Escritora refaz o percurso que a levou a fazer um perfil fictício do abolicionista para o romance histórico Mundos de Eufrásia

Além da recordação do rosto forte de Joaquim Nabuco, visto em alguma fotografia nos livros de história na escola, e da atuação como célebre abolicionista, eu tinha na memória fragmentos do seu discurso na inauguração da Academia Brasileira de Letras, em 1896. O discurso foi lido em uma aula de literatura brasileira, na faculdade. “Somos uma nação que tem o seu destino, seu caráter distinto”, proclamou Nabuco, “e só pode ser dirigida por si mesma, desenvolvendo sua originalidade com os recursos próprios, só querendo, só aspirando à glória que possa vir do seu gênio”. O curso era sobre a identidade nacional na literatura, tema recorrente ainda hoje na Academia. Mas, no século 19, era o tema que se respirava e vivia nas ruas. A Europa era o espelho no qual o brasileiro se mirava, e a língua portuguesa, a recordação opressora da nossa recente condição de colônia. Uma língua que falava mais do outro, o lusitano, do que de nós, brasileiros. Escritores como José de Alencar e Machado de Assis, poetas como Castro Alves, tentavam, cada um a seu modo, fundar e formar uma literatura, uma linguagem, que fosse o nosso reflexo, que expressasse a alma brasileira. Ao discursar na inauguração da ABL, Joaquim Nabuco exaltava justamente a busca por uma identidade nacional, que ele já vislumbrava como peculiar. Não seria possível escapar da influência que o estrangeiro emanava, nem da que a história do Brasil até então impunha, mas era possível e urgente encontrar uma originalidade, uma faísca própria dentro do caldeirão de diversidades que era, e é mais ainda hoje, o Brasil. 
Mais tarde, ao iniciar a escrita do romance Mundos de Eufrásia, publicado recentemente pela editora Record, baseado na vida de Eufrásia Teixeira Leite, mulher emancipada na esfera pública e privada, para os padrões do século 19, e, certamente, ainda para os atuais, reencontrei Joaquim Nabuco. Ele e Eufrásia viveram um romance por 15 anos, entre idas e vindas. Um romance que os acompanhou na juventude até o despertar da maturidade. Nabuco viu Eufrásia se tornar a primeira mulher a atuar na bolsa de valores da Europa, tornando-se uma grande financista e empreendedora. Eufrásia viu Nabuco se tornar o político eloquente, o homem idealista que abraçou a causa abolicionista e fez dela a sua vida.

CONSCIÊNCIA ABOLICIONISTA
“Acabar com a escravidão não nos basta”, disse Nabuco em um dos seus discursos. “É preciso destruir a obra da escravidão. Compreende-se que em países velhos, de população excessiva, a miséria acompanhe a civilização como sua sombra, mas em países novos, onde a terra não está senão nominalmente ocupada, não é justo que um sistema de leis concebidas pelo monopólio da escravidão produza a miséria no seio da abundância, a paralisação das forças diante de um mundo novo”. Nabuco tinha a consciência de que o movimento abolicionista não era projeto para um partido político, mas para a história brasileira. Não visava apenas uma raça, mas um povo. Por isso, a sua desolação depois de 13 de maio de 1888, ao constatar que após abolição nada mais havia sido feito pelos escravos, no sentido de integrá-los à sociedade. Atitude que para Joaquim Nabuco era necessária para se evitar, a longo prazo, o aumento da miséria e da injustiça social. Mas, no dia 14 de maio, a história já virava apressadamente a sua página para a campanha republicana.
A pesquisa me aproximava cada vez mais de um Joaquim Nabuco apaixonado pelos grandes ideais, a filosofia e a literatura. Visionário em relação ao processo histórico de seu país, extremamente lúcido sobre o futuro brasileiro, o Nabuco atuante na esfera pública era um homem de características resolutas e indiscutíveis. No entanto, na ficção, o terreno é sempre mais fértil quando se pode escavá-lo profundamente, e quando a escavação é feita à base de pedra e fogo, sem poupar esforços para trazer à tona a raiz. Raiz criativa, raiz imaginária, mas fundada por toda investigação que a alimentou. Por isso, raiz verossímil. Para uma romancista, o material recolhido, as informações levantadas, os dados e os fatos registrados, os documentos lidos, todo esse material é o início e não o fim do caminho. A pesquisa havia me trazido a personalidade histórica, mas se ao escritor cabe conhecer as personalidades, não lhe cabe conviver muito tempo com elas. Para conviver, o escritor precisa de personagens.

