma reunião de aforismos, um dos muitos pontos de diálogo com o Traité de Balzac (que se mantém sempre no horizonte), mas as suas máximas lembram sobretudo La Rochefoucauld e La Bruyère — ou E.M. Cioran, para tomar um exemplo mais recente. Entretanto, Aliananga é uma espécie de anti-Balzac. Seu livro não é normativo, não dá ordens. Eis uma das primeiras máximas: “Não há nada mais deselegante do que um manual de elegância”.
As páginas iniciais são dedicadas à explicação das virtudes intelectuais (aretai dianoetikai) no pensamento de Aristóteles. Para Aristóteles, o saber está dividido em saberes: os teóricos (sophia, episteme e nous), os práticos (phronesis) e os produtivos (techné). Aliananga quer inserir a elegância na esfera dos saberes produtivos, aqueles ligados à poiesis (ou seja, à poesia como criação de mundos) e que, em última instância, contribuem para a formação das virtudes morais. Essa criação deve ser necessariamente livre. Por isso, o livro não se rebaixa jamais a dar dicas.
O conceito de elegância de Aliananga tem como núcleo uma anedota contada por d’Aurevilly em sua biografia de Brummell. Cansados de tanta roupa, tanto ouro e royal purple, os dândis da última fase — que já formavam algo como uma seita de cristianismo primitivo, antes de a mística ser engessada na gramática sacra que conhecemos — acabaram por renegar a riqueza do vestuário e a lixar tudo que tinham. Desgastaram os tecidos de suas blusas, calças, casacos e túnicas, até que o que restou foram fios muito finos, como gaze de curativos. A verdadeira elegância, para esses dândis extremos, começava a se parecer com a nudez.
Assim, se Balzac podia dizer, sem nenhuma vergonha, que não existia mais superioridade na vida elegante, pois todas “as pessoas se tratam de poder para poder”, Aliananga diz o oposto: “Quanto mais engrandecido o homem, menos elegante será”. Todo poder é cafona. “O elegante está além de nu”, ele escreve. Esse aforismo (no original: “Elegance is beyond naked”) também poderia ser traduzido, um tanto nietzscheanamente, por: “A elegância é o além-do-nu”.
É a partir dessa nudez ontológica que Aliananga desenvolve sua visão de mundo. Vem daí, por exemplo, um dos aforismos mais importantes de A elegância como virtude intelectual: “Poucas coisas são tão elegantes quanto um homem prestes a ser fuzilado fumando seu último cigarro”.
Daí, também, sua máxima mais repetida: “A maior virtude do penteado de Maria Antonieta foi a guilhotina”.

5. Aqui, portanto, a trivial bonhomie de Son of where foi definitivamente abandonada, em prol de uma inteligência ativa e criativa.
O desprezo de Aliananga pelo poder, sobretudo pelas formas externas que ele assume (o penteado, o relógio de ouro, a farda, o discurso inflamado, a moda das lojas de departamentos, até mesmo o uniforme de carteiro), tem sua contrapartida na crença quase mística na potência interior da elegância. Se, por um lado, ele diz que “A elegância vê um tanque de guerra da mesma maneira que a família Samsa via o Inseto”, por outro, é capaz de escrever, exaltado, que “O pensamento elegante é a abertura para a criação desabrida — artística, social, íntima”.
Entre a raiva e o louvor, porém, está a ironia, sob cujo signo a maioria dos aforismos se encontra. A ironia de Aliananga, muito similar à dos românticos alemães ou mesmo à do nosso Machado de Assis, não permite que nada muito pesado se solidifique, nenhum palácio de governo, nenhum fórum municipal, nenhuma opinião granítica. Para ser verdadeiramente irônico, sugere Aliananga, é preciso acolher todos os pontos de vista antes de falar, e, no entanto, “Um homem que fala com bocas opostas ao mesmo tempo tende a ficar calado”.
As torções e retorções da ironia são o modus operandi do pensamento elegante, mas uma hora a tomada de posição se torna inevitável. Para Aliananga, tomar partido parece ser uma forma de bajular o poder, na esperança de que uma fração de suas bênçãos recaia sobre o bajulador. Assim, a única maneira de fazê-lo de forma minimamente honesta é temperar a opinião com a indecidibilidade da elegância, “cujo Ser é todo feito de ‘pode não ser’” (“Elegance: a Being made of maybe-knots”). Mas o melhor mesmo seria não falar nunca. “O mais elegante é nunca ter nascido.”

6. A virada que Horace Aliananga empreendeu em seu livro devolve à elegância seu caráter original, que é a repulsa radical a todo tipo de poder, o impulso de rebaixá-lo sempre que a sua gloriosa cabeçorra assoma no outro (mas sobretudo em nós mesmos), para que o verdadeiro pensamento frutifique. Dito de outro modo: a elegância é a única maneira de exercer o poder “sem se sujar, porque o que está além-de-nu é imaculável”. Uma filosofia que equivalha a um paletó em frangalhos.

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