A Companhia das Letras está realizando um ótimo trabalho em editar a obra do escritor chileno Roberto Bolaño (1950-2003), ainda que cometa alguns pecados na escolha de certos títulos. Por que deixar de lado a enciclopédia farsesca de monstros que é La literatura nazi en América e preferir o confuso Monsieur Pain? O mais recente a sair no Brasil é a coletânea de contos Chamadas telefônicas, que destaca o talento de Bolaño com narrativas breves, sobretudo para o leitor que teve contato com o seu legado a partir de “gigantes” como Detetives selvagens e 2666. No entanto, sua poesia permanece inédita no Brasil.

 

Até meados dos anos 1990, Bolaño havia dedicado a maior parte dos seus escritos à poesia, ainda que fosse um poeta irregular. Mas aí está o detalhe sui generis do seu universo: trata-se de um autor exemplar em escrever sobre poetas de obra incompleta, ou mesmo inexistente (gente que acreditava que a vida é um modo de fazer literatura); e não um grande poeta de fato. É sobre isso que trata algumas das suas obras seminais como Detetives selvagens e Estrela distante, narrativas sob o signo do horror político vivido pela América Latina na segunda metade do século passado.

 

O começo da sua produção poética data de meados dos anos 1970 e foi marcada pelo juvenil Manifesto Infrarrealista, que propunha uma nova poética para um continente enclausurado por ditaduras, onde os grandes ídolos da literatura já não pareciam mais fazer qualquer sentido. O Manifesto Infrarrealista se orgulhava de que seus “parentes” mais próximos eram os “francoatiradores, os planeiros solitários que assolam os cafés dos mestiços da latino-américa, os massacrados em supermercados, em suas tremendas desjuntivas indivíduo-coletividade; a impotência da ação e da busca (a níveis individuais ou bem enlameados em contradições estéticas) da ação poética”.

 

O Manifesto Infrarrealista tornou-se famoso justamente por ter sido ficcionalizado em Detetives selvagens, que descreve as angústias de um grupo de jovens escritores à solta na turbulenta capital mexicana dos anos 1970. Nessa época, refugiado do Chile de Pinochet, Bolaño e seus companheiros infrarrealistas eram inspirados sobretudo pela literatura beatnik norte-americana. Essa sua produção inicial foi reunida em publicações de vida efêmera, atualmente relíquia para colecionadores.

 

Na sua poesia é possível encontrarmos a gênese de uma das temáticas favoritas da sua literatura: o fascínio pelo clima noir de livros policiais, numa série de poemas sobre detetives (é famosa a declaração de Bolaño de que seu sonho era ser detetive criminal). Essa série, e boa parte da sua poesia, está reunida na antologia póstuma La universidad desconocida.

 

O escritor Ronaldo Bressane traduziu alguns poemas do livro póstumo Tres, em que o escritor lista uma série de sonhos e pesadelos (na verdade, o imaginário do escritor é sempre atravessado por um certo tom onírico e surrealista), que acaba deixando transparecer algumas das suas maiores influências literárias. É o caso de Georges Perec. Então, para os leitores do Pernambuco deste mês, um Bolaño inusitado.

 

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