Mas, afinal, quem sonha mais, Cervantes, o leitor ou Sancho Pança? Tudo porque há sugestões de que Dom Quixote seria, na verdade, um sonho de Sancho Pança, preocupado com o clima extremamente violento da época. Era um tempo de graves injustiças sociais, ataques a mulheres desprotegidas, mandonismo e até, contraditoriamente, de romantismo e sonhos cheios de ilusão, doçura e de conquistas, às vezes reveladas em folhetins sonhosos. Nada agrava Cervantes, que chegou a experimentar os horrores da escravidão.

 

Sabe-se, por exemplo, que Dom Quixote tem dois narradores – como observa Mário Vargas Llosa no prefácio à edição espanhola da comemoração dos 400 anos do livro: o primeiro, no documento que é encontrado pelo próprio Cervantes; e o segundo é o próprio texto do romance.

 

Em ambos, Sancho Pança aparece como um sonhador trapalhão que não entende a missão do amo e, portanto, sonha e cria o seu próprio Quixote o tempo todo. Principalmente no excesso de diálogos que marca o livro e, nesses diálogos, encontra-se a visão do mundo de Cervantes. Neste ponto, ele foi extremamente criterioso, tudo que um autor precisa dizer, diz através dos personagens e não através do narrador. Uma grande lição atual ou melhor, atualíssima: o narrador nunca substitui o autor e, no máximo, representa-o, não lhe cabendo dar opinião no texto. Quando o narrador oferece opinião corre o risco de transformar o livro em autoajuda.

 

A angústia de Sancho com o seu tempo não elimina a possibilidade de ser remunerado por Dom Quixote. Logo que decide acompanhá-lo na sagrada missão de salvar a Espanha, Sancho quer saber o que vai ganhar com a empreitada. Sabe, então, que lhe está reservada a governança de uma ilha. Ou seja, permanecerá isolado e solitário. Mais do que um prêmio, um castigo. Ainda assim, aceita e viverá a grande aventura de acompanhar o amo.

 

As formulações vão se realizando, mesmo quando se percebe que o sonho é muito superior ao sonhador. Cervantes se agiganta como intérprete salvador da Espanha e salvador da miséria humana, mesmo quando luta com moinhos de vento.

 

Cervantes se esmera na arte de criar personagens sem desvinculá-los da missão terrestre. E ambos, Quixote e Sancho, sonham-se a si mesmos, como o leitor sonha com os dois, e sonham com o mundo. O mundo e seus naturais deslizes.

 

Toda essa reflexão é resultado, porém, das inúmeras interpretações do grande livro espanhol, considerando os intricados caminhos que levaram Miguel de Cervantes a escolhê-los. O que, no final das contas, percebe-se que nem ele escolheu os caminhos nem os leitores, o que resulta numa obra aberta, que oferece as mais diversas e divertidas interpretações.

 

Afinal, continuamos e continuaremos sempre sonhadores. Com a esperança de que Sancho prossiga na criação e na recriação deste magnífico Dom Quixote de La mancha. E, se não fosse assim, de que valeria a pena lê-lo? Além do que devemos nos comportar como o ingênuo Sancho, correndo o risco de morarmos numa ilha deserta, ainda que na qualidade de governadores.

 

 

 

 

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