Ineditos 20 21 A

 

 

Feliz aniversário

                                                                                                     Plutôt la Vie.
                                                                                                     André Breton

 

 

Não tínhamos cidade,
nem tínhamos a língua,
nem a boca, nem o idioma.

Se não houvesse passado trinta e quatro anos
e eu não tivesse amado dois homens
e uma mulher morta,
não fossem os ritos e a tradição
os que deram nome a esta luta,
minha voz seria hoje neve inútil.

Prefiro o mar ao rio,
a única terra igual em todas as viagens,
céu sem nuvens.

Minha vida tem hoje trinta e quatro anos,
quando me pergunto quem sou,
minha resposta está dentro de mim
entre ovários e trompas de Falópio.

Neste caminho, os pássaros
a saudade, les rêves, a menina estrangeira.

Apesar dos elementos químicos,
sobrevivemos porque a alegria é necessária.

O mundo nos pertence,
meu avô sabia disso meses antes
de que eu completasse
estes trinta e quatro,
por isso em silêncio permaneço
uma mulher-menina feita de ossos e cerejas

e cresço nas tempestades.

Posso salvar a mim mesma.
No dia em que fiz trinta e quatro anos
posso dizer e posso escrever
que posso me salvar.

Mas não posso salvar vocês todos.

 

 

Um país

Criei a mim mesma na fragilidade:
vozes nascem dos meus braços.

Paris voltou
e os turistas olham pra minha cara.
A desconhecida
do vento de outro país.

Pensávamos que éramos felizes.

Salve-se, digo a mim mesma.

Se você lembra de como te ensinaram a ler,
leia todos os livros.
Se você lembra de como te ensinaram a rezar,
não se esqueça de que tinha que se ajoelhar.

Eu não mereço a loucura.

Quantas pessoas que você amou?

Tudo que vai embora
se revela, tudo o que vai embora para sempre
nos aproxima do novo.

Por toda a vida somos esse movimento
fingindo que o nosso lar
seja um lugar, um país, um território.

O amor vai junto em cada pátria.

Depois de partir:
a gravidade.

 

 

Quão infecciosos somos, os leitores, para o poema? Deveríamos, nós, os histéricos, ser postos em quarentena para poder ler? Não sei. É difícil separar o conteúdo de uma obra e a ficção que é a entrada dela em nossa vida; sempre chega um momento da nossa relação com um livro (ou disco ou filme) em que já não sabemos onde termina a influência do conteúdo e começa a construção de afeto vinda da performance que é entrar contato com algo pela primeira vez.

Eu ganhei o livro de Sara Herrera Peralta (Cádiz, 1980) do poeta carioca Italo Diblasi, de passagem por Berlim. Estávamos escavando uma livrariazinha espanhola no sul da cidade, quando ele vira pra mim e diz, o dedo marcado na página 13 de um livrinho rosa: “Lê isso aqui”. Era Feliz aniversário, o primeiro poema de Hombres que cantan nanas al amanecer y comen cebolla (Madrid: La Bella Varsovia, 2016). Isso aconteceu dia 17 de agosto. Um dia depois de eu mesma ter completado 34 anos.

Eu tomei um susto e, depois, foi nesse estado de espanto que li o livro – já que tanto a performance ligada à sua descoberta, quanto seus poemas, falam da mesma coisa: não há garantia nos encontros. Habilmente dividido em oito seções, “Hombres (...)” fala o tempo todo de idas e vindas, da solidão que há em partir, mas também da solidão que é ficar. Para Sara, não há diferença entre exílio e permanência, entre o ser-casal e o ser-sozinho. É como se, fazendo o caminho inverso ao de Drummond, Sara nos avisasse: OK, não há porta, mas alguém cunhou a chave. “Minas não há mais”, mas há as malas.

Na noite anterior, tinha lido ainda o livro de estreia de Italo, o excelente O limite da navalha (Rio de Janeiro: Garupa, 2016), que já começa com um poema que diz “há em minha fuga uma vontade intolerável de ficar” (ou algo assim). Me peguei pensando muito nesses versos enquanto traduzia esses quatro textos de Sara, como se fôssemos um triângulo amoroso imaginário, pela semelhança na temática das nossas escritas – a tirania nonsense das escolhas – mas também pelo movimento absurdo de descobrir o poema por meio do abandono causado no leitor-histérico pelas contradições do autor.

Assim, a tradução destes textos de Sara – que aconteceu permeada pelas intervenções da vida – foi uma experiência de aproximação-e-afastamento, de violência-e-apaziguamento, coisas tão típicas do encanto.

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