ENTRE O VIVO E O FICTÍCIO
Lembrei da imagem de Nabuco nos livros da escola, e procurei outras imagens dele em outros livros. A respeito da construção de personagens, Antonio Candido dizia que “o romance se baseia num certo tipo de relação entre o ser vivo e o ser fictício, manifestada através da personagem, que é a concretização deste”. Assim, depois de percorrer toda biografia e bibliografia de Nabuco e a respeito dele, o encontro mais forte que tivemos foi através de seu retrato.
A foto, de 1876, encontrada em uma iconografia, revela um jovem de ar imponente, cabelos ondulados, bigodes fartos e um olhar direto, que, no entanto, não olhavam o fotógrafo, mas outro horizonte. O que mais chamava a atenção, porém, era a postura. O tronco se direcionava para um lado, a cabeça para outro, um braço repousava no quadril, o outro, esticado ao longo do corpo, segurava um chapéu. A imagem não revelava unidade, nem ponto de equilíbrio. O corpo apontava uma direção, o olhar se virava para o lado oposto. Enquanto um braço aparentava acompanhar o movimento de seguir adiante, o outro parecia que estava farto de tudo e buscava repouso. Na época, Nabuco tinha 27 anos. Era formado em direito, mas desinteressado em seguir o rumo jurídico. Amante da poesia, da filosofia e da história, dos salões, da boemia e do Velho Mundo. Próximo da política liberal, sob a influência do pai, Nabuco de Araújo, mas hesitante entre a monarquia e a república. Já havia trabalhado como advogado, jornalista, cronista, crítico de teatro e literatura, assumia agora o seu primeiro cargo público, como diplomata. Mas a foto dizia que, apesar do emprego estável, a busca continuava. Nabuco voltava-se para todas as direções, como se quisesse abraçar o mundo de uma só vez. “A criação literária começa com as consequências dos atos, não com os atos em si mesmo”, disse uma vez a escritora americana Katherine Anne Porter, “são nas reverberações que se inicia o trabalho do escritor”. E era desse modo que eu enxergava aquela imagem de Nabuco. Uma reverberação do jovem interessado pela vida em todos os seus aspectos, tão interessado a ponto de multiplicar-se em outros, a ponto de hesitar diante de caminhos estabelecidos, a desejar experimentar todas as direções. Ali estava um vislumbre da personagem, indicado pelo próprio Nabuco. A pessoa, antes, muito antes de tornar-se a personalidade histórica. Ali iniciava a trajetória de um personagem desfeito de certezas, mas repleto de questionamentos.
Não era apenas o Joaquim Nabuco das conferências e dos discursos que eu buscava, mas o Nabuco antes de subir ao palanque e depois de descer dele, o Nabuco jantando com o pai, seu grande ídolo, e a mãe, Ana Benigna. “Devo interessar-me pelos acontecimentos?”, perguntou uma vez a escritora Clarice Lispector, ela mesma respondendo que não se interessava pelos fatos em si, mas pela repercussão dos mesmos nos indivíduos. E era essa repercussão, esse eco de pensamentos e emoções, que eu procurava no menino Nabuco que viu pela primeira vez um jovem escravo fugido e ferido, que presenciou aos oito anos a morte de sua madrinha, por quem foi criado até essa idade; no rapazinho que adorava a agitação da corte na mesma intensidade que adorava a exaltação da poesia; no jovem recém-formado que defendeu no tribunal um escravo que havia assassinado o seu senhor, convencendo a todos que ele havia agido em defesa própria; no jovem que se apaixonou pela bela Eufrásia e com ela viveu uma longa, mas impossível história de amor; no homem que dedicou a sua vida à causa abolicionista, e tantos outros Nabucos.
Nessas repercussões, formadas de pensamentos, sentimentos, palavras e atos, estão as circunstâncias imaginárias que partem da personalidade histórica, da fotografia cristalizada, e que buscam, num esforço incessante, atravessar suas fronteiras, alcançar uma realidade além do documento e da imagem, sem a intenção de definir um retrato, mas de desenhar um espírito, de construir internamente uma trajetória. Como se o modelo saísse da fotografia e ganhasse as ruas, como se a voz dos palanques alcançasse nossos ouvidos.

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