Wislawa Traducao Arte sobre reproducao set19

 

Certa vez, Wisława Szymborska (1923-2012) escreveu: “A poesia, como, aliás, toda a literatura, retira suas forças vitais do mundo em que vivemos, das vivências realmente vividas, das experiências realmente sofridas e dos pensamentos que nós mesmos pensamos.” Esse trecho foi retirado do livro que traduzi, Correio literário, a ser publicado em breve pela Editora Âyiné, no qual Szymborska tece críticas e aconselha jovens escritores e poetas a respeito dos textos e poemas enviados para avaliação à revista Vida literária, onde ela trabalhava. Ao lermos a obra da autora, percebemos que seguiu ao pé da letra os preceitos que recomendava aos jovens literatos. Apresentamos, nesta seleção, poemas de Szymborska até agora inéditos em português, que ilustram sua maestria na transformação em pura poesia de sensações, percepções e sentimentos oriundos de suas experiências de vida e reflexões, sejam elas provenientes de observações de viagens, fenômenos e seres da natureza, fatos corriqueiros da vida diária, impressões dos sonhos ou a perda dolorosa de um ente querido.

 

***

A memória finalmente

A memória finalmente tem o que procurava.
A mãe me apareceu, revelou-se para mim meu pai.
Sonhei para eles uma mesa, duas cadeiras. Sentaram-se.

Eram de novo meus e de novo para mim viviam.
Com os dois lustres de suas faces, na hora cinzenta,
eles cintilaram como para Rembrandt.

Apenas agora posso lhes contar
por quantos sonhos vagaram, de quantos tumultos
puxei-os de baixo das rodas,
em quantas agonias e por quantos braços meus desfaleceram.
Podados – rebrotavam tortos.
A absurdidade os obrigava ao mascaramento.
Não importa que não pudessem sentir dor fora de mim,
se eles sentiam dor dentro de mim.
A turba sonhada ouvia quando eu gritava mamãe
para algo que pulava piando nos galhos
e ria por eu ter um pai com laço de fita na cabeça.
Despertava envergonhada.

E aí, finalmente.
Numa certa noite comum,
de uma sexta normal para o sábado,
eles, de repente, me chegaram do jeito que eu os queria.
Sonhei com eles, mas como se libertos dos sonhos,
obedientes apenas a si mesmos e a nada mais.
No fundo da imagem, todas as possibilidades se apagaram,
aos acasos faltava a forma necessária.
Somente eles alumiavam lindos, pois semelhantes.
Apareceram-me por um tempo longo, longo e feliz.

Despertei. Abri os olhos.
Toquei o mundo como uma moldura entalhada.

(1967)

 

Aniversário

Duma vez tanto mundo de todo canto do mundo:
morenas, moreias e mares e auroras,
e fogos e focas e flumes e floras —
como eu ajeito, onde ponho agora?
Os chernes e chifres e chuvas e charcos,
begônias, peônias — onde eu os guardo?
Argilas, gorilas, berilos, chilradas —
talvez seja muito — demais — obrigada.
Que jarra comporta a bardana e o bolor,
a pompa, o pepino, o problema e o pavor?
Onde ponho a prata, onde pego um jabu,
me diga o que eu faço com a zebra e o zebu?
O dióxido é coisa valiosa e importante,
o octópode aqui e a centopeia adiante!
O valor nas alturas, imagino seu preço —
muito obrigada, mas eu não mereço.
Não é muito pra mim o sol e o poente?
Como vai brincar disso a pessoa vivente?
Vivo só um momento, momento que é presto,
não percebo o futuro e confundo o resto.
Do vazio, sou incapaz de tudo distinguir.
Vou perder as violetas na pressa de ir.
Mesmo sendo o menor, o custo é um horror:
a fadiga da haste e a folhinha e a flor,
nesse mundo, às cegas, uma única vez,
com soberba, exata, frágil com altivez.

(1972)

 

Clochard 

Em Paris, de manhãzinha até o anoitecer,
em Paris como
em Paris que
(ó santa ingenuidade da descrição, me ampare!)
no jardim perto da catedral de pedra
(não foi construída, oh não,
foi tocada num alaúde)
adormeceu na pose de sarcófago
o clochard, monge secular renunciante.

Mesmo se tinha algo – perdeu,
e tendo perdido, não deseja reaver.
Ainda lhe devem o soldo pela conquista da Gália –
superou, já não repisa isso.
Não foi pago no décimo-quinto século
por posar como o ladrão do lado esquerdo –
esqueceu, já parou de esperar.

Ganha para o vinho tinto
tosando os cães das redondezas.
Dorme com a cara de inventor de sonhos
depois de enxamear a barba para o sol.

As quimeras cinzentas se desempedram
(esvoatáceas, minicaninas, macacampiras e maripocrias,
sapoquentes, imprevisônias, cabeças apernaltadas,
plurifeitio, allegro vivace gótico)

e olham para ele com uma curiosidade
que não têm por mim, nem por vocês,
Pedro prudente,
Miguel ativo,
Eva engenhosa,
Bárbara, Clara!

(1962)

 

Coloratura 

Sob a peruca arbórea se planta
e no esparramar eterno canta
sílabas italianas prateadas
e finas como o fio da aranha.

Ama um Homem em DÓ maior,
ama e quer sempre mais amor,
tem pra ele na goela espelhinhos,
triplica palavras, pipios, pipilinhos
com crispes e crepes crestados
cria cordeiros crespados
a folgazã de filigrana.

Mas será que ouço bem? Pobre menina!
A furto o fagote negro dela se aproxima.
Nos sobrolhos sombrios a melodia pesada
a pega e quebra no meio do Ah! –
Basso Profondo, tenha dó de mim,
dó-re-mi mene tequel parsim!

Quer que ela cale? Quer seduzi-la
nos bastidores terrenos do mundo? Na terra
da rouquidão crônica? No Tártaro do catarro?
Onde está o eterno pigarro?
Onde se movem as boquinhas de peixe
das almas infelizes? Lá?

Oh, não! Oh, não! Chegou a má hora.
Não se pode perder a pose agora!
Por um momento oscila seu destino atroz
num fio de cabelo pressentido na voz,
pausa, para que ela possa respirar,
quando se torna cristal a vox humana
e soa como se semeasse luz.

(1962)

 

Despedida de uma vista 

Não tenho mágoa da primavera
por começar de novo.
Não a culpo
por cumprir a cada ano
com suas obrigações.

Entendo que minha tristeza
não vai deter o verde.
A folhinha da grama se oscila,
é apenas ao vento.

Não me causa sofrimento,
que os capões de amieiro perto d’água
de novo tenham sobre o que farfalhar.

Reconheço o fato
de que – como se você ainda vivesse –
a margem de certo lago
permanece linda como antes.

Não guardo rancor
da vista pela visão
da baía banhada pelo sol.

Eu até consigo imaginar
que outros não nós
estejam sentados, neste momento,
num tronco de bétula caído.

Eu respeito seu direito
ao sussurro, ao riso
e ao silêncio feliz.

Até suponho
que os una o amor
e que ele a abrace
com um braço vivo.

Algo novo apassarinhado
sussurra nos juncais.
Sinceramente desejo
que eles o ouçam.

Não demando nenhuma mudança
das ondas que batem na margem,
ora pressurosas, ora preguiçosas
e que não me obedecem.

Não exijo nada
da água profunda perto da floresta,
ora esmeralda,
ora safira,
ora negra.

Com uma coisa não concordo.
Com minha volta lá.
O privilégio da presença –
renuncio a ele.

Sobrevivi a você o suficiente
e apenas o suficiente
para pensar de longe.

(1993)

 

 

O dia de amanhã – sem nós

Espera-se que a manhã seja fria e enevoada.
Do oeste,
nuvens de chuva começarão a se deslocar.
A visibilidade será fraca.
As estradas escorregadias.

Gradualmente, ao longo do dia,
sob a influência da alta pressão do sul,
é possível que haja céu claro local.
Porém, por causa do vento forte e variável em rajadas,
podem surgir tempestades.

À noite,
melhora do tempo em quase todo o país,
apenas na região sudeste
há possibilidade de precipitações.
A temperatura cairá significativamente,
em compensação, a pressão aumentará.

O dia de amanhã
promete ser ensolarado,
embora, para os ainda vivos,
seja útil um guarda-chuva.

(2005)

 

O sonho horrível do poeta 

Imagine só o que me aconteceu no sonho.
Na aparência, tudo igualzinho a aqui.
O solo sob os pés, água, fogo, ar,
vertical, horizontal, triângulo, círculo,
lado esquerdo e direito.
Condições climáticas toleráveis, paisagens bonitas
e muitos seres dotados de fala.
Porém diferente da fala da Terra.

Nas frases, o modo incondicional domina.
Os nomes aderem estritamente às coisas.
Nada a acrescentar, tirar, mudar ou deslocar.

O tempo é sempre aquele que está no relógio.
O passado e o futuro têm um alcance estreito.
Para as recordações, passa um único segundo,
para as previsões, mais um,
que justo agora se inicia.

Palavras, só o necessário. Nunca uma a mais,
o que significa que não há poesia,
e não há filosofia, e não há religião.
Lá as diversões desse tipo não entram em cena.

Nada do que se pudesse apenas pensar
ou ver com os olhos fechados.

Se for procurar, então é por algo evidente ali ao lado.
Se for perguntar, então é sobre aquilo que tem resposta.
Eles ficariam muito surpresos,
se soubessem se surpreender,
de que em algum lugar há razões para se surpreender.

A palavra “inquietação” é tida por eles como obscena,
não teria coragem de estar no dicionário.

O mundo se apresenta claramente,
mesmo na mais profunda escuridão.
Tudo é fornecido por um preço acessível.
Antes de sair do caixa, ninguém exige o troco.

Dos sentimentos – satisfação. E sem parênteses.
A vida com ponto final no pé. E zumbido das galáxias.

Admita que nada pior
pode acontecer a um poeta.
E depois nada melhor
que despertar rapidamente.

(2005)

 

Todos um dia

Todos, um dia, têm alguém querido que morre,
entre ser ou não ser
foi obrigado a escolher o segundo.

Difícil reconhecermos que é um fato banal,
incluído no decorrer dos acontecimentos,
de acordo com os procedimentos;

mais cedo ou mais tarde na ordem do dia,
da tarde, da noite ou da alva que alumia;

e é óbvio como um registro no índex,
como um parágrafo no códex,
como a primeira melhor
data no calendário.

Mas essa é a lei e a contralei da natureza.
Esse, a esmo, é seu omen e amen.
Essa é sua evidência e onipotência.

E só, às vezes,
uma pequena cortesia de sua parte –
nossos entes queridos mortos,
ela joga em nossos sonhos.

(2012)

 

 

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